Existia no século IV, pois Jerônimo o menciona, dizendo que era "lido por muitos", e é por ele que inclui Sêneca em seu catálogo de autores cristãos; Agostinho também, citando o verdadeiro Sêneca, diz: "de quem algumas cartas ao apóstolo Paulo são lidas com frequência". O Pseudo-Lino insere um parágrafo em sua Paixão de Paulo (ver p. 470) relatando como Sêneca conversava e se correspondia frequentemente com Paulo, o admirava muito e leu alguns de seus escritos para Nero.
Existem manuscritos tão antigos quanto o século IX, e muitos dos séculos XII a XV. A composição é da pior espécie: apenas sua fama me induz a traduzi-la mais uma vez.
1. SÊNECA A PAULO, saudação
Creio, Paulo, que já foste informado da conversa que tive ontem com meu Lucílio sobre os apócrifos ( ou possivelmente os mistérios secretos) e outras coisas; pois alguns dos que compartilham dos teus ensinamentos estavam comigo. Tínhamos nos retirado para os jardins de Salústio, onde, por nossa causa, aqueles de quem falo, indo em outra direção, nos viram e se juntaram a nós. Certamente desejávamos a tua presença, e quero que saibas disso.Ficamos muito revigorados com a leitura do seu livro, ou seja, algumas das muitas cartas que o senhor endereçou a alguma cidade ou capital de província, e que inculcam a vida moral com preceitos admiráveis. Creio que esses pensamentos não são proferidos pelo senhor, mas por meio do senhor, ou certamente, às vezes, pelo senhor e por meio do senhor: pois tal é a grandeza deles e são impregnados de tamanha nobreza, que creio que gerações inteiras de homens dificilmente seriam suficientes para incutir e aperfeiçoar tais valores. Desejo-lhe boa saúde, irmão.
2. PAULO A SÊNECA, saudação
Recebi sua carta ontem com grande alegria e teria podido respondê-la imediatamente, se tivesse comigo o jovem que pretendia lhe enviar. Pois você sabe quando, por quem, em que momento e a quem as coisas devem ser dadas e confiadas. Rogo, portanto, que não se sinta negligenciado, pois estou respeitando a dignidade de sua pessoa. Agora, pelo fato de você ter escrito em algum lugar que gostou da minha carta ( ou , pelo menos, que gostou de parte dela), considero-me feliz pela boa opinião de um homem como você: pois você não diria isso, você, um crítico, um sofista, o mestre de um grande príncipe, e de fato de todos — a menos que estivesse falando a verdade. Espero que tenha saúde por muito tempo.
3. SÊNECA A PAULO, saudação
Organizei alguns escritos em um volume e os dividi em suas respectivas seções. Estou decidido a lê-los para César, se a sorte me permitir, para que ele possa ouvi -los com mais atenção . Talvez você também esteja presente. Se não, marcarei um dia para que possamos examinar a obra juntos. De fato, eu não poderia entregar este escrito a ele sem antes consultar você, se isso pudesse ser feito sem riscos, para que você saiba que não está sendo negligenciado. Adeus, meu querido Paulo.
4. PAULO A ANNAEUS SENECA, saudação
Sempre que ouço suas cartas serem lidas, penso em você como se estivesse presente e não consigo imaginar outra coisa senão que você está sempre conosco. Assim que você começar a chegar, nos veremos de perto. Desejo-lhe boa saúde.
5. SÊNECA A PAULO, saudação
Sentimos muito a sua saída. O que houve? Quais as razões que o mantêm afastado? Se for a ira da senhora (Popaea) por ter abandonado o antigo rito e seita, e convertido outros, haverá a possibilidade de interceder junto a ela para que considere a sua decisão como tomada após devida reflexão e não de forma leviana.
