1628

Comênio é expulso de sua terra natal

Os católicos afirmavam sua autoridade sobre a Boêmia de maneira agressiva. Os protestantes já haviam sido banidos, muito embora tivessem tentado se esconder por alguns anos. A medida que o perigo crescia, em 1628, um grupo atravessou as montanhas rumo à Polônia.

O líder desse grupo, João Amos Comênio, era o pastor, escritor e professor. Ele parou para olhar para sua terra amada e conduziu seus colegas em uma oração, pedindo a Deus que preservasse uma “semente oculta” em seu povo, uma que pudesse crescer e dar frutos mais tarde. Comênio jamais veria sua terra natal outra vez.

A Guerra dos Trinta Anos estendeu-se por boa parte da vida de Comênio. Em 1618, quando ela começou, Comênio era simplesmente um pastor recém-ordenado, atuando como diretor de uma escola na Unitas Fratrum, a União dos Irmãos, os herdeiros protestantes dos ensinamentos de João Hus.

A Europa se tornara uma colcha de retalhos de católicos, luteranos e calvinistas. A Boêmia, território fortemente protestante, era uma parte infeliz e rebelde do Sacro Império Romano. Em 23 de maio de 1618, alguns rebeldes protestantes invadiram o palácio real de Praga e atiraram seus governadores pela janela. De acordo com os relatos, os homens caíram em uma pilha de estéreo e não morreram. Com a Defenestração de Praga, porém, a revolução estava a caminho.

Com a ajuda de forças espanholas, o imperador Fernando π desbaratou os rebeldes na Batalha do Monte Branco, em 1620, e o território foi declarado oficialmente católico. Os protestantes tiveram de sair. Comênio deu início a um período de sete anos de fuga. Movendo-se de maneira furtiva, de fazenda em fazenda, tentou ministrar aos Irmãos que permaneceram. Cinco anos antes do nascimento de John Bunyan, Comênio escreve O labirinto do mundo, uma intrincada alegoria em muito semelhante à obra O peregrino.

Comênio e o grupo dos Irmãos se dirigiram para Leszno, na Polônia. Ali, foi nomeado bispo da Unitas Fratrum e publicou livros para educação de crianças e para o ensino de idiomas. Suas teorias eram revolucionárias. Todas as crianças — meninos e meninas, ricos e pobres — deveriam ser ensinadas por um currículo amplo que lhes daria acesso a diversos campos. A educação deveria começar com o cuidado maternal, até mesmo antes do nascimento, dizia ele, e deveria envolver aspectos lúdicos e não apenas repetitivos no aprendizado. Defendia blocos de seis anos, comparáveis à pré-escola, ensino fundamental, ensino médio e superior. Acima de tudo, os professores deveriam desenvolver métodos de ensino fundamentando-se na natureza. Aprender era uma questão de crescimento, não simplesmente de aquisição de informação.

A Guerra dos Trinta Anos prosseguia. Os protestantes dinamarqueses invadiram o território católico, mas foram expulsos novamente. O rei sueco Gustavo Adolfo entrou no conflito, do lado protestante. Ele teve alguns sucessos, mas morreu em 1632.

Enquanto isso, Comênio continuava a construir sua reputação de estudioso e de educador. Ele escreveu O caminho da luz, na esperança de que a educação adequada pudesse promover a paz. Em 1641, o parlamento britânico o convidou a colocar suas teorias em prática, criando uma universidade inglesa que seguia os preceitos da “pansofia”. Mais uma vez, uma guerra civil irrompeu, forçando Comênio a fugir novamente. Ele se estabeleceu na Prússia durante certo tempo. Viajava com freqüência da Prússia para a Suécia como consultor educacional do primeiro-ministro, Axel Oxenstierna. Ele também pediu ao primeiro-ministro que se lembrasse da causa dos Irmãos à medida que a guerra se aproximava.

Curiosamente, a França mudou sua tendência durante a guerra. Embora fosse uma nação católica, a França viu uma oportunidade de acabar com o poder da dinastia de Habsburgo e de anexar alguns territórios para si. As forças francesas entraram na batalha em 1635, e a guerra prosseguiu. Em 1648, a Paz de Westfália dividiu os despojos de uma guerra que havia exaurido a Europa. O Sacro Império Romano estava destruído, e algumas pessoas estimam que a Alemanha perdeu metade de sua população na guerra. A França conquistou mais terras. Os calvinistas e os luteranos ganharam, mas só os calvinistas passaram a ser tolerados.

Os Irmãos, porém, não receberam o direito de voltar à Boêmia nem ganharam uma nova terra. Comênio continuou a perambular pelo resto de sua vida. Viajou por 22 anos, ministrando às comunidades dos irmãos espalhadas em uma grande área. Quando sua casa na Polônia foi invadida e queimada, Comênio perdeu a maior parte da enciclopédia que estava compilando. Contudo, graças a um patrocinador holandês, publicou muito mais livros sobre educação, incluindo o primeiro livro-texto ilustrado para crianças, chamado O mundo em gravuras.

Comênio foi respeitado e honrado, mas raramente lhe devam ouvidos. Aos 75 anos, participou de um concilio internacional para implorar pela paz entre a Inglaterra e a Holanda, mas seu conselho foi totalmente ignorado. Ele tinha visão para a área de educação que poderia trazer tanto a plenitude espiritual quanto a paz mundial, mas, embora o primeiro objetivo atraísse algumas nações, nenhuma estava disposta a tentar o segundo.

Embora ele possa ser corretamente considerado um dos principais fundadores do ecumenismo, Comênio foi muitas vezes ignorado. O mundo secular o valorizou muito mais do que a igreja, e ele é, com freqüência, considerado o pai da educação moderna.

A “semente oculta” pela qual Comênio orou pode ter surgido muito tempo depois. Um grupo de irmãos emigrou para Herrnhut, na Alemanha, no início do século xvm. Ali aconteceu um despertamento espiritual que deu início aos grandes movimentos missionários que se espalharam por todo o mundo.

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