Quando é belo se ouvir a trovoada Numa tarde de chuva no sertão
Sebastião da Silva - Moacir Laurentino
Quanto é belo se ver o nevoeiro Levantar-se pra o lado do nascente E um trovão instalar dizendo a gente Que acabou-se misera e desespero O trovão é a voz do mensageiro Que anuncia mudança de estação Na notícia da morte do verão Canta alegre e feliz a passarada Quando é belo se ouvir a trovoada Numa tarde de chuva no sertão.
No arrojo da chuva o rio cresce E um caniço se arrasta do lugar O caboclo que vive a trabalhar Pensa em Deus, se anima e agradece Uma nuvem pesada só parece Um lençol fabricado de algodão Um nascente escorando um torreão Parecendo uma serra desenhada Quando é belo se ouvir a trovoada Numa tarde de chuva no sertão.
Cantam sapos alegres no barreiro Andorinha esvoaça a meia altura A formiga se vira em tanajura E berra um bode assombrado no chiqueiro Se escuta a toada dum vaqueiro Rebanhando feliz a criação Com novena, bendito e oração A chegada da chuva é festejada Quando é belo se ouvir a trovoada Numa tarde de chuva no sertão.
Um riacho aumentando a correnteza O relâmpago fuzila em todo canto Cada pingo de chuva é como um pranto Do olhar da divina natureza Os aquáticos se juntam na represa Os insetos se espalham pelo chão Sopra o vento assanhado a plantação E a floresta ficando arrepiada Quando é belo se ouvir a trovoada Numa tarde de chuva no sertão.
Água nova com velha se mistura E ao sentir o sabor da água nova Se agita o peixe na desova Pra menino que pesca é festa pura Camponês ansioso por fartura Ara a terra e começa a plantação E em cada semente e cada grão Fica o sonho da safra desejada Quando é belo se ouvir a trovoada Numa tarde de chuva no sertão.
Qualquer vivo da terra se anima Quando surge o prenúncio do inverno Vendo a mata vestindo um novo terno É a folha no galho, a chuva em cima Na mudança de tempo, mês e clima O profeta melhor é o trovão O poeta maior é um carão Quando canta um poema na chapada Quando é belo se ouvir a trovoada Numa tarde de chuva no sertão.