História dos Recabitas | Apócrifo

 O LIVRO DA PERFEIÇÃO DOS RECABITAS

Ou: A Narrativa de Zósimo sobre a Terra dos Abençoados e o Testemunho de Jonadabe

1 – Prólogo: O Justo em Busca da Visão

No décimo ano do exílio de Zósimo, o eremita, na solidão do deserto de Cálabe, habitava ele em uma caverna escavada na rocha, três dias de caminhada para o oriente do Jordão. E jejuou quarenta dias e quarenta noites, vestido de cilício, e pó era seu alimento.

E orou ao Senhor, dizendo:
— Mostra-me, ó Deus de Abraão, Isaac e Jacó, a morada dos justos perfeitos, aqueles que guardam Tua lei sem transgredi-la. Pois ouvi dizer que Jonadabe, filho de Recabe, e sua semente não beberam vinho, nem edificaram casas, nem semearam para a colheita, mas viveram em tendas todos os seus dias. Onde estão eles agora? A Tua promessa não foi: "Não faltará homem a Jonadabe que esteja diante da Minha face para sempre"?

E sucedeu que, ao fim dos quarenta dias, o anjo do Senhor, cujo nome é Ferouel, apareceu a Zósimo com aspecto de fogo resplandecente. E lhe disse:
— Levanta-te, homem de Deus, e segue-me. Pois te será mostrada a terra dos Recabitas, onde eles habitam junto aos anjos, livres da corrupção da morte.

E Zósimo se levantou tremendo, e o anjo o tomou pela mão.

2 – A Jornada pelo Deserto das Almas Perdidas

Guiado pelo anjo, Zósimo atravessou um deserto onde a areia era como cinza, e o sol ardia sem piedade. Durante doze dias, não viram água nem árvore, apenas ossos de homens e de camelos, ressequidos. E o anjo disse:
— Estes são os que tentaram seguir o caminho dos Recabitas, mas voltaram atrás por causa da sede e do medo. Não suportaram a disciplina. Por isso ficaram aqui, nem vivos nem mortos.

Zósimo clamou:
— Senhor, tem misericórdia de mim!

Então, ao décimo terceiro dia, surgiu diante deles um muro de nuvens escuras, e dali saía um estrondo como de muitas águas. E o anjo ordenou que Zósimo se ajoelhasse. Quando o fez, a nuvem se abriu e revelou um grande rio, mais largo que o Eufrates, e suas águas eram brancas como leite. Do outro lado, via-se uma terra verdejante, coberta de árvores cujos frutos brilhavam como ouro e prata.

— Esta é a fronteira do mundo dos viventes – disse o anjo. – Para além, jaz o Paraíso terrestre onde os Recabitas foram transplantados pelo Altíssimo.

Mas como cruzar? Não havia ponte nem barco. Zósimo desanimou. Porém o anjo tocou as águas com o bordão de fogo, e elas se dividiram em doze canais, deixando um caminho seco no meio. E Zósimo passou admirado.

3 – A Chegada à Ilha dos Recabitas

Ao pisar na terra além-rio, Zósimo caiu de joelhos. O ar era perfumado como mirra e incenso. As árvores davam frutos doze vezes por ano, e seus ramos cantavam suavemente com o vento. Não havia espinhos, nem feras, nem mosquitos. E a luz do sol era suave, como o crepúsculo eterno.

Caminhou Zósimo por uma vereda de pedras preciosas e logo avistou homens vestidos de branco resplandecente, sem costura, com cintos de linho fino. Não tinham casas, mas tendas feitas de peles de cordeiros imaculados, dispostas em círculo. No centro, uma fonte de água viva jorrava para um tanque de jaspe.

Um ancião de barba longa, com rosto como o de Moisés, aproximou-se e disse:
— Bem-vindo, Zósimo, servo de Deus. Há quarenta gerações que nenhum filho de Adão põe pé aqui, exceto nós. Eu sou Jonadabe, o filho de Recabe. Ainda vivo, pois o Senhor nos concedeu não morrer, mas aguardar a consumação dos séculos.

Zósimo prostrou-se, mas Jonadabe o ergueu:
— Não te prostraste a mim, pois sou criatura como tu. Prostra-te ao Deus que nos trouxe até aqui.

4 – A Origem dos Recabitas Contada por Jonadabe

Então Jonadabe sentou-se com Zósimo debaixo de uma videira que não produzia vinho, mas frutos de mel. E começou a narrar:

— Meu pai Recabe era queneu, aliado de Moisés no deserto. Aprendemos com ele o caminho da simplicidade: não possuir terras, não beber bebida que embriaga, não construir cidades. Pois o Senhor disse: "Andarei no meio de vós, e serei vosso Deus, e vós sereis o Meu povo, mas não vos contamineis com as abominações dos sedentários."

Quando os reis de Israel começaram a edificar palácios e plantar vinhas, eu, Jonadabe, firmei uma aliança perpétua com meus filhos: "Nunca bebereis vinho, nem edificareis casas, nem semeareis, mas vivereis em tendas todos os vossos dias, para que vivais muitos anos sobre a face da terra."

E assim fizemos por mais de duzentos anos. No tempo de Jeremias, o profeta, o Senhor nos ordenou: "Saí de Jerusalém, pois a cidade será destruída por causa da idolatria. Ide para o deserto, e Eu vos guiarei a um lugar onde não pecareis."

Obedecemos. Éramos setecentas almas, incluindo mulheres e crianças. Levamos apenas nossas tendas e alguns rebanhos. Andamos quarenta anos pelo deserto, guiados por uma coluna de fumaça de dia e de fogo à noite. Muitos morreram de saudades, mas nós perseveramos.

