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Jó NTLH

Jó 1

Na terra de Uz morava um homem chamado Jó. Ele era bom e honesto, temia a Deus e procurava não fazer nada que fosse errado.

Jó tinha sete filhos e três filhas

e era dono de sete mil ovelhas, três mil camelos, mil bois e quinhentas jumentas. Tinha também um grande número de escravos. Enfim, Jó era o homem mais rico de todo o Oriente.

Os filhos de Jó iam às casas uns dos outros e davam banquetes, cada um por sua vez. E as três irmãs eram sempre convidadas para esses comes-e-bebes.

Quando terminava uma rodada de banquetes, Jó se levantava de madrugada e oferecia sacrifícios em favor de cada um dos seus filhos, para purificá-los. Jó sempre fazia isso porque pensava que um dos filhos poderia ter pecado, ofendendo a Deus em pensamento.

Chegou o dia em que os servidores celestiais vieram apresentar-se diante de Deus, o SENHOR, e no meio deles veio também Satanás.

O SENHOR perguntou: — De onde você vem vindo? Satanás respondeu: — Estive dando uma volta pela terra, passeando por aqui e por ali.

Aí o SENHOR disse: — Você notou o meu servo Jó? No mundo inteiro não há ninguém tão bom e honesto como ele. Ele me teme e procura não fazer nada que seja errado.

Satanás respondeu: — Será que não é por interesse próprio que Jó te teme?

Tu não deixas que nenhum mal aconteça a ele, à sua família e a tudo o que ele tem. Abençoas tudo o que Jó faz, e no país inteiro ele é o homem que tem mais cabeças de gado.

Mas, se tirares tudo o que é dele, verás que ele te amaldiçoará sem nenhum respeito.

O SENHOR disse a Satanás: — Pois bem. Faça o que quiser com tudo o que Jó tem, mas não faça nenhum mal a ele mesmo. Então Satanás saiu da presença do SENHOR.

Um dia, enquanto os filhos e as filhas de Jó estavam num banquete na casa do irmão mais velho,

chegou à casa de Jó um dos seus empregados, que disse: — Nós estávamos arando a terra com os bois, e as jumentas estavam pastando ali perto.

De repente, os sabeus nos atacaram e levaram tudo. Eles mataram à espada os empregados, e só eu consegui escapar para trazer a notícia.

Enquanto este ainda estava falando, veio outro empregado e disse: — Raios caíram do céu e mataram todas as ovelhas e os pastores. Só eu consegui escapar para trazer a notícia.

Enquanto este ainda estava falando, chegou um terceiro, que disse: — Três bandos de caldeus nos atacaram e levaram os camelos. Eles mataram à espada os empregados, e só eu consegui escapar para trazer a notícia.

Enquanto este ainda estava falando, chegou mais um, que disse a Jó: — Os seus filhos e as suas filhas estavam no meio de um banquete na casa do seu filho mais velho.

De repente, veio do deserto um vento muito forte que soprou contra a casa, e ela caiu em cima dos seus filhos. Todos eles morreram; só eu consegui escapar para trazer a notícia.

Então Jó se levantou e, em sinal de tristeza, rasgou as suas roupas e rapou a cabeça. Depois ajoelhou-se, encostou o rosto no chão e adorou a Deus.

Aí disse assim: — Nasci nu, sem nada, e sem nada vou morrer. O SENHOR deu, o SENHOR tirou; louvado seja o seu nome!

Assim, apesar de tudo o que havia acontecido, Jó não pecou, nem pôs a culpa em Deus.

 

Jó 2

Chegou de novo o dia em que os servidores celestiais vieram apresentar-se diante de Deus, o SENHOR, e Satanás também veio no meio deles.

O SENHOR perguntou: — De onde você vem vindo? Satanás respondeu: — Estive dando uma volta pela terra, passeando por aqui e por ali.

Aí o SENHOR disse: — Você viu o meu servo Jó? No mundo inteiro não há ninguém tão bom e tão honesto como ele. Ele me teme e procura não fazer nada que seja errado. No entanto, você me convenceu, e eu o deixei desgraçar Jó, embora não houvesse motivo para isso. Mesmo assim, ele continua firme e sincero como sempre.

Satanás respondeu: — É só tocar na pele dele para ver o que acontece. As pessoas não se importam de perder tudo desde que conservem a própria vida.

Agora, se estenderes a mão e ferires o corpo dele, verás como ele, sem nenhum respeito, te amaldiçoará.

O SENHOR disse a Satanás: — Pois bem. Faça o que quiser com Jó, mas não o mate.

Aí Satanás saiu da presença do SENHOR e fez com que o corpo de Jó ficasse coberto de feridas horríveis, desde as solas dos pés até o alto da cabeça.

Jó sentou-se num monte de cinza e pegou um caco para se coçar.

E a mulher dele disse: — Você ainda continua sendo bom? Amaldiçoe a Deus e morra!

Jó respondeu: — Você está dizendo uma bobagem! Se recebemos de Deus as coisas boas, por que não vamos aceitar também as desgraças? Assim, apesar de tudo, Jó não pecou, nem disse uma só palavra contra Deus.

Jó tinha três amigos: Elifaz, da região de Temã; Bildade, da região de Sua; e Zofar, da região de Naamá. Eles ficaram sabendo das desgraças que haviam acontecido a Jó e combinaram fazer-lhe uma visita para falar de como estavam tristes pelo que lhe havia acontecido e para consolá-lo.

De longe eles não reconheceram Jó, mas depois, quando viram que era ele, começaram a chorar e a gritar. Em sinal de tristeza, rasgaram as suas roupas e jogaram pó para o ar e sobre a cabeça.

Em seguida sentaram-se no chão ao lado dele e ficaram ali sete dias e sete noites; e não disseram nada, pois viam que Jó estava sofrendo muito.

 

Jó 3

Finalmente Jó quebrou o silêncio e amaldiçoou o dia do seu nascimento.

Jó disse:

“Maldito o dia em que nasci! Maldita a noite em que disseram: ‘Já nasceu! É homem!’

Que aquele dia vire escuridão! Que Deus, lá do alto, não se importe com ele, e que nunca mais a luz o ilumine!

Que a escuridão e as trevas o dominem; que as nuvens o cubram e apaguem a luz do sol!

Que aquela noite fique sempre escura e que desapareça do calendário!

Que seja solitária e triste aquela noite, e que nela não se escutem gritos de alegria!

Que seja amaldiçoada pelos feiticeiros, aqueles que têm poder sobre o monstro Leviatã!

Que escureçam as estrelas da sua manhã; que ela espere a luz, e a luz não venha; e que a sua madrugada não chegue,

pois ela deixou que minha mãe me desse à luz e não me poupou de todo este sofrimento!

“Por que não nasci morto? Por que não morri ao nascer?

Por que a minha mãe me segurou no colo? Por que me deu o seio e me amamentou?

Se eu tivesse morrido naquele momento, agora estaria dormindo, descansando em paz.

Estaria com reis e altas autoridades que reconstruíram palácios antigos

ou estaria com governadores que encheram as suas casas de ouro e de prata.

Se a minha mãe tivesse tido um aborto, às escondidas, eu não teria existido e seria como as crianças que nunca viram a luz do dia.

Na sepultura acaba a agitação dos maus, e ali repousam os que estão cansados.

Ali os prisioneiros descansam juntos e já não ouvem mais os gritos do capataz.

Ali estão os importantes e os humildes, e os escravos ficam livres dos seus donos.

“Por que os infelizes continuam vendo a luz? Por que deixar que vivam os que têm o coração amargurado?

Eles esperam a morte, e ela não vem, embora a desejem mais do que riquezas.

Eles ficam muito alegres e felizes quando por fim descem para a sepultura.

Deus os faz caminhar às cegas e os cerca de todos os lados.

“Em vez de comer, eu choro, e os meus gemidos se derramam como água.

Aquilo que eu temia foi o que aconteceu, e o que mais me dava medo me atingiu.

Não tenho paz, nem descanso, nem sossego; só tenho agitação.”

 

Jó 4

Então Elifaz, da região de Temã, em resposta disse:

“Jó, será que você ficará ofendido se eu falar? Mas quem é que pode ficar calado?

Você ensinou muita gente e deu forças a muitas pessoas desanimadas.

Quando alguém tropeçava, cansado e fraco, as suas palavras o animavam a ficar de pé.

Mas agora que chegou a sua vez de sofrer, como é que você perde a paciência e a coragem?

O seu temor a Deus não lhe dá confiança? A sua vida correta não o enche de esperança?

Você lembra de alguma pessoa inocente que tenha caído na desgraça ou de alguma pessoa honesta que tenha sido destruída?

Tenho notado que os que aram campos de maldade e plantam sementes de desgraça só colhem maldade e desgraça.

Como uma tempestade, Deus os destrói na sua ira.

Eles rugem como um leão feroz, mas Deus os faz calar e lhes quebra os dentes.

Assim como leões que não podem caçar, eles morrem de fome, e os seus filhos se espalham.

“Veio a mim de mansinho uma mensagem, em voz tão baixa, que mal pude ouvir.

À noite, quando as pessoas dormem um sono pesado, eu tive um pesadelo que me deixou agitado.

O terror tomou conta de mim, e o meu corpo inteiro começou a tremer.

Um sopro passou pelo meu rosto, e eu fiquei todo arrepiado.

Alguém estava ali; olhei bem, mas não pude ver a sua forma. Houve silêncio, e depois ouvi uma voz, que disse:

‘Será que alguém pode ser correto diante de Deus? Será que alguém pode ser puro aos olhos do seu Criador?

Deus não confia nem nos seus servidores celestiais e até nos seus anjos ele encontra defeitos.

Então você pensa que ele vai confiar nos seres humanos, que são feitos de barro, que foram criados do pó e que podem ser esmagados como uma traça?

Podemos estar vivos de manhã, mas de tarde morremos para sempre, e ninguém se importa.

A nossa vida se acaba como cai uma barraca, e morremos sem termos alcançado a sabedoria.’

 

Jó 5

“Grite, Jó! Veja se alguém responde. Que anjo você vai chamar?

Ficar desgostoso e amargurado é loucura, é falta de juízo, que leva à morte.

Uma vez vi um homem sem juízo que parecia estar progredindo na vida, mas eu amaldiçoei a família dele.

Os seus filhos não têm segurança; nos tribunais são condenados injustamente, e não há ninguém que os defenda.

Os famintos ficam cobiçando as suas riquezas; devoram as suas colheitas, pegando até o trigo que nasce entre os espinhos.

A aflição não brota da terra; a desgraça não nasce do chão:

somos nós mesmos que causamos o sofrimento, tão certo como as faíscas das brasas voam para cima.

“Jó, se eu fosse você, voltaria para Deus e entregaria o meu problema a ele.

Nós não podemos entender as coisas maravilhosas que ele faz, e os seus milagres não têm fim.

Deus dá chuva à terra; ele faz a água cair sobre os campos.

Deus põe os humildes nas alturas, põe num lugar seguro os que choram.

Deus faz com que os planos dos espertos falhem e que as suas ações fracassem;

ele pega os sábios nas suas espertezas e acaba com as suas intrigas.

Em pleno dia eles ficam no escuro e ao meio-dia andam às cegas, apalpando como se fosse noite.

Deus salva da morte os pobres; ele livra os necessitados das mãos dos poderosos.

Deus dá esperança aos fracos e tapa a boca dos maus.

“Feliz é aquele a quem Deus corrige! Por isso, não despreze o castigo do Deus Todo-Poderoso.

Deus fere, mas ele mesmo faz o curativo; ele machuca, mas as suas mãos curam.

Vez após vez Deus salvará você do perigo e não deixará que nenhum mal lhe aconteça.

Em tempo de fome, Deus não deixará que você morra e em tempo de guerra ele o salvará da espada.

Ele o protegerá das más línguas, e você não terá medo quando houver destruição.

Você se rirá quando houver violência e faltarem alimentos e não terá medo dos animais selvagens.

Nos seus campos as pedras não estorvarão o arado, e os animais selvagens não o atacarão.

Na sua casa você viverá em paz e, quando contar as suas coisas, não vai achar falta de nada.

Você terá muitos filhos, e os seus descendentes serão tantos como as folhas de capim no pasto.

Você vai morrer velho e forte, como um feixe de trigo colhido no tempo certo.

Jó, a vida nos ensina que é assim. Esta é a verdade; pense nisso para o seu próprio bem.”

 

Jó 6

Então em resposta Jó disse:

“Ah! Se a minha desgraça e os meus sofrimentos fossem postos numa balança,

com certeza pesariam mais do que a areia do mar. E foi por isso que falei com violência.

As flechas venenosas do Deus Todo-Poderoso estão fincadas em mim, e o veneno entra na minha alma. Com os seus ataques, Deus me tem enchido de terror.

