Eu ainda levava um poucoda gostosa imaculada
dei a ele e ele disse:
aguardente raciada!
e ai me disse: entre
aqui não lhe falta nada.
Arrastou uma cadeira
e mandou eu me sentar
chamou um criado dele
disse: cuide em se arrumar
vá lá dentro e diga a ama
que bote um grande jantar.
Quando acabei de jantar
o Santo me convidou
disse: vamos lá na horta
fui, ele me mostrou
coisas que me admirava
e tudo me embelezou.
Vi na horta de São Pedro
arvoredos hem criados
tinha pés de plantações
que estavam carregados
pés de libras esterlinas
que já estavam deitados.
Vi cerca de queijo e prata
e lagoa de coalhada
atoleiro de manteiga
mata de carne guisada
riacho de vinho do porto
só não tinha imaculada,
Prata de quinhentos réis
eles lá chamam caiporá
botavam trabalhadores
para jogar tudo fora,
esses niqueis de cruzados
lá nascem de hora em hora.
Então São Pedro me disse:
quero fazer-lhe presente
quando você Er embora
vou lhe dar uma semente
você mesma vai escolher
aquela mais excelente.
Deu-me dez pés de dinheiro
alguns querendo botar,
filhos de queijo do reino
já querendo sairejar,
uns caroços de brilhante
pra eu na terra plantar.
Galhos de libras esterlinas
deu-me cento e vinte pês
deu-me um saco de semente
de cédulas de com mil réis
deu-me maniva de prata
o diamante umas dez.
Ai chamou Santa Bárbara
esta velo com atenção
São Pedro aí disse a ela:
eu quero uma arrumação
este moço quer voltar
arranje-lhe uma condução.
— Bote cangalha num raio
e a saia num trovão
veja se arranja um corisco
para ele levar na mão
porque daqui para a terra
existe muito ladrão,
Eu desci do céu alegre
comigo não foi ninguém
passei pelo purgatório
ouvi um barulho além
era a velha minha sopra
que dizia: eu vou também.
Eu lhe disse: minha sogra
eu não posso a conduzir
ela me disse: eu lhe mostro
porque razão hei de ir
e se não for apago O raio
quero ver você seguir.
Nisso o raio se apagou
desmantelou-se o trovão
o corisco que trazia
escapuliu-se da mão
e tudo quanto eu trazia
caiu desta vez no chão,
Ai a velha voltou
rogando praga e uivando
quando entrou no purgatório
foi se mordendo e babando
dizendo tudo de mim
lançando fogo e falando
Bem dizia meu avó:
sogra, nem depois de morta
fede a carniça de corpo
a língua da alma corta
não diz assim quem não viu
uma sogra em sua porta,
Eu vinha com isso tudo
que o Pé tinha me dado
mas minha sogra apanhou
o diabo descuidado
fiquei pior do que estava
perdi o que tinha achado.
E quando eu cheguei em casa
a mulher quase me come
ainda pegou um cachete
e me chamou tanto nome
e disse que eu casei com ela
para matá-la de fome.
Se não fosse minha sogra
eu hoje estava arrumado,
mas ela no purgatório
achou tudo descuidado
abriu a porta e danou-se
veio deixar-me encaiporado.
Nunca mais voltei ao céu
para falar com São Pedro
e ainda mesmo que possa
não vou porque tenho medo
posso encontrar minha sogra
e vai de novo outro enredo
FIM