6. PAULO A SÊNECA E LÚCÍLIO, saudação
Sobre o assunto que você escreveu, não devo falar com caneta e tinta, pois a primeira apenas marca e desenha, enquanto a segunda o mostra claramente, especialmente porque sei que entre vocês — isto é, em seus lares e em vocês mesmos — há aqueles que me compreendem. A todos devemos nos honrar, ainda mais porque os homens aproveitam qualquer oportunidade para se ofenderem. Se formos pacientes com eles, certamente os venceremos em todos os aspectos, contanto que sejam homens capazes de se arrepender de seus atos. Adeus.
7. ANNAEUS SENECA A PAULO E TEÓFILO, saudação
Confesso que fiquei muito satisfeito com a leitura das cartas que enviaste aos Gálatas, Coríntios e Aqueus; e que possamos viver juntos de modo que nos mostremos inspirados pelo divino fervor (horror). Pois é o Espírito Santo que habita em ti e te eleva acima de ti que expressa esses pensamentos sublimes e adoráveis. Gostaria, portanto, que atentasses para outros pontos, para que o refinamento do estilo não seja insuficiente à majestade do pensamento. E, irmão, para não te ocultar nada e não pesar na minha consciência, confesso-te que Augusto se comoveu com as tuas opiniões. Quando lhe li o início do poder (virtude) que há em ti ( talvez ele se refira ao teu exórdio sobre a virtude), suas palavras foram estas: que se admirava de que um homem sem instrução formal pudesse pensar assim. Respondi que os deuses muitas vezes falam pela boca dos simples (inocentes), não pela daqueles que tentam, de forma enganosa, demonstrar o que podem fazer com seu conhecimento. E quando lhe citei o exemplo de Vatienus, o camponês, a quem apareceram dois homens no território de Reate, que mais tarde foram reconhecidos como Castor e Pólux, ele pareceu totalmente convencido. Adeus.
8. PAULO A SÊNECA, saudação
Embora eu saiba que César, mesmo que às vezes cometa deslizes, é um admirador de nossas maravilhas, permita-se sentir-se, não magoado, mas admoestado. Pois creio que você tomou uma atitude muito séria ao trazer à sua atenção um assunto alheio à sua religião e educação. Já que ele é um adorador dos deuses das nações, não vejo por que você achou que deveria informá-lo sobre isso, a menos que eu deva presumir que você o fez por um apego excessivo a mim. Rogo-lhe que não o faça no futuro. Pois você deve ter cuidado para não ofender a imperatriz em seu amor por mim: contudo, sua ira não nos prejudicará se durar, nem nos fará bem se não durar [ isso é um absurdo ]. Como rainha, ela não se irritará; como mulher, ela se ofenderá. Adeus.
9. SÊNECA A PAULO, saudação
Sei que você não está tão perturbado por sua própria causa pela minha carta sobre a apresentação de suas cartas a César, quanto pela natureza das coisas, que tanto desvia a mente dos homens de todo aprendizado e conduta corretos — de modo que não me surpreende, pois aprendi isso com certeza por muitos exemplos. Portanto, ajamos de maneira diferente, e se no passado algo foi feito de forma descuidada, você me perdoará. Enviei-lhe um livro sobre elegância de expressão (um acervo de palavras). Adeus, meu querido Paulo.
10. A SÊNECA, PAULO, saudação
Sempre que lhe escrevo e não coloco meu nome depois do seu ( veja o cabeçalho ), faço algo grave e incompatível com a minha posição (seita). Pois devo, como já declarei tantas vezes, ser tudo para todos e observar em sua pessoa o que a lei romana concedeu à honra do Senado, escolhendo o último lugar na escrita ( texto , leitura) de uma carta, não me esforçando para fazer o que me apraz de maneira confusa e vergonhosa. Adeus, mestre devotado. Dado no dia 5 das calendas de julho; Nero, pela quarta vez, e Messala, cônsules ( 58 d.C. ).