O jumento fica contente quando come capim, e o boi não reclama quando tem pasto.

Mas quem gosta de comida sem sal? Que gosto tem a clara do ovo?

Não tenho apetite para comer essas coisas, e tudo o que como me faz mal.

“Ah! Se Deus me desse o que estou pedindo! Ah! Se Deus respondesse à minha oração!

Então ele me tiraria a vida; ele me atacaria e acabaria comigo!

Se eu soubesse que Deus faria isso, daria pulos de alegria, mesmo sofrendo muita dor. Pois Deus é santo, e eu nunca fui contra as suas decisões.

Onde estão as minhas forças para resistir? Por que viver, se não há esperança?

Será que sou forte como a pedra? Será que o meu corpo é de bronze?

Não sou capaz de me ajudar a mim mesmo, e não há ninguém que me socorra.

“Uma pessoa desesperada merece a compaixão dos seus amigos, mesmo que tenha deixado de temer ao Deus Todo-Poderoso.

Mas eu não pude contar com vocês, meus amigos, que me desapontaram como um riacho que seca no verão.

Primeiro ele está cheio de gelo e de neve,

mas depois vira água, que vai sumindo no calor, até que no fim o seu leito fica seco e duro.

As caravanas se perdem procurando água; avançam pelo deserto e ali morrem.

Aquelas que vêm de Temá e de Sabá procuram esses ribeirões, cheias de esperança,

porém, quando chegam, todos ficam desapontados, e a sua esperança morre ali.

Vocês são como esses ribeirões; vocês vêem a minha miséria e ficam com medo.

Por acaso, pedi que vocês me dessem qualquer coisa? Ou que me oferecessem um presente?

Será que pedi que me salvassem de um inimigo ou que me livrassem das mãos dos bandidos?

“Ensinem-me, que eu ficarei calado; mostrem os erros que cometi.

Quem fala a verdade convence, mas a acusação de vocês não prova nada.

Será que vocês querem criticar o que eu digo, querem tratar as palavras de um homem desesperado como se elas fossem vento?

Vocês seriam capazes de vender um órfão em leilão; vocês venderiam até mesmo um amigo!

Olhem bem nos meus olhos e digam se estou mentindo.

Retirem o que disseram; não sejam injustos. Não me condenem; eu estou com a razão.

Vocês pensam que sou mentiroso? Será que não sei o que é certo e o que é errado?

 

Jó 7

“A vida neste mundo é dura como o serviço militar; todos têm de trabalhar pesado,

como o escravo que suspira pela sombra, como o trabalhador que espera o seu salário.

Mês após mês só tenho tido desilusões, e as minhas noites têm sido cheias de aflição.

Essas noites são compridas; eu me canso de me virar na cama até de madrugada e fico perguntando: “Será que já é hora de levantar?”

O meu corpo está coberto de bichos e de cascas de feridas; a minha pele racha, e dela escorre pus.

Os meus dias passam mais depressa do que a lançadeira do tecelão e vão embora sem deixar esperança.

Lembra, ó Deus, que a minha vida é apenas um sopro; os meus olhos nunca mais verão a felicidade.

Tu me vês agora, porém não me verás mais; olharás para mim, mas eu já terei desaparecido.

“Como a nuvem que passa e some, assim aquele que desce ao mundo dos mortos nunca mais volta;

ele não volta para casa; ninguém lembra mais dele.

Por isso, não posso ficar calado. Estou aflito, tenho de falar, preciso me queixar, pois o meu coração está cheio de amargura.

Será que eu sou o Mar ou algum outro monstro do mar para que fiques aí me vigiando?

Quando penso que na cama encontrarei descanso e que o sono aliviará a minha dor,

então me espantas com sonhos e com pesadelos me enches de medo.

Eu prefiro ser estrangulado; é melhor morrer do que viver neste meu corpo.

Detesto a vida; não quero mais viver. Deixa-me em paz, pois a minha vida não vale nada.

“O que somos nós, para que nos dês tanta importância e te preocupes com a gente?

Por que nos vigias todos os dias e a todo instante nos fazes passar por provas?

Quando deixarás de olhar para mim, a fim de que eu tenha um momento de sossego?

Se pequei, que mal fiz a ti, ó vigia das pessoas? Por que fizeste de mim o alvo das tuas flechas? Por acaso, sou uma carga tão pesada assim?

Por que não perdoas o meu pecado e não apagas a minha maldade? Logo estarei na sepultura; tu me procurarás, mas eu não existirei mais.”

 

Jó 8

Então Bildade, da região de Sua, em resposta disse:

“Até quando você, Jó, vai falar assim? Até quando as suas palavras serão como um vento forte?

Será que Deus torceria a justiça? Será que o Todo-Poderoso faria o que não é direito?

Decerto os seus filhos pecaram contra Deus, e ele os castigou como mereciam.

Agora volte para Deus e ore ao Todo-Poderoso.

Se você é mesmo puro e honesto, Deus virá logo ajudá-lo e lhe dará de novo o lar que você merece.

A riqueza que você perdeu não será nada comparada com o que Deus lhe dará depois.

“Faça perguntas aos nossos antepassados; aprenda com a experiência deles.

Pois nós nascemos ontem e não sabemos nada; os nossos dias na terra passam como a sombra.

Deixe que os nossos antepassados falem a você e o ensinem. Da sua experiência eles dirão isto:

‘Será que a taboa pode crescer fora do brejo ou o junco viver sem água?

Verdes ainda e mesmo sem serem cortados, eles secam antes das outras ervas.

Assim acontece com os que esquecem de Deus; assim dá em nada a esperança dos maus.

A segurança deles é um fio de linha; a sua confiança é como uma teia de aranha.

Eles se apóiam na teia, mas ela não agüenta; agarram o fio, mas não conseguem ficar de pé.’

“Os maus crescem como ervas ao sol que se espalham pelo jardim.

As suas raízes se enroscam nas pedras, se agarram nas rochas,

mas, se alguém as arranca, ninguém vai nem saber que estiveram naquele lugar.

É nisso que dá a vida alegre dos maus; chegam outras pessoas e tomam o lugar deles.

“Esteja certo de que Deus não abandona as pessoas honestas, nem dá a mão para ajudar os maus.

Ele fará você rir de novo e dar gritos de alegria;

mas os seus inimigos vão viver na confusão, e as casas dos maus serão destruídas.”

 

Jó 9

Então em resposta Jó disse:

“Eu sei muito bem que as coisas são assim. Mas como é que uma pessoa pode provar a Deus que ela está com a razão?

Quem se atreve a discutir com Deus? Ele pode fazer mil perguntas a que ninguém é capaz de responder.

A sua sabedoria é profunda, e o seu poder é grande; quem pode desafiá-lo e vencer?

Sem aviso ele muda de lugar os montes e na sua ira os destrói.

Deus manda terremotos, e o chão treme; ele abala as colunas que sustentam a terra.

Deus dá ordem, e o sol não nasce; ele apaga a luz das estrelas.

Deus sozinho estendeu o céu; ele pisou sobre as costas do Mar.

Deus criou as estrelas em grupos: a Ursa Maior, as Três-Marias e as Sete-Cabrinhas, e fez também as estrelas do Sul.

Deus faz coisas grandes e maravilhosas, e os seus milagres não têm fim.

Deus passa perto de mim, e eu não vejo; ele vai andando, e eu não percebo.

Se Deus quer ficar com alguma coisa, quem pode impedi-lo? Quem se atreve a perguntar: ‘O que estás fazendo?’

Deus não volta atrás na sua ira; a seus pés caem derrotados os aliados do monstro Raabe.

“Quem sou eu, então, para responder a Deus? Onde vou achar palavras para discutir com ele?

Ainda que eu tivesse razão, eu não responderia. Ele é o meu juiz; só posso pedir misericórdia.

Ainda que eu o chamasse ao tribunal, e ele se apresentasse, não acredito que ouviria o meu caso.

Deus me esmaga com uma tempestade e sem motivo aumenta as minhas feridas.

Ele não me deixa nem respirar e enche de amargura a minha vida.

Farei uso da força? Ele é o forte. Chamarei Deus ao tribunal? E quem o obrigaria a comparecer?

Sou inocente e sincero, mas as minhas palavras me condenariam e me declarariam culpado.

Sou inocente, mas não me importo com isso; estou cansado de viver.

Para mim, é tudo a mesma coisa; por isso, digo que Deus destrói tanto os bons como os maus.

Se, de repente, uma desgraça mata pessoas inocentes, Deus ri.

Deus entregou o mundo nas mãos dos maus e cobriu os olhos dos juízes com uma venda. E, se não foi Deus quem fez isso, então quem foi?

“Os meus dias correm mais depressa do que um atleta; eles fogem sem ter visto a felicidade.

A minha vida passa como um barco ligeiro, como uma águia quando se lança sobre um coelho.

Posso tentar esquecer as minhas queixas, posso deixar o meu ar triste e voltar a ser alegre,

mas logo os meus sofrimentos me deixam apavorado, pois sei que Deus não acredita que eu seja inocente.

E, se ele acha que sou culpado, não adianta nada lutar.

O sabão não pode lavar os meus pecados; o sabão mais forte não pode limpar o mal que cometi.

Deus me joga na lama, e até a minha roupa tem nojo de mim.

Deus não é um ser humano, como eu, e por isso não posso responder-lhe, nem podemos resolver a nossa questão no tribunal.

Para nós dois não há um juiz que possa julgar a mim e a Deus.

Ó Deus, pára de me castigar! Não me enchas de medo com os teus terrores!

Então eu falarei e não terei medo, pois a minha consciência não me acusa.

 

Jó 10

“Estou cansado de viver. Vou me desabafar e falar da amargura que tenho no coração.

Ó Deus, não me condenes! Dize-me de que me acusas!

Tu mesmo me criaste. Como, então, podes ter prazer em me maltratar e desprezar e em aprovar os planos dos maus?

Por acaso, tens olhos, como nós? Será que vês as coisas como nós vemos?

Por acaso, a tua vida é tão curta como a nossa? Será que vives tão pouco quanto os seres humanos?

Então por que procuras saber de todos os meus pecados? Por que te informas das maldades que cometi?

Pois sabes que não sou culpado e que ninguém pode me salvar das tuas mãos.

“As tuas mãos me fizeram, me deram forma e agora essas mesmas mãos me destroem.

Lembra que me fizeste de barro; vais me fazer virar pó outra vez?

Tu fizeste com que o meu pai e a minha mãe me gerassem, que me dessem a vida.

Formaste o meu corpo de ossos e nervos e os cobriste com carne e pele.

Tu me deste vida e me deste amor, e os teus cuidados me conservam vivo.

Mas agora sei que no teu coração tinhas este plano secreto:

tu querias ver se eu ia pecar para depois me negares o teu perdão.

Se sou culpado, estou perdido; se sou inocente, não tenho coragem para levantar a cabeça, pois fico envergonhado quando olho para a minha desgraça.

Se levanto a cabeça, orgulhoso da minha inocência, tu, como um leão, me persegues; e até fazes milagres para me destruir.

Tu sempre tens testemunhas que me acusam; a tua ira contra mim vai aumentando, e tu me atacas sem parar, como se fosses um exército.

“Ó Deus, por que me deixaste nascer? Eu deveria ter morrido antes mesmo que alguém me visse.

Eu teria ido do ventre da minha mãe para a sepultura, teria sido como se nunca tivesse existido.

A minha vida está chegando ao fim. Então me deixa em paz! Deixa que eu tenha um pouco de alegria

antes que me vá na viagem que não tem volta, antes que vá para o país da escuridão e das trevas,

para o país das sombras e da desordem, onde a própria luz é como a escuridão.”

 

Jó 11

Então Zofar, da região de Naamá, em resposta disse:

“Será que todo esse palavrório vai ficar sem resposta? Por acaso, quem fala muito é quem tem razão?

Jó, você pensa que não temos resposta? Pensa que as suas zombarias vão nos fazer calar a boca?

Você diz que o seu modo de pensar está certo e afirma que é inocente diante de Deus.

Eu gostaria que Deus falasse e lhe desse uma resposta!

Ele lhe ensinaria os segredos da sabedoria, pois há mistérios na explicação das coisas. Assim, você veria que Deus o está castigando menos do que você merece.

“Você pensa que pode descobrir os segredos de Deus e conhecer completamente o Todo-Poderoso?

O céu não é limite para Deus, mas você não pode chegar até lá; Deus conhece o mundo dos mortos, mas você não conhece.

Ele é maior do que a terra, mais vasto do que o mar.

Se Deus passar e prender alguém e o levar para ser julgado, quem o poderá impedir?