5 – A Travessia do Grande Abismo e a Terra Prometida

— Chegamos finalmente ao grande rio que viste – continuou Jonadabe. – As águas eram escuras e fediam a enxofre. Era o fim do mundo habitado. Além, só havia trevas. Então o anjo Ferouel apareceu a mim e disse: "Jonadabe, o Senhor abrirá para ti um caminho no abismo. Não temas."

Na mesma hora, as águas se levantaram como muralhas, e vimos um chão seco coberto de conchas e corais. Atravessamos em um único dia, e assim que o último pé saiu do leito, as águas se fecharam com grande estrondo. Muitos de nós olharam para trás e viram o deserto sumir, como se tivesse sido apagado.

Aqui, nesta ilha bendita, fomos estabelecidos. O Senhor nos deu este jardim. Não precisamos semear, pois a terra produz por si mesma. Não precisamos cozinhar, pois os frutos são nosso pão. Não sentimos fome nem sede excessivas. Nosso corpo não envelhece, mas permanece como aos trinta anos. E os anjos nos visitam frequentemente, ensinando-nos os mistérios do céu.

Uma única regra nos foi dada: não podemos sair da ilha até o tempo determinado, nem podemos ter contato com os filhos dos homens, exceto se Deus enviar alguém como tu, Zósimo, para testemunhar.

6 – Os Anjos, os Frutos e a Oração Perpétua

Zósimo perguntou:
— Que fazeis durante o dia e a noite, se não trabalhais nem guerreais?

Respondeu Jonadabe:
— Nossa ocupação é bendizer ao Senhor. Quando o sol nasce, louvamos com cânticos que os anjos nos ensinaram. Ao meio-dia, meditamos na Lei. Ao entardecer, damos graças pelos frutos. À noite, velamos uma hora em oração silenciosa. Depois dormimos, e nossos sonhos são visões do Reino.

E acrescentou:
— Vês aquela árvore no meio do jardim, mais alta que todas, com frutos vermelhos como rubi? É a Árvore da Vida. Seu fruto não nos foi proibido, pois somos justos. Mas ainda não comemos dela, porque aguardamos a ordem do Altíssimo. Quando o Messias vier em glória, então comeremos e viveremos para sempre na Jerusalém celeste.

Zósimo então desejou provar do fruto, mas Jonadabe o deteve:
— Não o faças, pois ainda trazes a carne do pecado. Se comeres agora, morrerás. Volta ao mundo e conta o que viste, para que muitos se arrependam e busquem a simplicidade.

7 – O Retorno de Zósimo e o Testemunho Escrito

Após quarenta dias na ilha, Zósimo despediu-se dos Recabitas chorando. Jonadabe lhe deu um rolo de pele de cordeiro, escrito em caracteres de fogo: "Eis a aliança dos Recabitas: quem guardar os mandamentos de Deus e viver em tendas, longe do vinho e das riquezas, esse será contado entre nós na ressurreição."

O anjo Ferouel trouxe Zósimo de volta pelo mesmo caminho, mas agora as águas não se abriram: o anjo o transportou como um pássaro sobre o rio. E Zósimo chegou à sua caverna, e escreveu tudo o que viu e ouviu.

Eis o testemunho verdadeiro, que não deve ser acrescentado nem diminuído. Se alguém ler e crer, será abençoado. Se alguém zombar, será responsável por sua própria alma.

Fim da Primeira Parte
(Continuação na próxima página…)

8 – Segundo Livro: As Visões Escatológicas dos Recabitas

(Nota: este trecho simula um segundo volume, encontrado posteriormente)

Nos dias do imperador Teodósio, um monge chamado Sabas, habitando no mosteiro de Santa Catarina, encontrou uma caixa de chumbo enterrada sob o altar. Dentro, mais rolos da história dos Recabitas. Diz o texto:

Jonadabe chamou toda a assembleia dos Recabitas e profetizou:
— Ouvi, meus filhos. No fim dos tempos, o povo que ficou no mundo será provado. Muitos falsos profetas surgirão. O vinho será louvado como dom de Deus, e as casas serão construídas cada vez mais altas, e a terra será arada para o lucro. Então, o Senhor enviará dois testemunhas: Enoque e Elias. Eles anunciarão o arrependimento. Aqueles que os ouvirem e deixarem as cidades, vivendo em tendas e jejuando, esses escaparão do grande jugo do Anticristo.

Perguntaram-lhe: — E nós, que estamos nesta ilha, o que faremos?

Respondeu: — Quando o tempo da angústia chegar ao fim, a ilha será removida do seu lugar e se unirá à terra de Israel. Caminharemos juntos para o Monte Sião, e o Senhor nos receberá como oferta santa. E não haverá mais Recabitas nem não-Recabitas, mas um só povo de Deus.

9 – A Exortação Final

Eis que estas palavras foram escritas para edificação dos santos. Guardai-vos do vinho, pois ele afasta o coração da sabedoria. Guardai-vos das casas firmes, pois vos farão esquecer que sois peregrinos. Guardai-vos da semente no campo, pois vos prenderá à terra.

Antes, lembrai-vos de Jonadabe, filho de Recabe, que preferiu a tenda ao palácio, a água ao vinho, o deserto à cidade. Se assim fizerdes, ainda que não alcanceis esta ilha nesta vida, na ressurreição habitareis com os Recabitas no Paraíso de Deus.

Amém e Amém.

10 – Colofão (Nota do Copista)

Eu, Macário, o mais indigno dos monges, copiei este livro do original grego encontrado na biblioteca de Jerusalém, no ano 672 da era de Diocleciano. Que todo aquele que ler, ore por mim. E que ninguém destrua estas palavras, pois são verdadeiras e úteis para a salvação.

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