11. SÊNECA A PAULO, saudação
Salve, meu querido Paulo. Se você, homem tão grandioso, tão amado em todos os sentidos, estiver — digo não unido — mas intimamente associado a mim e ao meu nome, certamente tudo correrá bem para o seu Sêneca. Já que você é o ápice e o pico mais alto de todos os homens, não me alegraria estar tão perto de você a ponto de ser considerado um segundo eu seu? Não pense, então, que você é indigno de ser mencionado em primeiro lugar no cabeçalho das cartas, para que eu não pense que você está me testando em vez de brincar comigo — especialmente porque você sabe que é um cidadão romano. Pois o título que é meu, eu gostaria que fosse seu, e o seu, eu gostaria que fosse meu. Adeus, querido Paulo. Dado no dia 10 das calendas de abril; Aproniano e Capito, cônsules (59).
12. SÊNECA A PAULO, saudação
Salve, meu querido Paulo. Pensas que não estou triste e pesaroso por teu povo inocente ser tantas vezes condenado ao sofrimento? E que todo o povo te considera tão insensível e propenso ao crime, a ponto de te considerares o autor de todas as desgraças da cidade? Contudo, suportemos isso com paciência e contentemo-nos com o que a fortuna nos trouxer, até que a felicidade suprema ponha fim aos nossos problemas. As gerações passadas tiveram que suportar o Macedônio, filho de Filipe, e, depois de Dario, Dionísio, e os nossos tempos suportaram Caio César: para todos eles, a sua vontade era lei. A origem dos muitos incêndios que Roma sofre éClaro. Mas se homens humildes pudessem expressar o motivo, e se fosse possível falar sem risco neste tempo sombrio, tudo ficaria claro para todos. Cristãos e judeus são comumente executados como instigadores do incêndio. Quem quer que seja o criminoso, cujo prazer é o de um açougueiro, e que se encobre com uma mentira, ele está reservado para o seu tempo: e assim como o melhor dos homens é sacrificado, um por muitos, assim ele, que jurou morte por todos, será queimado no fogo. Cento e trinta e duas casas e quatro quarteirões foram queimados em seis dias; o sétimo trouxe uma pausa. Rezo para que você esteja bem, irmão. Dado o dia 5 das calendas de abril; cônsules Frugi e Bassus (64).
13. SÊNECA A PAULO, saudação
Grande parte de suas obras está envolta em alegoria e enigma, e, portanto, a grande força que lhe foi dada, tanto em matéria quanto em talento (?), deve ser embelezada, não digo com elegância de palavras, mas com certo cuidado. Nem deve temer o que me lembro de você ter dito muitas vezes: que muitos que se dedicam a tais coisas viciam o pensamento e enfraquecem a força da matéria. Mas desejo que você ceda a mim e dê espaço ao gênio do latim, e embeleze suas nobres palavras, para que o grande dom que lhe foi concedido seja dignamente tratado por você. Adeus.
Dado no dia anterior aos noves de junho; cônsules Leão e Sabino ( inexistentes ).
14. PAULO A SÊNECA, saudação
Às suas meditações foram reveladas as coisas que a Divindade concedeu a poucos. Com confiança, portanto, semeio em um campo já fértil uma semente prolífica, não matéria sujeita à corrupção, mas a palavra eterna, uma emanação de Deus que cresce e permanece para sempre. A esta sabedoria você já chegou e verá que ela é infalível — de modo que poderá julgar que as leis dos pagãos e dos israelitas devem ser evitadas. Você poderá se tornar um novo autor, demonstrando com a graça da retórica a sabedoria irrepreensível de Jesus Cristo, que você, tendo-a quase alcançado, infundirá no monarca temporal, em seus servos e em seus amigos íntimos; contudo, persuadi-los será uma tarefa árdua e difícil, pois muitos deles dificilmente se inclinarão às suas admoestações. No entanto, a palavra de Deus, se for infundida neles, será um ganho vital, produzindo um novo homem, incorrupto, e uma alma eterna que daqui partirá apressadamente para Deus. Adeus, Sêneca, tão querido para mim.
Concedido nas calendas de agosto; Leão e Sabino, cônsules.