Deus conhece as pessoas que não valem nada; ele nunca deixa de ver as suas maldades.

No dia em que os jumentos selvagens nascerem mansos, as pessoas sem juízo vão ter sabedoria.

“Jó, vire o coração para Deus e ore com as mãos estendidas para ele.

Abandone o pecado que mancha as suas mãos e não deixe que a maldade more na sua casa.

Então você andará de cabeça erguida, puro, firme e sem medo.

Você não lembrará dos seus sofrimentos, que serão como águas passadas que a gente esquece.

A sua vida brilhará mais do que o sol do meio-dia, e as suas horas mais escuras serão claras como o amanhecer.

Você viverá seguro e cheio de esperança; Deus o protegerá, e você dormirá tranqüilo.

Quando você estiver descansando, nada o assustará; e muita gente virá lhe pedir ajuda.

Porém os maus olharão em redor desesperados e não acharão lugar para onde fugir; para eles a morte será a única esperança.”

 

Jó 12

Então em resposta Jó disse:

“Sem dúvida, vocês são a voz do povo, e, quando morrerem, não haverá mais sabedoria…

Mas eu também entendo as coisas e não sou menos do que vocês. Quem não sabe isso que vocês disseram?

“Sou motivo de riso para os meus amigos— eu, que sou honesto, que estou inocente; eu, que orava a Deus, e ele me respondia.

Os que estão seguros desprezam os desgraçados e empurram os que estão para cair.

Os bandidos têm paz em suas casas, os que ofendem a Deus vivem tranqüilos, embora o seu deus seja a sua própria força.

“Zofar, faça perguntas às aves e aos animais, e eles o ensinarão.

Peça aos bichos da terra e aos peixes do mar, e eles lhe darão lições.

Todas essas criaturas sabem que foi a mão do SENHOR que as fez.

A vida de todas as criaturas está na mão de Deus; é ele quem mantém todas as pessoas com vida.

Meus amigos, assim como os ouvidos julgam o valor das palavras, e o paladar prova os alimentos, assim escuto o que vocês dizem, mas só aceito aquilo que acho certo.

“Os velhos são sábios, pois a idade traz a compreensão.

No entanto, Deus é sábio e poderoso; ele tem inteligência e entendimento.

Ninguém pode reconstruir o que Deus derruba; e, se ele prende, ninguém pode soltar.

Quando Deus segura a chuva, vem a seca; quando deixa saírem as águas, há enchentes.

“Deus é forte e vitorioso; ele tem poder tanto sobre o enganado como sobre o enganador.

Ele tira das autoridades a sabedoria e faz com que os líderes percam o juízo.

Deus tira os reis dos seus tronos e os põe na prisão.

Deus afasta os sacerdotes do seu ofício; ele derruba os que estão no poder.

Deus faz calarem conselheiros de confiança e acaba com a sabedoria dos idosos.

Ele mostra desprezo pelas autoridades e acaba com a força dos poderosos.

Deus revela os segredos escondidos nas trevas e faz a luz brilhar na escuridão mais completa.

Deus dá às nações grandeza e poder, mas depois as derrota e destrói.

Ele faz com que os líderes das nações percam o juízo e os leva por desertos sem caminhos.

Eles andam na escuridão, às cegas, tropeçando como bêbados.

 

Jó 13

“Eu vi tudo isso com os meus próprios olhos; escutei tudo com os meus ouvidos e entendi.

Meus amigos, eu não sou menos do que vocês: eu também sei o que vocês sabem.

Mas quero falar com o Deus Todo-Poderoso e discutir com ele a minha questão.

Vocês disfarçam a sua ignorância com mentiras; são como médicos que não curam ninguém.

Ah! Se vocês ficassem calados, poderiam passar por sábios!

“Escutem agora a minha defesa, prestem atenção às minhas razões.

Será que para defender a Deus vocês vão dizer mentiras? Vão falar palavras enganosas a favor dele?

Será que vocês vão ficar do lado dele? Vão defender a causa dele no tribunal?

Por acaso, seria bom que ele os examinasse? Vocês pensam que podem enganar a Deus como enganam as pessoas?

Se vocês forem injustos, mesmo em segredo, ele certamente os repreenderá;

a sua grandeza os encherá de medo, e os seus terrores cairão sobre vocês.

As explicações antigas que vocês lembram são como cinza, não valem nada; as suas defesas são fracas como torres de barro.

“Fiquem calados, que eu vou falar, aconteça o que acontecer.

Estou pronto para arriscar a vida, pronto para enfrentar a morte.

Não tenho mais esperança, pois Deus me matará; mas assim mesmo defenderei a minha causa diante dele.

Talvez esta coragem venha a salvar-me, pois nenhuma pessoa má iria até a presença dele.

Ouçam com atenção o que estou dizendo; escutem as minhas explicações.

Estou pronto para defender a minha causa e sei que estou com a razão.

“Mas, se Deus disser: ‘Quem se atreve a discutir comigo no tribunal?’, então terei de me calar e morrer.

Ó Deus, eu te peço apenas duas coisas e assim não me esconderei de ti:

não me castigues mais e não me faças sentir tanto medo.

“Ó Deus, chama-me ao tribunal, e eu responderei; ou eu falarei primeiro, e tu responderás.

Quantas faltas e pecados cometi? De que erros e pecados sou acusado?

“Por que te escondes de mim? Por que me tratas como inimigo?

Eu sou como a folha levada pelo vento: por que me assustas? Sou como a palha seca: por que me persegues?

“Tu escreves duras acusações contra mim e queres que eu pague pelos erros da minha mocidade.

Prendes os meus pés com correntes, vigias todos os meus passos e examinas os rastos que deixo no caminho.

Assim, vou me acabando como madeira bichada, como uma roupa comida pela traça.

 

Jó 14

“Todos somos fracos desde o nascimento; a nossa vida é curta e muito agitada.

O ser humano é como a flor que se abre e logo murcha; como uma sombra ele passa e desaparece.

Nada somos; então por que nos dás atenção? E quem sou eu para que me leves ao tribunal?

O ser humano, que é impuro, nunca produz nada que seja puro.

Tu já marcaste quantos meses e dias cada um vai viver; isso está resolvido, e ninguém pode mudar.

Pára de olhar para nós e deixa-nos em paz, até que o nosso dia chegue ao fim, como chega ao fim o dia de um trabalhador.

“Para uma árvore há esperança; se for cortada, brota de novo e torna a viver.

Mesmo que as suas raízes envelheçam, e o seu toco morra na terra,

basta um pouco de água, e ela brota, soltando galhos como uma planta nova.

Mas, quando alguém morre, está acabado; depois de entregar a alma, para onde vai?

“Como lagoas que secam, como rios que deixam de correr,

assim, enquanto o céu existir, todos vamos morrer. Vamos dormir o sono da morte, para nunca mais levantar.

“Ah! Se tu me pusesses no mundo dos mortos e ali me escondesses até que a tua ira passasse e então marcasses um prazo para lembrares de mim!

Mas será que alguém tornará a viver depois de ter morrido? Eu, porém, esperarei por melhores tempos, até que as minhas lutas acabem.

Então me chamarás, e eu responderei; e tu ficarás contente comigo, pois me criaste.

Cuidarás para que eu não erre, em vez de ficares espiando para me veres pecar.

Esquecerás os meus pecados e apagarás os meus erros.

“Mas assim como as montanhas vão se desmoronando, e as rochas saem dos seus lugares;

e assim como as águas escavam as pedras, e as correntezas levam a terra, assim tu acabas com a esperança do ser humano.

Tu o derrotas, ele se vai para sempre, e mudas a sua aparência quando o despedes deste mundo.

Se os seus filhos recebem homenagens, ele não fica sabendo e, se caem na desgraça, ele não tem notícia.

Ele sente apenas as dores do seu próprio corpo e a agonia do seu espírito.”

 

Jó 15

Então Elifaz, da região de Temã, em resposta disse:

“Jó, um sábio não responde com palavras ocas, não fica inchado com opiniões que não valem nada.

Um sábio não falaria palavras inúteis, nem se defenderia com argumentos sem valor.

Mas você quer acabar com o sentimento religioso; se dependesse de você, ninguém oraria a Deus.

Você fala assim por causa do seu pecado e procura enganar os outros com as suas palavras.

Eu não preciso acusá-lo, pois as suas próprias palavras o condenam.

“Você está pensando que é o primeiro ser humano que nasceu? Por acaso, você veio ao mundo antes das montanhas?

Será que você conhece os planos secretos de Deus? Será que só você é sábio?

Será que você sabe o que nós não sabemos ou compreende as coisas melhor do que nós?

O que sabemos nós aprendemos com pessoas idosas, que nasceram antes do seu pai.

“Por que você não quer aceitar o consolo que Deus lhe oferece? Em nome dele nós falamos delicadamente com você.

Por que você se deixa levar pelo seu coração? Por que esses olhares de ódio?

Por que essa revolta, essa ira contra Deus? Por que você se queixa assim?

“Será que alguém pode ser puro? Poderá alguma pessoa ser correta diante de Deus?

Se Deus não confia nos anjos, e se nem o céu é puro aos seus olhos,

que diremos do ser humano, imundo e nojento, que bebe o pecado como se fosse água?

“Escute, Jó, que eu vou explicar; vou contar aquilo que tenho visto.

Os sábios ensinam verdades que aprenderam com os seus pais,

e estes moravam numa terra que não recebeu a influência de estrangeiros.

“Aquele que é mau, que persegue os outros, sofre atormentado a vida inteira.

Vozes de terror enchem os seus ouvidos, e, quando pensa que está seguro, os bandidos o atacam.

Ele não tem esperança de escapar da escuridão da morte, pois um punhal está pronto para matá-lo.

Os urubus estão esperando para devorar o seu corpo; ele sabe que o dia da escuridão está perto.

Ele será dominado pela angústia e pela aflição, como acontece quando um rei espera o ataque dos inimigos.

Tudo isso acontece porque ele levanta a mão contra Deus e desafia o Todo-Poderoso.

Ele é rebelde e, protegido por um pesado escudo, se joga contra Deus.

O seu olhar é orgulhoso, e o seu coração é egoísta.

“Esse homem mau conquistou cidades e ficou com as casas abandonadas pelos moradores, mas essas cidades e casas virarão um monte de ruínas.

Ele não ficará rico por muito tempo e perderá tudo o que tem. Até a sua sombra vai desaparecer da terra.

O homem mau não escapará da escuridão. Ele será como uma árvore cujos galhos foram queimados e cujas flores foram levadas pelo vento.

Como não tem juízo e confia na mentira, a própria mentira será a sua recompensa.

Ele secará antes da hora, como um galho que seca e nunca mais fica verde.

Ele será como uma parreira que perde as uvas ainda verdes, como uma oliveira que deixa cair as suas flores.

Os maus não terão descendentes, e o fogo destruirá as casas dos desonestos.

Eles planejam a maldade, fazem o que é errado e só pensam em enganar os outros.”

 

Jó 16

Então em resposta Jó disse:

“Já ouvi tudo isso antes; em vez de me consolarem, vocês me atormentam.

Será que essas palavras ocas não têm fim? Por que vocês não param de me provocar?

Se vocês estivessem no meu lugar, eu também poderia dizer o que estão dizendo. Eu balançaria a cabeça, com um jeito de sábio, e os esmagaria com um montão de palavras.

Ou poderia dizer palavras de ânimo e consolo para diminuir os seus sofrimentos.

Mas, se falo, a minha dor não se acalma, e, se me calo, o meu sofrimento não diminui.

“Tu, ó Deus, me deixaste sem forças e destruíste toda a minha família.

Tu me puseste numa prisão, e por isso me acusam. Virei pele e osso, e por isso os outros pensam que sou culpado.

“Na sua ira Deus me arrasou completamente; ele olha para mim com ódio e, como uma fera, me persegue e ameaça.

Todos me ameaçam, abrem a boca para zombar de mim e me dão bofetadas para me humilhar.

Deus me entregou a homens perversos; ele me fez cair nas mãos de gente má.

Eu vivia em paz, mas ele me esmagou; Deus me pegou pela garganta e me quebrou. Ele fez de mim o seu alvo

e de todos os lados disparou as suas flechas; elas atravessaram os meus rins, sem dó nem piedade, e também a minha bílis correu pelo chão.

Como um soldado, ele avançou contra mim e me arrebentou todo, com golpes e mais golpes.

“Em sinal de tristeza, vesti uma roupa feita de pano grosseiro e, humilhado, sentei-me no pó.

Tenho chorado tanto, que o meu rosto está queimando, e estou com olheiras fundas e escuras.

No entanto, nunca fui violento, e as minhas orações sempre foram sinceras.

“Ó terra, não esconda as injustiças que fizeram contra mim! Não deixe que seja abafado o meu grito pedindo justiça!

