Até o último quarto do século XVI não havia versão alguma
completa e impressa das Escrituras em português. A zelosa rainha D.
Leonor, mulher de D. João II, tentou vulgarizar as Escrituras. Ela mandou
traduzir e imprimir, em 1495, a expensas suas, a Vida de Cristo, que foi
originalmente escrita na língua latina pelo Dr. Ludolfo, de Saxônia, e que
continha muitas citações da Bíblia. Dez anos depois ela mandou publicar
na língua lusitana os Atos dos Apóstolos e as epístolas universais de
Tiago, Pedro, João e Judas. Esta nobre senhora faleceu em 1525, e por
uma reação do clero essas obras desapareceram das bibliotecas. Uma
segunda edição da Vida de Cristo foi publicada em 1554; porém esta teve
a mesma sorte.
Nesta época, organizaram-se diversas companhias comerciais para
o desenvolvimento das várias colônias dos países europeus. Entre estas, a
Companhia Holandesa das índias Orientais, que se organizou em 1602,
cuja carta patente exigiu que cuidasse em plantar a Igreja entre os povos e
procurasse a sua conversão nas possessões tomadas aos portugueses nas
índias Orientais. Foi esta companhia que mais tarde patrocinou a revisão do
Novo Testamento de João Ferreira de Almeida, em 1693.
João Ferreira de Almeida nasceu em 1628 no local chamado Torre
de Tavares, Portugal. Em 1642, encontrando-se na Indonésia, aceitou a fé
da Igreja Reformada Holandesa pela profunda impressão que causou em
seu espírito a leitura dum folheto espanhol. Desde o princípio da sua
conversão, mostrou a sua aptidão para o estudo eclesiástico. Ignoram-se as
circunstâncias que o fizeram transportar-se à Batávia, onde se tornou
muito ativo e zeloso no trabalho da evangelização, pregando nas línguas
portuguesa, espanhola, francesa e holandesa. Durante a sua longa vida
pastoral escreveu e publicou várias obras de caráter religioso, entre as quais
sobressai a versão portuguesa da Bíblia. «Deixou completa a coleção de
todos os livros do Novo Testamento, não logrando, porém, concluir a
tradução do Velho Testamento, que só chegou até o livro de Ezequiel,
capítulo 48, versículo 21.» Ele foi casado, e teve uma filha e ainda um filho
chamado Mateus. Faleceu em Batávia no segundo semestre do ano de 1691.
Aos 16 anos Almeida iniciou sua obra de tradução do Novo
Testamento, usando as versões italiana, francesa, espanhola e latina. Este
trabalho perdeu-se. A tradução definitiva que foi publicada em 1681 foi feita
diretamente do grego. Seguindo a versão holandesa como modelo, acrescentou
os textos paralelos da Escritura na margem, e, no princípio de cada
capítulo, pôs o sumário ou os artigos de que nele tratava.
Em 1681, começou a publicação da Bíblia de Almeida pelo Novo
Testamento. A primeira edição foi feita em Amsterdam, por ordem da
Companhia Holandesa das índias Orientais, para circular entre as igrejas
evangélicas portuguesas, que esta companhia estabelecera nas suas feitorias
asiáticas. Eis o título: «Novo Testamento, isto é, todos os sacrossantos livros
e escritos evangélicos e apostólicos do Novo Concerto de nosso fiel Senhor,
Salvador e Redentor Jesus Cristo, agora traduzidos em português pelo Padre
(*)
3 João Ferreira de Almeida, pregador do Santo Evangelho. Com todas
as licenças necessárias. Em Amsterdam, pela viúva J. V. Someren. Ano
1681.»
No reverso do frontispício vem esta declaração: «Este SS. Novo
Testamento é imprimido por mandado e ordem da ilustre Companhia da
índia Oriental das Unidas Províncias, e com o conhecimento da Reverenda
Classe da cidade de Amsterdam, revisto pelos ministros pregadores do
Santo Evangelho, Bartolomeus Heynen, Johannes de Vaught.» O trabalho
tipográfico continha muitos erros e o próprio autor revoltou-se contra a
incapacidade dos revisores.

Esta edição sofreu uma revisão completa feita por Almeida e dois
pastores holandeses, terminada em 1691. Dois anos depois do falecimento
de Almeida, isto é, em 1693, esta edição veio a lume em Batávia às
expensas da Companhia Holandesa das Índias Orientais. Eis aqui a cópia
do seu título:
«O Novo Testamento — isto é, todos os livros do Novo Concerto
do nosso fiel Senhor e Redentor Jesus Cristo — traduzido na língua
portuguesa pelo reverendo Padre João Ferreira de Almeida, ministro
pregador do Santo Evangelho nesta cidade de Batávia, em Java Maior. Em
Batávia. Por João de Vries, impressor da ilustre Companhia, e desta nobre
cidade. Ano 1693.»
No reverso do frontispício lê-se o seguinte: «Esta segunda
impressão do SS. Novo Testamento, emendada, e, na margem, aumentada
com os concordantes passos da Escritura Sagrada, à lua saiu por mandado
e ordem do supremo governo da ilustre Companhia das índias das unidas
Províncias na índia Oriental e foi revista com aprovação da reverenda
Congregação Eclesiástica da cidade de Batávia, pelos ministros pregadores
do Santo Evangelho na Igreja da mesma cidade, Theodorus Zas, Jacobus
op den Akker.»