Eu sei que no céu tenho quem me defenda; o meu advogado lá está.

Os meus amigos zombam de mim; e eu me volto para Deus com lágrimas nos olhos.

Assim como alguém defende o seu amigo, eu preciso de quem defenda o meu direito diante de Deus.

Os meus anos de vida estão contados, e eu vou pelo caminho que não tem retorno.

 

Jó 17

Quase não posso respirar. A minha vida está se acabando; o que me espera agora é a sepultura.

Estou cercado de zombadores e sou obrigado a agüentar os seus desaforos.

“Ó Deus, só tu podes garantir o meu livramento; quem mais tenho eu para ser meu fiador?

Tu fechaste a mente desses zombadores para que não entendessem as coisas; não deixes que eles me derrotem.

Como diz o ditado: ‘Passarão fome os filhos daqueles que por dinheiro traem os seus amigos.’

As pessoas usam esse ditado contra mim e vêm cuspir na minha cara.

Estou ficando cego de tanto sofrer, e o meu corpo é apenas uma sombra.

Ao verem isso, os homens direitos ficam horrorizados e me condenam como se eu fosse um ateu.

E esses homens honestos e respeitáveis ficam firmes na sua opinião, cada vez mais convencidos de estarem certos.

Mas, se voltassem aqui, eu não acharia entre eles nenhum que fosse sábio.

“A minha vida vai passando; os meus planos fracassaram, e as esperanças do meu coração se foram.

Os meus amigos dizem que a noite é dia; apesar da escuridão, eles afirmam que a luz está perto.

A minha casa será no mundo dos mortos, onde vou me deitar e dormir na escuridão.

Direi que a sepultura é o meu pai e que os vermes são a minha mãe e as minhas irmãs.

Se é assim, onde está a minha esperança? Há alguém que possa ver esperança para mim?

Será que ela vai descer aos quartos do mundo dos mortos, para juntos descansarmos debaixo da terra?”

 

Jó 18

Então Bildade, da região de Sua, em resposta disse:

“Jó, por que você não pára de falar? Cale-se e preste atenção, e então poderemos conversar.

Por que você pensa que não temos juízo, que somos como os animais?

Com a sua raiva, você só está se ferindo. Será que, por você estar zangado, o mundo vai virar um deserto? Será que, por sua causa, as montanhas vão mudar de lugar?

“A vida do perverso se acabará como a luz que se apaga, como as chamas do fogo que deixa de queimar.

A lamparina da sua casa não brilhará mais; em vez de luz, haverá escuridão.

O perverso andava com passos firmes, mas agora está tropeçando; os seus próprios planos o fazem cair.

Ele pisa uma rede, e os seus pés ficam presos.

A armadilha o pega pelo calcanhar, e o laço o aperta.

A armadilha estava escondida no chão, no caminho por onde ele ia passar.

Ameaças de todos os lados o deixam apavorado; elas o perseguem a cada passo.

Ele era rico, mas agora passa fome; a desgraça está pronta para cair em cima dele.

Uma doença mortal se espalha pelo seu corpo e faz com que os seus braços e pernas apodreçam.

Ele é arrancado da sua casa, onde vivia seguro, e arrastado até a presença do Rei, isto é, a Morte.

Essa casa será desinfetada com enxofre, e depois um estranho vai morar nela.

O perverso é como uma árvore seca, seca desde as raízes até os galhos mais altos.

Ninguém lembrará mais dele; o seu nome será esquecido na sua terra.

Ele será expulso do mundo dos vivos e da luz será jogado na escuridão.

Não deixará filhos nem netos; não terá descendentes que fiquem com a sua casa.

Em toda parte, os que ouvirem falar do seu fim tremerão de medo e pavor.

É esse o fim dos maus, daqueles que não querem saber de Deus.”

 

Jó 19

Então em resposta Jó disse:

“Até quando vocês vão ficar me atormentando e me ferindo com as suas palavras?

Vocês já me insultaram várias vezes. Será que não se envergonham de me tratar tão mal?

Mesmo que eu fosse culpado, será que o meu erro prejudicaria vocês?

Vocês pensam que são melhores do que eu e acham que a minha desgraça prova que sou culpado.

“Pois fiquem sabendo que Deus foi injusto comigo; foi ele que armou uma armadilha para me pegar.

Eu protesto contra a sua violência, mas ninguém me ouve; eu peço ajuda, porém não existe justiça.

Deus fechou o meu caminho com um muro, de modo que não consigo passar; ele cobriu de escuridão os meus caminhos.

Deus tirou toda a minha riqueza e destruiu a boa fama que eu tinha.

Ele me atacou por todos os lados até acabar comigo e arrancou pelas raízes a minha esperança.

A sua ira contra mim queimou como fogo; ele me tratou como se eu fosse um inimigo.

Ele me atacou com desgraças; como se fossem tropas, elas cavaram trincheiras e acamparam em volta da minha casa.

“Deus fez com que os meus irmãos me abandonassem; os meus conhecidos me tratam como se eu fosse um estranho.

Os meus parentes se afastaram; os meus amigos não lembram mais de mim.

Os meus hóspedes fazem de conta que não me conhecem; as minhas empregadas me tratam como se eu fosse um estrangeiro.

Chamo um empregado, e ele não me atende, nem mesmo quando peço alguma coisa por favor.

A minha mulher não tolera o mau cheiro da minha boca; os meus irmãos têm nojo de mim.

Até as crianças me desprezam; assim que me levanto, já estão zombando de mim.

Todos os meus amigos íntimos me detestam; as pessoas que eu mais estimo estão contra mim.

Virei pele e osso; mal consigo ir vivendo.

Meus amigos, tenham pena de mim, pois foi a mão de Deus que me feriu.

Por que vocês me perseguem como Deus me persegue? Por que não param de me atormentar?

“Como gostaria que as minhas palavras fossem escritas, que fossem escritas num livro!

Ou que com uma ponteira de ferro elas fossem gravadas para sempre no chumbo ou na pedra!

Pois eu sei que o meu defensor vive; no fim, ele virá me defender aqui na terra.

Mesmo que a minha pele seja toda comida pela doença, ainda neste corpo eu verei a Deus.

Eu o verei com os meus olhos; os meus olhos o verão, e ele não será um estranho para mim. E desejo tanto que isso aconteça!

“Vocês dizem: ‘Como foi que nós o atormentamos? A causa desta desgraça está nele mesmo.’

Mas tenham medo da espada, a espada com que Deus castiga a maldade. Fiquem sabendo que há alguém que nos julga.”

 

Jó 20

Então Zofar, da região de Naamá, em resposta disse:

“Jó, você me deixou perturbado, e por isso respondo logo.

As suas repreensões são um insulto, mas eu sei dar a resposta certa.

“Você sabe muito bem que desde os tempos antigos, desde que o ser humano existe na terra, sempre foi assim:

a alegria de quem é mau dura pouco; o seu prazer passa depressa.

Ele pode ser tão alto como o céu, e a sua cabeça tocar nas nuvens,

mas ele se acabará para sempre como a cinza, e os seus conhecidos não ficarão sabendo o que aconteceu com ele.

Ele desaparecerá como um sonho, como uma visão da noite, para nunca mais ser visto.

As pessoas que viviam com ele não o verão mais.

Os seus filhos devolverão aos pobres aquilo que ele roubou, aquilo que ele ganhou desonestamente.

O seu corpo jovem e forte logo virará pó.

“Para quem é mau, a maldade é doce. Ele a esconde debaixo da língua

e fica com ela na boca para sentir bem o seu gosto.

Mas daí a pouco, no estômago, ela vira um veneno amargoso.

O homem mau vomita as riquezas que rouba; Deus as arranca do seu estômago.

Ele toma veneno de cobra, e esse veneno o mata.

Quem é mau não terá o prazer de tomar leite e mel, que correm como rios.

Ele terá de abandonar tudo o que ganhou com o seu trabalho e não poderá aproveitar as suas riquezas.

Isso porque explora os pobres e os esquece e rouba as casas dos outros em vez de construir as suas.

Ele nunca está satisfeito com o que possui; quer ter sempre mais e mais.

Avança em tudo o que pode, mas a sua prosperidade acabará.

No ponto mais alto do seu sucesso, a miséria o atacará; todo o peso da desgraça cairá sobre ele.

“Ele que encha a barriga! Deus descarregará sobre ele a sua ira; Deus fará chover sobre ele o seu furor.

Mesmo que ele escape de uma arma de ferro, uma flecha com ponta de bronze o atravessará.

Tirarão a flecha das suas costas, e ela sairá brilhando com o seu sangue. E o medo tomará conta dele.

Tudo o que ele ajuntou será destruído; um fogo não aceso por mãos humanas acabará com ele e com toda a sua família.

“O céu mostrará os pecados dos maus, e a terra se levantará para acusá-los.

No dia em que a ira de Deus se derramar sobre eles, todas as suas riquezas serão destruídas.

É isso o que Deus faz com os perversos; é essa a recompensa que ele guarda para os maus.”

 

Jó 21

Então em resposta Jó disse:

“O melhor consolo que vocês me podem dar é escutar com atenção as minhas palavras.

Tenham paciência enquanto falo; depois que eu terminar, vocês podem zombar de mim.

Não é de nenhum ser humano que me queixo e é por isso que estou tão impaciente.

Se vocês olharem para mim, porão a mão na boca, assustados.

Quando penso no que aconteceu, fico perturbado, e o meu corpo todo treme.

“Por que será que os maus continuam vivos? Por que chegam ricos à velhice?

Eles têm filhos e netos e vivem para vê-los bem crescidos ao seu redor.

Nada ameaça a segurança dos seus lares, e Deus não os castiga.

O seu gado se reproduz sem problemas, dando crias sem nunca abortar.

Os seus filhos correm como carneirinhos e pulam de alegria;

eles cantam e se divertem ao som de pandeiros, liras e flautas.

Os maus têm sempre do bom e do melhor e morrem em paz, sem sofrimento.

“No entanto, a Deus eles dizem: ‘Deixa-nos em paz; não queremos saber das tuas leis.

Quem é o Deus Todo-Poderoso para que o adoremos? Que adianta fazer orações a ele?’

Os maus dizem que progridem pelos seus próprios esforços, mas eu não aceito o seu modo de pensar.

“Quando foi que se apagou a luz dos perversos? Quantas vezes algum deles caiu na desgraça? Será que Deus alguma vez ficou irado com eles e os fez sofrer?

Quando foi que ele os espalhou como a palha ou como a poeira que é levada pela ventania?

“Vocês dizem que Deus castiga o filho pelos pecados do pai. Mas é o pai que deveria ser castigado para que aprendesse a lição.

Que o pecador receba o seu próprio castigo, que ele sinta o peso da ira do Todo-Poderoso!

Mas, se ele já está morto, se já está no outro mundo, que lhe importa que a sua família sofra?

Por acaso, alguém pode dar lições ao Todo-Poderoso, que julga até os seres celestiais?

“Alguns homens levam uma vida feliz e tranqüila e morrem ricos,

com saúde e cheios de força.

Outros, ao contrário, nunca provaram um momento de felicidade e morrem com o coração cheio de amargura.

Mas uns e outros acabam morrendo, são sepultados e ficam cobertos de vermes.

“Eu conheço os pensamentos de vocês e sei que pensam mal de mim.

Vocês perguntam: ‘Onde está agora a casa daquele grande homem que vivia uma vida de pecado?’

“Será que vocês não têm conversado com pessoas que viajam? Vocês não têm ouvido as suas histórias?

Essas pessoas dizem que, quando Deus fica irado e castiga, o homem mau sempre escapa.

Ninguém o acusa das maldades que comete; ninguém o faz pagar pelos seus atos.

Ele é levado para o cemitério e posto numa sepultura bem guardada.

Milhares de pessoas acompanham o corpo, e até a terra que o cobre é leve.

“Meus amigos, as suas consolações são vazias; tudo o que vocês dizem é mentira.”

 

Jó 22

Então Elifaz, da região de Temã, em resposta disse:

“Será que uma pessoa, por mais sábia que seja, poderia ser útil para Deus?

Será que interessa ao Todo-Poderoso que você seja honesto? Que lucro tem ele se você é correto em todas as coisas?

Se ele o castiga e o chama para prestar contas, não é porque você o adora com todo o respeito,

mas sim porque cometeu muitos pecados, e as suas maldades não têm conta.

Como garantia de um pequeno empréstimo, você ficava com as roupas dos seus patrícios e assim os deixava nus.

Você não dava água para as pessoas cansadas nem comida aos que tinham fome.

Você usou a sua posição e o seu poder para se tornar o dono da terra.

Você roubou e maltratou os órfãos e nunca ajudou as viúvas.

Por isso, agora você está cercado de perigos, e, de repente, o medo toma conta de você.

A escuridão é tanta, que você não enxerga nada, e uma enchente o arrasta.

“Deus está nas alturas do céu; ele olha para baixo e vê as estrelas, embora elas estejam lá no alto.

Mas você pergunta: ‘Será que Deus sabe alguma coisa? As nuvens escuras ficam no meio; como é que ele pode nos julgar?’

Jó, você acha que as grossas nuvens não deixam que Deus nos veja, quando ele está passeando pelo céu?

“Será que você quer andar nos caminhos que os maus têm seguido desde os tempos antigos?

Eles morreram de repente, como se fossem levados por uma enchente.

A Deus eles diziam: ‘Deixa-nos em paz!’ E comentavam: ‘O que pode o Todo-Poderoso fazer em nosso favor?’

Foi Deus quem encheu de coisas boas as casas dos maus, porém eu não quero pensar como eles.

As pessoas honestas ficam alegres, e as corretas riem,

ao verem destruídas as riquezas dos ricos e as sobras devoradas pelo fogo.

“Jó, faça as pazes com Deus, deixe de tratá-lo como inimigo, e assim ele dará a você tudo o que há de bom.

Deixe que Deus o ensine e guarde as palavras dele no seu coração.

Se você voltar para o Todo-Poderoso e se humilhar, se você acabar com a maldade que há na sua casa,

se o ouro mais precioso não tiver valor para você e for como o pó ou as pedrinhas do ribeirão,

então o Todo-Poderoso será o seu ouro puro, será a sua prata mais preciosa.

Ele será a sua alegria, e você poderá olhar para ele com confiança.

Ele ouvirá as suas orações, e você lhe dará o que prometer.

Tudo o que você fizer dará certo, e a luz brilhará no seu caminho.

Deus rebaixa os orgulhosos, mas salva os humildes.

Ele o salvará se você for inocente, se for correto em tudo o que fizer.”

 

Jó 23

Porém em resposta Jó disse:

“Eu ainda estou revoltado e me queixo de Deus; não posso parar de gemer.

Gostaria de saber onde encontrá-lo; gostaria de ir até o lugar onde ele está,

para levar a ele a minha causa e apresentar todas as razões que tenho a meu favor.

Gostaria de saber o que ele me diria e como me responderia.

Será que Deus usaria todo o seu poder contra mim? Não! Estou certo de que ele me ouviria.

Sou um homem honesto. Eu poderia apresentar a minha causa a ele, e de uma vez por todas ele me declararia inocente.

“Eu procuro no Leste, mas Deus não está ali; e não o encontro no Oeste.

E também não o vejo quando age no Norte ou se esconde no Sul.

Mas Deus conhece cada um dos meus passos; se ele me puser à prova, verá que sairei puro como o ouro.

Eu sigo o caminho que ele me mostra e nunca me desvio para lado nenhum.

Obedeço aos mandamentos de Deus; sempre faço a sua vontade e não a minha.

“Deus faz o que quer; quando ele decide fazer alguma coisa, ninguém pode impedir.

Ele levará até o fim o que planejou fazer comigo e também realizará todos os seus outros planos.

Por isso, eu perco a coragem na presença dele e, quando penso nisso, fico apavorado.

(16-17) A escuridão me deixou cego; mas é o Deus Todo-Poderoso quem me põe medo, e não a escuridão.

 

Jó 24

“Por que o Todo-Poderoso não marca um dia para julgar, um dia para fazer justiça aos que são dele?

Há homens que mudam os marcos de divisa para aumentar as suas terras; eles roubam ovelhas e as põem no meio das suas.

Levam jumentos que pertencem a órfãos e ficam com o boi de uma viúva como garantia de pagamento de empréstimo.

Eles não respeitam os direitos dos pobres e forçam os necessitados a correr e se esconder.

“Como se fossem jumentos selvagens, os pobres andam pelo deserto procurando alimento para os filhos.

Os pobres precisam trabalhar nas colheitas dos maus e apanham uvas para eles.

Não têm cobertas para se cobrir de noite, não têm nada que os proteja do frio.

Nas montanhas são encharcados pelas chuvas e procuram abrigo nas rochas.

Os perversos pegam orfãozinhos e fazem deles escravos e recebem os filhos dos necessitados como pagamento de dívidas.

Os pobres andam por aí quase nus e passam fome enquanto trabalham na colheita do trigo.

Eles movem as pedras dos moinhos dos maus para fazer azeite e pisam as suas uvas para fazer vinho, mas morrem de sede durante esse trabalho.

Os feridos e os que estão morrendo gritam nas cidades, mas Deus não escuta os seus gritos pedindo socorro.

“Os perversos odeiam a luz; em todos os seus caminhos, em tudo o que fazem, não querem saber dela.

O assassino se levanta de madrugada para matar o pobre e de noite vira ladrão.

O adúltero espera o cair da noite e cobre o rosto para que ninguém o veja.

Os ladrões invadem de noite as casas; eles não saem de dia, pois não querem nada com a luz.

Eles têm medo da luz do dia, mas a escuridão não os deixa apavorados.”

“O homem mau é arrastado pela enchente. As suas terras são amaldiçoadas por Deus, e ele não volta a trabalhar na sua plantação de uvas.

Como a neve se derrete no tempo seco e no calor, assim também o pecador desaparece da terra dos vivos.

A própria mãe não lembra dele. Os vermes o devoram com gosto, e ele é esquecido por todos. O pecador é destruído como uma árvore que cai.

Isso acontece porque ele nunca ajudou as viúvas, nem teve pena das mulheres que não podem ter filhos.

Deus, com o seu poder, destrói os maus; ele age e acaba com a vida dos perversos.

Deus deixa que vivam seguros, mas fica sempre de olho neles.

Durante algum tempo, os perversos prosperam, mas num instante secam como o capim, são cortados como as espigas de trigo.

Quem pode dizer que essas coisas não são assim? Será que alguém pode provar que não estou dizendo a verdade?”

 

Jó 25

Então Bildade, da região de Sua, em resposta disse:

“Deus é poderoso e deve ser temido; ele faz com que haja paz no céu.

Será que alguém já contou os seus anjos? Haverá alguém sobre quem a sua luz não brilhe?

Pode alguém ser correto diante de Deus? Pode um simples mortal deixar de ser culpado?

Para Deus até a lua não tem brilho, e as estrelas têm defeitos.

Que dizer, então, do ser humano, esse inseto? Que valor tem esse verme para Deus?”

 

Jó 26

Então Jó em resposta disse:

“Bildade, eu estou fraco, sem forças; como você me ajuda e me consola!…

Como você é bom para dar conselhos e gastar a sua sabedoria com um ignorante como eu!

Quem foi que o ajudou a dizer essas palavras? Quem o inspirou a falar assim?”

“Os mortos tremem de medo nas águas debaixo da terra.

Para Deus o mundo dos mortos é aberto; não há cobertura que o impeça de ver o que lá acontece.

Deus estendeu o céu sobre o vazio e suspendeu a terra por cima do nada.

Ele prende a água nas nuvens, e elas não se rasgam com o seu peso.

Ele cobre a cara da lua cheia, estendendo sobre ela uma nuvem.

Deus separou a luz da escuridão por meio de um círculo desenhado no mar.

Quando ele ameaça as colunas que sustentam o céu, elas se assustam e tremem de medo.

Com o seu poder, Deus dominou o Mar; com a sua inteligência, derrotou o monstro Raabe.

Com o seu sopro, Deus limpou o céu e, com a sua mão, matou a Serpente fugitiva.

Mas essas coisas são apenas uma amostra, um eco bem fraco do que Deus é capaz de fazer. Quem pode compreender a verdadeira grandeza do seu poder?”

 

Jó 27

E Jó continuou em sua fala e disse:

“Juro por Deus, pelo Todo-Poderoso, que não quer me fazer justiça e que enche de amargura o meu coração,

juro que, enquanto ele me der forças para respirar,

os meus lábios nunca dirão coisas más, e a minha língua não contará mentiras.

Nunca direi que vocês têm razão de me acusar; enquanto viver, insistirei na minha inocência.

Fico firme e não desisto de dizer que estou certo, pois a minha consciência nunca me acusou.

“Que todos os que são contra mim, os que são meus inimigos, sejam castigados como os maus, como os perversos!

Que esperança terão os ateus quando Deus lhes tirar a vida?

Quando estiverem em dificuldades, ele não ouvirá os seus gritos,

pois Deus não é a alegria deles, e eles nunca fizeram orações ao Todo-Poderoso.

“Vou ensinar a vocês como é grande o poder de Deus, vou explicar os planos do Todo-Poderoso.

Não, não é preciso, pois vocês todos já viram isso. Então por que é que ficam aí dizendo bobagens?”

“Vou dizer como Deus, o Todo-Poderoso, castiga os homens maus e violentos.

As suas crianças passarão fome, e os seus filhos, mesmo que sejam muitos, morrerão na guerra;

os que ficarem vivos morrerão de doença, e as suas viúvas não chorarão por eles.

“O perverso pode ajuntar prata aos montes, pode ter muita roupa, muita mesmo,

mas algum dia uma pessoa direita usará essas roupas, e um homem honesto ficará com a prata.

A casa que o homem mau constrói dura tão pouco tempo como uma teia de aranha ou como a cabana de um vigia numa plantação.

O homem mau vai rico para a cama, mas é pela última vez, pois, quando acorda, a sua riqueza já se foi.

O terror o arrasará como se fosse uma enchente, e de noite a tempestade o jogará longe.

O vento violento do Leste o arrancará da sua casa,

soprando contra ele sem piedade, enquanto ele faz tudo para escapar.

Ele corre, e o vento assobia e o apavora com o seu poder destruidor.”

 

Jó 28

Há minas de onde se tira a prata, há lugares onde se refina o ouro.

O ferro é tirado da terra, e das pedras se derrete o cobre.

Os mineiros levam luz para debaixo da terra; eles exploram lugares profundos e ali, na escuridão, procuram minérios.

Longe das cidades, em lugares por onde ninguém passa, eles abrem os poços das minas. E trabalham na solidão, pendurados e balançando de um lado para outro.

Por cima deles, a terra produz trigo e por baixo está toda rasgada e esmigalhada.

As suas pedras contêm safiras, e no seu pó se encontra ouro.

As águias não vêem o caminho que desce para as minas, e os falcões também não o conhecem.

Os leões e outros animais ferozes nunca descem por esse caminho.

Os homens cavam as rochas mais duras e cortam as montanhas até o chão.

Eles furam túneis nas pedras, com olhos abertos para tudo o que é precioso.

Eles cavam até chegar às nascentes dos rios e trazem para a luz o que estava escondido.

Mas onde pode ser achada a sabedoria? Em que lugar está a inteligência?

Os seres humanos não conhecem o valor da sabedoria e não a encontram neste mundo.

O Oceano afirma: “Aqui não está”, e o Mar diz: “Aqui também não.”

Ela não pode ser comprada com ouro, nem trocada por prata.

Não se compra a sabedoria com o ouro mais puro, nem com pedras preciosas, como a ágata ou a safira.

Ela vale mais do que o ouro ou o vidro; não se pode trocá-la por jóias de ouro puro.

Do coral e do cristal nem se fala; a sabedoria é mais valiosa do que as pérolas.

O topázio da Etiópia não se compara com ela; e ela não pode ser comprada com o ouro mais puro.

De onde vem, então, a sabedoria? Em que lugar está a inteligência?

Nenhum ser vivo pode vê-la, nem mesmo as aves que voam no céu.

Até a Destruição e a Morte dizem: “Nós apenas ouvimos falar dela.”

Só Deus conhece o caminho; só ele sabe onde está a sabedoria

porque a sua vista alcança os lugares mais distantes do mundo; ele vê tudo o que acontece aqui na terra.

Quando Deus regulou a força dos ventos e marcou o tamanho do mar;

quando decidiu onde a chuva devia cair e por onde a tempestade devia passar;

foi então que ele viu a sabedoria, e a examinou, e aprovou.

E ele disse aos seres humanos: “Para ser sábio, é preciso temer o Senhor; para ter compreensão, é necessário afastar-se do mal.”

 

Jó 29

E Jó continuou a sua fala e disse:

“Ah! Se eu pudesse voltar meses atrás, para os dias em que Deus me protegia!

Naquele tempo, Deus iluminava o meu caminho, e com a sua luz eu podia andar na escuridão.

Naqueles dias, eu estava bem de vida, e a amizade de Deus era a proteção do meu lar.

O Todo-Poderoso estava comigo, e os meus filhos viviam ao meu redor.

Em casa sempre havia leite à vontade e também azeite, tirado das oliveiras plantadas entre as pedras.

Quando eu saía para a reunião do tribunal e me assentava entre os juízes,

os moços me viam e abriam passagem, e os idosos se punham de pé.

As pessoas mais importantes paravam de falar e ficavam em silêncio.

As autoridades se calavam; não diziam mais nada.

“Quem me ouvia falar me dava parabéns; os que me viam falavam bem de mim,

pois eu ajudava os pobres que pediam ajuda e cuidava dos órfãos que não tinham quem os protegesse.

Pessoas que estavam na miséria me abençoavam, e as viúvas se alegravam com o meu auxílio.

A minha justiça e a minha honestidade faziam parte de mim; eram como a roupa que eu uso todos os dias.

Eu era olhos para os cegos e pés para os aleijados.

Era pai dos pobres e defensor dos direitos dos estrangeiros.

Eu acabava com o poder dos exploradores e livrava das suas garras as vítimas.

“Eu pensava assim: ‘Vou viver uma vida longa e morrer em casa, com todo o conforto.

Serei como uma árvore de raízes que chegam até a água, uma árvore que todas as noites é molhada pelo orvalho.

Todos só falarão bem de mim, e eu serei sempre vigoroso e forte.’

Todas as pessoas me davam atenção e em silêncio escutavam os meus conselhos.

Quando acabava de falar, ninguém discordava. As minhas palavras entravam na cabeça deles como se fossem gotas de água na areia.

Todos as esperavam ansiosos, como se espera a chuva no tempo de calor.

Eu sorria para aqueles que tinham perdido a esperança; o meu rosto alegre lhes dava coragem.

Eu era como um chefe, decidindo o que eles deviam fazer; eu os dirigia como um rei à frente do seu exército e os consolava nas horas de aflição.

 

Jó 30

“Mas agora homens mais moços do que eu zombam de mim. Os pais deles não valem nada; eu não poria essa gente nem com os cachorros que cuidam do meu rebanho.

De que me serviria a força dos seus braços? São homens magros,

enfraquecidos de tanto passar fome e miséria. À noite, na solidão de lugares desertos, eles têm de roer raízes secas.

Pegam ervas e cascas de árvores e se alimentam de raízes que não servem para comer.

São expulsos do meio das pessoas, que os espantam, aos gritos, como se eles fossem ladrões.

Têm de morar em barrancos medonhos, em cavernas ou nas rochas.

Uivam no meio das moitas e se ajuntam debaixo dos espinheiros.

Raça inútil, gente sem nome, são enxotados do país.

“Mas agora essa gente vem e zomba de mim; para eles eu não passo de uma piada.

Sentem nojo de mim e se afastam e chegam até a me cuspir na cara.

Deus me enfraqueceu e me humilhou, e por isso, furiosos, eles se viram contra mim.

Essa raça de gente ruim me ataca, me faz correr e procura acabar comigo.

Eles não deixam que eu fuja, procuram me destruir, e ninguém os faz parar.

Entram por uma brecha da muralha e no meio das ruínas se jogam contra mim.

Eu fico apavorado. A minha honra foi como que varrida para longe pelo vento; a minha prosperidade passou como se fosse uma nuvem.

“Agora já não tenho vontade de viver; o desespero tomou conta de mim.

De noite os ossos me doem muito; a dor que me atormenta não pára.

Deus me agarrou pela garganta com tanta violência, que desarrumou a minha roupa.

Ele me atirou na lama; eu não valho mais do que o pó ou a cinza.

“Ó Deus, eu clamo pedindo a tua ajuda, e não me respondes; eu oro a ti, e não te importas comigo.

Tu me tratas com crueldade e me persegues com todo o teu poder.

Fazes com que o vento me carregue e numa tempestade violenta me jogas de um lado para outro.

Bem sei que me levarás à Terra da Morte, o lugar de encontro marcado para todos os vivos.

Por que atacas um homem arruinado, que não pode fazer nada, a não ser pedir piedade?

Por acaso, não chorei com as pessoas aflitas? Será que não tive pena dos pobres?

Eu esperava a felicidade, e veio a desgraça; eu aguardava a luz, e chegou a escuridão.

“O meu coração está agitado e não descansa; só tenho vivido dias de aflição.

Levo uma vida triste, como um dia sem sol; eu me levanto diante de todos e peço ajuda.

A minha voz é um gemido triste, como os uivos do lobo ou os gritos do avestruz.

A minha pele está ficando preta, e o meu corpo queima de febre.

Eu costumava ouvir a música alegre de liras e flautas, mas agora só escuto gente chorando e soluçando.

 

Jó 31

“Eu jurei que os meus olhos nunca haveriam de cobiçar uma virgem.

Se eu tivesse quebrado o juramento, que recompensa Deus me daria, e como é que lá dos céus o Todo-Poderoso me abençoaria?

Pois Deus manda a infelicidade e a desgraça para aqueles que só fazem o mal.

Deus sabe tudo o que eu faço; ele vê cada passo que dou.

“Juro que não tenho sido falso e que nunca procurei enganar os outros.

Que Deus me pese numa balança justa e ele ficará convencido de que sou inocente!

“Se por acaso me desviei do caminho certo, se o meu coração foi levado pela cobiça dos olhos, se pequei, ficando com qualquer coisa que pertence a outra pessoa,

então que outros comam o que eu semeei, ou que as minhas plantações sejam destruídas.

Se o meu coração alguma vez foi seduzido pela mulher do meu vizinho, e se fiquei escondido, espiando a porta da casa dela,

então que a minha mulher se torne escrava de outro, e que outros durmam com ela.

Se eu tivesse cometido esse crime horrível, o tribunal deveria me condenar.

Esse pecado seria como um incêndio terrível, infernal, que destruiria tudo o que tenho.

“Quando um empregado ou empregada reclamava contra mim, eu resolvia o assunto com justiça.

Se eu não tivesse agido assim, que faria quando Deus me julgasse? Que responderia, quando ele pedisse conta dos meus atos?

Pois o mesmo Deus que me criou, criou também os meus empregados; ele deu a vida tanto a mim como a eles.

“Nunca deixei de ajudar os pobres, nem permiti que as viúvas chorassem de desespero.

Nunca tomei sozinho as minhas refeições, mas sempre reparti a minha comida com os órfãos.

Eu os tratava como se fosse pai deles e sempre protegi as viúvas.

Quando via alguém morrendo de frio por falta de roupa ou notava algum pobre que não tinha com que se cobrir,

eu lhe dava roupas quentes, feitas com a lã das minhas próprias ovelhas, e ele me agradecia do fundo do coração.

Se alguma vez fui violento com um órfão, sabendo que eu tinha o apoio dos juízes,

então que os meus braços sejam quebrados, que sejam arrancados dos meus ombros.

Eu nunca faria nenhuma dessas coisas, pois tenho pavor do castigo de Deus e não poderia enfrentar a sua presença gloriosa.

“Jamais confiei no ouro; ele nunca foi a base da minha segurança.

Nunca me orgulhei de ter muitas riquezas, nem de ganhar muito dinheiro.

Tenho visto o sol brilhar e a lua caminhar em toda a sua beleza,

porém nunca os adorei, nem em segredo, e não lhes atirei beijos com a mão.

Se tivesse cometido esse terrível pecado, eu teria sido infiel a Deus, que está lá em cima, e o tribunal deveria me condenar.

“Jamais me alegrei com o sofrimento dos meus inimigos, nem fiquei contente se lhes acontecia alguma desgraça.

E nunca fiz uma oração pedindo a Deus que matasse algum deles.

“Os empregados que trabalham para mim sabem que os meus convidados comem à vontade, do bom e do melhor.

Nunca deixei um estrangeiro dormir na rua; os viajantes sempre se hospedaram na minha casa.

Jamais procurei encobrir as minhas faltas, como fazem algumas pessoas, nem escondi no coração os meus pecados.

Nunca tive medo daquilo que os outros poderiam dizer; não fiquei dentro de casa, calado, com receio de que zombassem de mim.

“Como gostaria que alguém me ouvisse! Aqui eu termino e assino a minha defesa; que o Todo-Poderoso me responda! Que o meu Adversário escreva a acusação,

e, com orgulho, eu a carregarei no ombro e a porei na cabeça como se fosse uma coroa!

Darei conta a Deus de todos os meus atos e na presença dele ficarei de cabeça erguida.

“As minhas terras nunca choraram, nem gritaram ao céu contra mim.

Pois, se comi os seus frutos, sempre paguei os trabalhadores como devia e jamais deixei que morressem de fome.

Se não estou dizendo a verdade, então que nas minhas terras cresçam espinhos em vez de trigo e mato em vez de cevada.” Aqui terminam as palavras de Jó.

 

Jó 32

Jó estava convencido da sua inocência, e por isso os três amigos desistiram de continuar a discutir com ele.

Acontece que ali estava um homem chamado Eliú, filho de Baraquel e descendente de Buz, do grupo de famílias de Rão. Eliú ficou muito zangado com Jó porque este dizia que era inocente e que Deus era culpado.

E também ficou zangado com os três amigos porque eles não puderam responder a Jó, dando assim a idéia de que Deus estava errado.

Eliú esperou para falar no fim, pois os outros eram mais velhos do que ele.

Quando viu que eles não souberam como responder a Jó, Eliú ficou zangado.

Então Eliú, filho de Baraquel e descendente de Buz, disse: “Eu sou moço, e vocês são idosos. Foi por isso que não me atrevi a dar a minha opinião.

Pensei assim: ‘Que fale a voz da experiência, que os muitos anos mostrem a sua sabedoria!’

Mas acontece que dentro das pessoas há um espírito, há um sopro do Todo-Poderoso que dá sabedoria.

Nós não ficamos mais sábios com a idade, nem sempre os velhos sabem o que é certo.

Portanto, escutem o que digo, pois eu também vou dar a minha opinião.

“Esperei que vocês falassem e escutei as suas razões. Enquanto vocês escolhiam as melhores palavras,

eu prestava toda a atenção. Mas nenhum de vocês convenceu Jó, nem deu resposta às suas palavras.

Como é que vocês podem dizer que descobriram a sabedoria? É Deus, e não um ser humano, quem terá de dar resposta a Jó.

Eu nunca teria respondido como vocês; mas Jó estava falando com vocês e não comigo.

“Jó, estes três estão derrotados e não têm mais palavras para continuar a discutir.

Eles já pararam; não falam mais. Será que devo continuar esperando enquanto estão calados?

Não! Eu darei a minha resposta agora e direi o que penso sobre o assunto.

Tenho muito o que falar e já não consigo mais ficar calado.

Se eu não falar, sou capaz de estourar como um odre cheio de vinho novo.

Não agüento mais; preciso desabafar, quero dar a minha opinião.

Não vou tomar partido nesta discussão e não vou adular ninguém.

Eu não costumo bajular; e, se bajulasse, o Criador logo me castigaria.

 

Jó 33

“Por isso, Jó, escute as minhas palavras e preste atenção em tudo o que vou dizer.

Estou pronto para começar e vou falar o que penso.

Darei a minha opinião com franqueza; as minhas palavras serão sinceras, vindas do coração.

Pois foi o Espírito de Deus que me fez, e é o sopro do Todo-Poderoso que me dá vida.

“Responda-me, se for capaz; prepare-se para discutir comigo.

Para Deus você e eu somos iguais; eu também fui formado do barro.

Por isso, não tenha medo de mim; a minha intenção não é esmagar você.

“Creio que ouvi você dizer o seguinte:

‘Não sou culpado; não fiz nada de errado. Estou inocente; não cometi nenhum pecado.

É Deus quem inventa motivos para me atacar; ele me trata como se eu fosse um inimigo.

Ele amarrou os meus pés com correntes e fica vigiando tudo o que eu faço.’

“Mas eu lhe digo que você não tem razão, pois Deus é maior do que as criaturas humanas.

Por que você acusa Deus, afirmando que ele não dá atenção às nossas queixas?

Deus fala de várias maneiras, porém nós não lhe damos atenção.

De noite, na cama, quando dormimos um sono profundo, ele fala por meio de sonhos ou de visões.

Deus fala aos nossos ouvidos, e os seus avisos nos enchem de medo.

Ele fala com a gente para que deixemos de pecar e para que não nos tornemos orgulhosos.

Assim, ele nos livra da morte e não deixa que nos joguem na sepultura.

“Outras vezes, Deus castiga com doenças e com fortes dores que não passam.

O doente perde o apetite e não quer nem ver as comidas mais gostosas.

Ele emagrece, vai se acabando e no fim vira pele e osso.

Ele está às portas da morte; logo será levado para a sepultura.

“Pode ser que ele venha a ser socorrido por um anjo, um dos milhares de anjos de Deus, que ensinam a gente a fazer o que é certo.

O anjo terá pena dele e pedirá a Deus: ‘Solta-o! Ele não deve descer ao mundo dos mortos. Aqui está o pagamento do seu resgate.’

Então ele terá saúde novamente, e o seu corpo será forte como era na juventude.

Quando orar, Deus o atenderá. Ele o adorará com alegria, e Deus o aceitará de novo como um homem direito.

Ele dirá a todos: ‘Pequei, cometi injustiças, mas Deus não me castigou.

Ele me salvou da morte; eu ainda posso ver a luz.’

“Deus faz tudo isso com a gente e faz várias vezes.

Ele não deixa que morramos, e assim continuamos a ser iluminados pela luz da vida.

“Agora, Jó, escute com atenção; fique calado, pois vou falar.

Se você tem alguma coisa a dizer, responda, pois eu gostaria de lhe dar razão.

Se não, fique calado e escute, que eu lhe ensinarei como ser sábio.”

 

Jó 34

Eliú disse mais:

“Vocês que são sábios e instruídos, escutem o que vou dizer.

Assim como os ouvidos julgam o valor das palavras, e o paladar prova os alimentos,

assim nós agora vamos examinar o caso e resolvê-lo do jeito que nos parecer melhor.

“Jó está dizendo que é inocente e que Deus não quer lhe fazer justiça.

E pergunta: ‘Como é que eu poderia mentir, dizendo que estou errado? Sofro de uma doença que não tem cura, embora não tenha cometido nenhum pecado.’

“Neste mundo não há ninguém como Jó, para quem é tão fácil zombar de Deus como beber um copo de água.

Ele anda com homens maus e se ajunta com gente que não presta.

E diz assim: ‘Não adianta nada procurar agradar a Deus.’

“Agora, vocês que têm juízo, me escutem. Será que Deus faria alguma coisa errada? Será que o Todo-Poderoso cometeria uma injustiça?

Ele nos paga de acordo com o que fazemos e dá a cada um o que merece.

Na verdade, o Deus Todo-Poderoso não faz o mal e não é injusto com ninguém.

Quem entregou o poder a Deus? Quem o fez governador do Universo?

Se Deus quisesse, poderia fazer voltar para si o fôlego, a respiração da gente;

então todas as pessoas morreriam juntas, no mesmo instante, e voltariam de novo para o pó.

“Agora, Jó, se você é sábio, escute e preste atenção no que vou dizer.

Se Deus odiasse a justiça, não poderia governar o mundo. Será que você quer condenar aquele que é justo e poderoso?

Deus condena os reis e as autoridades quando são maus, quando não prestam.

Ele não mostra preferência pelas pessoas que estão no poder, nem favorece os ricos em prejuízo dos pobres, pois todos foram criados por ele.

A morte pode vir de repente, no meio da noite. A pessoa tem um ataque e morre. Deus não precisa de ajuda para matar os poderosos.

Pois ele sabe tudo o que fazemos e vê todos os passos que damos.

Não existe nenhum lugar, por mais escuro que seja, onde um pecador possa se esconder de Deus.

Deus não precisa marcar um dia para que uma pessoa se apresente a fim de ser julgada por ele.

Ele não necessita de examinar a vida dos poderosos para acabar com eles e dar a outros o seu lugar.

Pois Deus conhece o que eles fazem; de noite ele os derruba e esmaga.

Em público, na frente de todos, Deus os castiga como se fossem criminosos

porque eles se afastaram dele e não quiseram obedecer a nenhum dos seus mandamentos.

Eles fizeram com que os gritos dos pobres e explorados subissem até Deus, e ele os escutou.

“Mas, se Deus se calar, ninguém poderá condená-lo. Se ele esconder o rosto, as pessoas e as nações ficarão sem defesa

e nada poderão fazer para evitar que homens maus as governem e explorem.

“Jó, será que você já reconheceu diante de Deus que você sofreu por causa dos seus pecados e que prometeu que não vai pecar mais?

Será que você pediu a Deus que lhe mostrasse as suas faltas e resolveu parar de praticar o mal?

Se você não aceita o que Deus faz, como espera que ele faça o que você quer? Você é quem precisa responder, e não eu; diga-nos o que está pensando.

“As pessoas sábias e sensatas que me estão escutando certamente dirão assim:

‘Jó não sabe o que está falando; o que ele diz não faz sentido.

É só examinar bem as suas palavras, e a gente vê que ele responde como um perverso.

Jó é pecador, um pecador rebelde. Na nossa presença, zomba de Deus e não pára de falar contra ele.’”

 

Jó 35

Em seguida Eliú disse:

“Jó, você não tem o direito de dizer que para Deus você é inocente

e também não pode perguntar assim: ‘Ó Deus, será que te sentes mal com o meu pecado? E que vantagem tenho se não pecar?’

Pois eu vou responder a você e também aos seus amigos.

“Olhe para o céu e veja como as nuvens estão muito acima de você.

Se você peca, isso não atinge a Deus lá no alto; as suas faltas, por muitas que sejam, não vão prejudicar a Deus.

Se você faz o bem, não está ajudando a Deus; ele não precisa de nada que é seu.

São os outros que sofrem por causa dos pecados que você comete; e também são eles que são ajudados quando você pratica o bem.

“Os homens, quando são perseguidos por todos os lados, gemem e gritam, pedindo que alguém os livre das mãos dos poderosos;

porém não voltam para Deus, o seu Criador, que dá forças nas horas mais escuras.

Eles não voltam para Deus, que os torna sábios, mais sábios do que as aves e os animais.

Eles gritam por socorro, mas Deus não responde porque são orgulhosos e maus.

Mas é falso dizer que Deus não ouve ou que o Todo-Poderoso não vê.

“Jó, você diz que não pode ver a Deus; mas espere com paciência, pois a sua causa está com ele.

Você pensa que Deus não castiga, que ele não presta muita atenção no pecado.

Não adianta nada continuar o seu discurso; você fala muito, porém não sabe o que está dizendo.”

 

Jó 36

Eliú continuou a falar. Ele disse:

“Jó, tenha um pouco mais de paciência, pois ainda vou lhe mostrar que tenho outras coisas a dizer a favor de Deus.

Usarei os meus profundos conhecimentos para mostrar que Deus, o meu Criador, é justo.

Tudo o que vou dizer é verdade; quem está falando com você é realmente um sábio.

“Como Deus é poderoso! Ele não despreza ninguém. Deus sabe todas as coisas.

Ele não deixa que os maus continuem vivendo e sempre trata os pobres com justiça.

Deus protege os homens corretos, deixa que eles governem como reis e assim tenham uma alta posição para sempre.

Mas, se alguns são presos com correntes ou são amarrados com as cordas dos sofrimentos,

então Deus lhes mostra que isso é por causa do que fizeram, que é o castigo pelos seus pecados e pelo seu orgulho.

Deus faz com que escutem os seus avisos e manda que abandonem o pecado.

Se obedecem a Deus e o adoram, então têm paz e prosperidade até o fim da vida.

Mas, se não se importam com Deus, então morrem na ignorância, atravessam o rio e entram no mundo dos mortos.

“Aqueles que têm um coração perverso guardam raiva e, mesmo quando são castigados, não clamam pedindo socorro.

Desonram o seu corpo entre si e morrem em plena mocidade.

Mas Deus nos ensina por meio do sofrimento e usa a aflição para abrir os nossos olhos.

“Jó, Deus o livrou dos perigos e o deixou viver em segurança. À sua mesa sempre se comeu do bom e do melhor.

Mas você foi julgado e condenado e agora está recebendo o castigo que merece.

Cuidado, não aceite dinheiro para torcer a justiça, não deixe que as muitas riquezas o seduzam.

Não adianta nada gritar pedindo socorro; todo o seu poder não tem nenhum valor agora.

Não fique desejando que chegue a noite em que as nações serão destruídas.

Você está sofrendo por causa da sua maldade; cuidado, não se volte para ela!

“Como é grande o poder de Deus! Quem é capaz de governar tão bem como ele?

Ninguém pode dar ordens a Deus, nem acusá-lo de praticar o mal.

O mundo inteiro o louva pelo que ele faz, e você também não esqueça de louvá-lo.

Mesmo de longe todos nós vemos e admiramos o que Deus está fazendo.

Ele é grande demais para que o possamos conhecer; nós não podemos calcular quantos anos já viveu.

“Deus faz com que a água da terra suba para um depósito e depois a transforma em gotas de chuva.

As nuvens derramam a água, que cai em aguaceiros sobre a terra.

Quem entende o movimento das nuvens ou o barulho dos trovões no céu, onde Deus mora?

Deus espalha relâmpagos em volta de si, mas o fundo do mar continua escuro.

É assim que Deus alimenta os povos e lhes dá comida à vontade.

Ele pega o raio com as mãos e manda que atinja o alvo.

O gado sente que a tempestade está perto, e o trovão avisa que ela vem aí.

 

Jó 37

A tempestade me faz bater o coração, como se ele fosse pular para fora do peito.

Escutem o estrondo da voz de Deus, o trovão que sai da sua boca.

Ele solta relâmpagos por todos os lados do céu e de uma ponta da terra até a outra.

Então ouve-se o rugido da sua voz, o forte barulho do trovão; e durante todo o tempo os relâmpagos não param de cair.

Deus troveja com a sua voz maravilhosa; ele faz grandes coisas que não podemos compreender.

Deus manda que caia neve sobre a terra e também fortes pancadas de chuva.

Assim, faz com que as pessoas fiquem em casa, sem poderem trabalhar, para que todos saibam que é ele quem age.

Os animais entram nas suas tocas e ali ficam escondidos.

As tempestades violentas vêm do Sul, e o frio vem do Norte.

O sopro de Deus congela as águas, que assim ficam cobertas de gelo.

Deus enche de água as nuvens, e elas lançam os relâmpagos.

Seguindo a ordem de Deus, as nuvens se espalham em todas as direções. Elas fazem tudo o que Deus manda, em toda parte, no mundo inteiro.

Deus faz cair chuva sobre a terra ou para castigar a gente ou para mostrar que tem amor por nós.

“Jó, pare um instante e escute; pense nas coisas maravilhosas que Deus faz.

Será que você sabe como Deus dá a ordem para que os relâmpagos saiam brilhando das nuvens?

Você sabe como as nuvens ficam suspensas no ar? Isso é uma prova do infinito conhecimento de Deus.

Será que você, que fica sufocado de calor na sua roupa, antes de vir a tempestade de areia trazida pelo vento sul,

será que você pode ajudar Deus a estender o céu e fazer com que fique duro como uma placa de metal fundido?

Ensine-nos o que devemos dizer a ele, pois não somos capazes de pensar com clareza.

Eu não teria o atrevimento de discutir com Deus, pois isso seria pedir que ele me destruísse.

“Não é possível ver o sol quando está escondido pelas nuvens; mas ele brilha de novo, depois que o vento passa e limpa o céu.

No Norte vemos uma luz dourada, e a glória de Deus nos enche de profunda admiração.

Não podemos compreender o Todo-Poderoso, o Deus de grande poder. A sua justiça é infinita, e ele não persegue ninguém.

Por isso, as pessoas o temem, e ele não dá importância aos que acham que são sábios.”

 

Jó 38

Depois disso, do meio da tempestade, o SENHOR deu a Jó a seguinte resposta:

“As suas palavras só mostram a sua ignorância; quem é você para pôr em dúvida a minha sabedoria?

Mostre agora que é valente e responda às perguntas que lhe vou fazer.

“Onde é que você estava quando criei o mundo? Se você é tão inteligente, explique isso.

Você sabe quem resolveu qual seria o tamanho do mundo e quem foi que fez as medições?

Em cima de que estão firmadas as colunas que sustentam a terra? Quem foi que assentou a pedra principal do alicerce do mundo?

Na manhã da criação, as estrelas cantavam em coro, e os servidores celestiais soltavam gritos de alegria.

“Quando o Mar jorrou do ventre da terra, quem foi que fechou os portões para segurá-lo?

Fui eu que cobri o Mar com as nuvens e o envolvi com a escuridão.

Marquei os seus limites e fechei com trancas as suas portas.

E eu lhe disse: ‘Você chegará até este ponto e daqui não passará. As suas altas ondas pararão aqui.’

“Jó, alguma vez na sua vida você ordenou que viesse a madrugada e assim começasse um novo dia?

Você alguma vez mandou que a luz se espalhasse sobre a terra, sacudindo os perversos e os expulsando dos seus esconderijos?

A luz do dia mostra as formas das montanhas e dos vales, como se fossem as dobras de um vestido ou as marcas de um sinete no barro.

Essa luz é clara demais para os perversos e os impede de praticar a violência.

“Jó, você já visitou as nascentes do mar? Já passeou pelo fundo do oceano?

Alguém já lhe mostrou os portões do mundo dos mortos, aquele mundo de escuridão sem fim?

Você tem alguma idéia da largura da terra? Responda, se é que você sabe tudo isso.

“De onde vem a luz, e qual é a origem da escuridão?

Você sabe mostrar a elas até onde devem chegar e depois fazer com que voltem outra vez ao ponto de partida?

Sim, você deve saber, pois é bem idoso e já havia nascido quando o mundo foi criado…

“Você alguma vez visitou os depósitos onde eu guardo a neve e as chuvas de pedra,

que ficam reservadas para tempos de sofrimento e para dias de lutas e de guerras?

Você já esteve no lugar onde nasce o sol ou no ponto onde começa a soprar o vento leste?

“Quem foi que abriu um canal para deixar cair os aguaceiros e marcou o caminho por onde a tempestade deve passar?

Quem faz a chuva cair no deserto, em lugares onde ninguém mora?

Quem rega as terras secas e despovoadas, fazendo nascer nelas o capim?

Será que a chuva e o orvalho têm pai?

E quem é a mãe do gelo e da geada,

que faz com que as águas virem pedra e que o mar fique coberto por uma camada de gelo?

“Será que você pode amarrar com uma corda as estrelas das Sete-Cabrinhas ou soltar as correntes que prendem as Três-Marias?

Você pode fazer aparecer a estrela-d’alva, ou guiar a Ursa Maior e a Ursa Menor?

Você conhece as leis que governam o céu e sabe como devem ser aplicadas na terra?

“Será que a sua voz pode chegar até as nuvens e mandar que caia tanta chuva, que você fique coberto por um dilúvio?

Você pode fazer com que os raios apareçam e venham dizer-lhe: ‘Estamos às suas ordens?’

Quem deu sabedoria às aves, como o íbis, que anuncia as enchentes do rio Nilo, ou como o galo, que canta antes da chuva?

Quem é capaz de contar as nuvens? Quem pode derramar a sua água em forma de chuva,

que faz o pó virar barro, ligando os torrões uns aos outros?

“Será que é você quem dá de comer às leoas e mata a fome dos leõezinhos,

quando estão escondidos nas suas covas ou ficam de tocaia nas moitas?

Quem é que alimenta os corvos, quando andam de um lado para outro com fome, quando os seus filhotes gritam a mim pedindo comida?

 

Jó 39

“Você sabe quando nascem os cabritos selvagens ou já viu nascerem as corças?

Você sabe quantos meses as suas fêmeas levam para darem cria ou qual é o momento do parto?

Você sabe quando elas se abaixam para dar cria, trazendo a este mundo os seus filhotes?

Os filhotes crescem fortes, no campo; depois vão embora e não voltam mais.

“Quem deu a liberdade aos jumentos selvagens? Quem os deixou andar soltos, à vontade?

Eu lhes dei o deserto para ser a sua casa e os deixei viver nas terras salgadas.

Eles não querem saber do barulho das cidades; não podem ser domados, nem obrigados a levar cargas.

Eles pastam nas montanhas, onde procuram qualquer erva verde para comer.

“Será que um touro selvagem vai querer trabalhar para você? Será que ele vai passar a noite no seu curral?

Será que você consegue prendê-lo com cordas ao arado a fim de arar a terra ou puxar o rastelo?

Será que você pode confiar na grande força que ele tem, deixando por conta dele o trabalho pesado que há para fazer?

Você espera que ele traga o trigo que você colher e o amontoe no terreiro?

“Como batem rápidas as asas da avestruz! Mas nenhuma avestruz voa como a cegonha.

A avestruz põe os seus ovos no chão para que a areia quente os faça chocar.

Ela nem pensa que alguém vai pisá-los ou que algum animal selvagem pode esmagá-los.

Ela age como se os ovos não fossem seus e não se importa que os seus esforços fiquem perdidos.

Fui eu que a fiz assim, sem juízo, e não lhe dei sabedoria.

Porém, quando ela corre, corre tão depressa, que zomba de qualquer cavalo e cavaleiro.

“Jó, por acaso, foi você quem fez os cavalos tão fortes? Foi você quem enfeitou o pescoço deles com a crina?

É você quem os faz pular como gafanhotos e assustar as pessoas com os seus rinchos?

Impacientes, eles cavoucam o chão com as patas e correm para a batalha com todas as suas forças.

Eles não têm medo. Nada os assusta, e a espada não os faz recuar.

Por cima deles, as flechas assobiam, e as lanças e os dardos brilham.

Tremendo de impaciência, eles saem galopando e, quando a corneta soa, não podem parar quietos.

Eles respondem com rinchos aos toques das cornetas; de longe sentem o cheiro da batalha e ouvem a gritaria e as ordens de comando.

“É você quem ensina o gavião a voar e abrir as asas no seu vôo para o Sul?

Será que a águia espera que você dê ordem a fim de que ela faça o seu ninho lá no alto?

Ela mora nas pedras mais altas e no alto das rochas constrói o seu ninho seguro.

Dali enxerga o animal que ela vai atacar, os seus olhos o avistam de longe.

Onde há um animal morto, aí se ajuntam as águias, e os filhotes chupam o sangue.”

 

Jó 40

Então o SENHOR disse:

“Jó, você desafiou a mim, o Deus Todo-Poderoso. Vai desistir ou vai me dar uma resposta?”

Então, em resposta ao SENHOR, Jó disse:

“Eu não valho nada; que posso responder? Prefiro ficar calado.

Já falei mais do que devia e agora não tenho nada para dizer.”

Então, do meio da tempestade, Deus respondeu a Jó assim:

“Mostre agora que é valente e responda às perguntas que lhe vou fazer.

Será que você está querendo provar que sou injusto, que eu sou culpado, e você é inocente?

Será que a sua força pode ser comparada com a minha? Será que você pode trovejar com voz tão forte como eu?

Se você pode, então vista-se de glória e grandeza e enfeite-se com majestade e esplendor.

Olhe para todos os orgulhosos; faça explodir a sua raiva contra eles e humilhe-os.

Sim, olhe para eles e humilhe-os; esmague os perversos no lugar onde estão.

Sepulte-os todos na terra; amarre-os na prisão dos mortos.

Se você fizer isso, eu serei o primeiro a louvá-lo e a reconhecer que você venceu pelas suas próprias forças.

“Olhe para o monstro Beemote, que eu criei, como também criei você. Ele come capim como o boi,

mas veja quanta força tem e como são poderosos os seus músculos!

O seu rabo levantado é duro como um galho de cedro, e nos músculos das suas pernas ele tem muita força.

Os seus ossos são fortes como canos de bronze, e as suas pernas são como barras de ferro.

Ele é a mais espantosa das minhas criaturas. Só eu, o seu Criador, sou capaz de vencê-lo.

O capim que o alimenta cresce nas montanhas, onde as feras se divertem.

Ele se deita debaixo dos espinheiros e se esconde no brejo, entre as taboas.

Os espinheiros lhe dão sombra; os salgueiros do ribeirão o rodeiam.

Se há uma enchente, ele não se assusta; e fica tranqüilo mesmo que a água do rio Jordão suba até o seu focinho.

Quem é capaz de cegá-lo e agarrá-lo ou de prender o seu focinho numa armadilha?

 

Jó 41

“E, quanto ao monstro Leviatã, será que você pode pescá-lo com um anzol ou amarrar a sua língua com uma corda?

Você é capaz de passar uma corda pelo nariz dele ou furar o seu queixo com um gancho?

Será que ele vai pedir que você o solte ou implorar que tenha dó dele?

Será que ele vai fazer um trato com você, prometendo trabalhar para você o resto da vida?

Será que você vai brincar com ele, como se fosse um passarinho? Você vai amarrá-lo, a fim de servir como um brinquedo para as suas empregadas?

Será ele vendido por um grupo de pescadores? Será que para isso o cortarão em pedaços?

Será que você pode enterrar lanças no seu couro ou fincar arpões de pesca na sua cabeça?

Tente encostar a mão nele, e será uma vez só, pois você nunca mais esquecerá a luta.

Só de olhar para o monstro Leviatã as pessoas perdem toda a coragem e desmaiam de medo.

Se alguém o provoca, ele fica furioso. Quem se arriscaria a desafiá-lo?

Quem pode enfrentá-lo sem sair ferido? Ninguém, no mundo inteiro.

“Agora vou falar das pernas do Leviatã, do seu tamanho e da sua força sem igual.

Quem pode arrancar o couro que o cobre ou furar a sua dupla couraça?

Quem é capaz de fazê-lo abrir a sua queixada rodeada de dentes terríveis?

As suas costas são cobertas de fileiras de escamas ligadas umas com as outras e duras como pedras.

Estão coladas tão bem umas nas outras, que nem o ar passa entre elas.

Estão ligadas entre si e bem coladas, de modo que ninguém pode separá-las.

Quando o Leviatã espirra, saem faíscas; os seus olhos brilham como o sol ao amanhecer.

A sua boca lança chamas, e dela saltam faíscas de fogo.

O seu nariz solta fumaça, como a de galhos que queimam debaixo de uma panela.

O seu sopro acende o fogo, e da sua boca saem chamas.

A sua força está no pescoço, e a cara dele mete medo em todo mundo.

No seu couro não existe ponto fraco; ele é firme e duro como ferro.

O seu coração cruel não tem medo; é duro como uma pedra de moinho.

Quando ele se levanta, até os mais fortes ficam apavorados; o medo os impede de agir.

Não há espada que consiga feri-lo, nem lança, nem flecha, nem arpão.

Para ele, o ferro é como palha, e o bronze, como pau podre.

As flechas não o fazem fugir. Jogar pedras nele é como jogar capim.

Bater nele com um porrete é o mesmo que bater com uma torcida de palha; ele zomba dos homens que lhe atiram lanças.

A sua barriga é coberta de cacos pontudos, que reviram a lama como se fossem uma grade de ferro.

Ele agita o mar e o faz ficar como água que ferve na panela, como o óleo fervendo no caldeirão.

Ele vai deixando na água um rastro luminoso, como se o mar tivesse uma cabeleira branca.

Não há nada neste mundo que se compare com ele, pois foi feito para não ter medo.

O Leviatã olha para tudo com desprezo e entre todas as feras orgulhosas ele é rei.”

 

Jó 42

Então, em resposta ao SENHOR, Jó disse:

“Eu reconheço que para ti nada é impossível e que nenhum dos teus planos pode ser impedido.

Tu me perguntaste como me atrevi a pôr em dúvida a tua sabedoria, visto que sou tão ignorante. É que falei de coisas que eu não compreendia, coisas que eram maravilhosas demais para mim e que eu não podia entender.

Tu me mandaste escutar o que estavas dizendo e responder às tuas perguntas.

Antes eu te conhecia só por ouvir falar, mas agora eu te vejo com os meus próprios olhos.

Por isso, estou envergonhado de tudo o que disse e me arrependo, sentado aqui no chão, num monte de cinzas.”

Depois que acabou de falar com Jó, o SENHOR disse a Elifaz, da região de Temã: — Estou muito irado com você e com os seus dois amigos, pois vocês não falaram a verdade a meu respeito, como o meu servo Jó falou.

Agora peguem sete touros e sete carneiros, levem a Jó e ofereçam como sacrifício em favor de vocês. O meu servo Jó orará por vocês, e eu aceitarei a sua oração e não os castigarei como merecem, embora vocês não tenham falado a verdade a meu respeito, como Jó falou.

Então Elifaz, que era da região de Temã, Bildade, que era da região de Sua, e Zofar, que era da região de Naamá, foram e fizeram o que o SENHOR havia mandado, e ele aceitou a oração de Jó.

Depois que Jó acabou de orar pelos seus três amigos, o SENHOR fez com que ele ficasse rico de novo e lhe deu em dobro tudo o que tinha tido antes.

Todos os seus irmãos e irmãs e todos os seus amigos foram visitá-lo e tomaram parte num banquete na casa dele. Falaram de como estavam tristes pelo que lhe havia acontecido e o consolaram por todas as desgraças que o SENHOR havia feito cair sobre ele. E cada um lhe deu dinheiro e um anel de ouro.

O SENHOR abençoou a última parte da vida de Jó mais do que a primeira. Ele chegou a ter catorze mil ovelhas, seis mil camelos, dois mil bois e mil jumentas.

Também foi pai de sete filhos e três filhas.

À primeira deu o nome de Jemima; à segunda chamou de Cássia; e à terceira, de Querém-Hapuque.

No mundo inteiro não havia mulheres tão lindas como as filhas de Jó. E o pai as fez herdeiras dos seus bens, junto com os seus irmãos.

Depois disso, Jó ainda viveu cento e quarenta anos, o bastante para ver netos e bisnetos.

E morreu bem velho.

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