Estes revisores, sendo estrangeiros e incompetentes para rever a
língua portuguesa, conseqüentemente fizeram consideráveis alterações, até
mesmo desfigurando e corrompendo a beleza do original.
O Saltério de Almeida foi publicado no Livro da Oração Comum
para o uso das congregações da Igreja Anglicana nas índias Orientais, em
1695.
Nesta época, o rei da Dinamarca, Frederico IV, interessou-se em
desenvolver no Oriente o conhecimento das Escrituras Sagradas, e pelo
seu patrocínio foi estabelecido o trabalho em Tranquebar, aonde foram
muitos missionários célebres. Para este trabalho foi publicada, em
Amsterdam, uma 3
a edição do Novo Testamento de Almeida, às expensas
da Sociedade Propaganda do Conhecimento Cristão, em 1712. Os
revisores são desconhecidos. Nesta edição desapareceram os sumários dos
capítulos.
Esta sociedade de Londres, reconhecendo a inconveniência e a
despesa de fazer imprimir a Palavra de Deus na Europa para o uso da
propaganda na Ásia, resolveu estabelecer uma oficina tipográfica em
Tranquebar, encarregando-se os missionários dinamarqueses da direção da
mesma. Deus estava, certamente, cuidando da impressão da Bíblia
portuguesa, porque no transporte do material houve uma evidência da sua
intervenção. «O material da tipografia foi embarcado em um navio da
Companhia Holandesa, para ser transportado ao seu destino. A saída do
Rio de Janeiro, onde arribara, foi este navio apresado pela esquadra
francesa, que se apoderou de todo o carregamento, voltando o navio ao
poder da companhia armadora a troco de avultado resgate. Por
circunstâncias absolutamente inexplicáveis e que muitos têm por
miraculosas, os volumes que continham o material tipográfico foram
encontrados intactos no fundo do porão, e no mesmo navio continuaram a
viagem para Tranquebar.»
Com a chegada do material, alguns dos missionários se ocuparam
na tradução da Bíblia e publicaram, periodicamente diversas partes das
Escrituras.
Pela intervenção amigável de Theodoro van Cloon, um oficial
holandês em Batávia, receberam eles os originais (Gên-Ez. 48:21) de
Almeida em 1731. Quando o Sr. Cloon foi nomeado governador de
Negapatão, interessou-se na obra da tradução pelos missionários
dinamarqueses e prometeu mandar-lhes a versão de Almeida logo que
chegasse à Batávia para ocupar o seu novo cargo, o que efetivamente fez
no ano seguinte. Com os manuscritos, ele mandou a quantia de oitocentos
escudos para ajudar nas despesas da impressão.
Ao ouvir que existiam os manuscritos de Almeida, apressaram-se
em traduzir os profetas menores para que pudessem publicar a Bíblia
completa; porém, ao receber os originais, repararam que a revisão do
mesmo seria muito demorada, razão porque publicaram os Profetas
Menores só em 1732. Saiu esta obra em Tranquebar, com este título: «Os
doze profetas menores, convém saber: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas,
Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. Com
toda diligência traduzidos na língua portuguesa pelos padres missionários
de Tranquebar, na oficina da Real Missão de Dinamarca. Ano de 1732.»
Foram publicados os demais livros do Velho Testamento na
seguinte ordem: Os livros históricos — Josué a Ester — em 1738, revistos
de acordo com o texto original pelos missionários holandeses de
Tranquebar. Em 1740, saíram os Salmos, revistos e conferidos com os
livros históricos de 1738. Quatro anos depois, foram publicados os livros
dogmáticos — Jó a Cantares de Salomão. Em 1751, saíram os quatro
profetas maiores — Isaías a Daniel. Os três primeiros, por Almeida, e o
quarto, por Cristóvão Theodósio Walther.
Simultaneamente, em Batávia estava sendo publicado o Velho
Testamento, traduzido por Almeida, até o final de Ezequiel, e por Jacobus
op den Akker, que fez a tradução dos Profetas Menores. 0 primeiro tomo
saiu do prelo em 1748 e o segundo em 1753. Assim a Bíblia em português
estava completa. Estes dois volumes têm todas as páginas numeradas e,
depois da do título, vem uma folha, dizendo: «Esta primeira impressão do
Velho Testamento sai à luz às custas da ilustre Companhia Holandesa da
Índia Oriental, por mandado do Ilmo. Sr. Gustavo Guilherme, Barão
d’Imhoff, Governador-Geral, e dos Nobilíssimos Srs. Conselheiros da
Índia…»
Deste trabalho escreve o Dr. Teófilo Braga: «É esta tradução o
maior e mais importante documento para se estudar o estado da língua
portuguesa no século XVII: o Padre João Ferreira de Almeida, pregador do
evangelho em Batávia, pela sua longa residência no estrangeiro, escapou
incólume à retórica dos seiscentistas; a sua origem popular e a sua
comunicação com o povo levaram-no a empregar formas vulgares, que
nenhum escritor cultista do seu tempo ousaria escrever. Muitas vezes o
esquecimento das palavras usuais portuguesas leva-o a recordar-se de
termos equivalentes, e é esta uma das causas da riqueza do seu
vocabulário. Além disto, a tradução completa da Bíblia presta-se a um
severo estudo comparativo com as traduções do século XIV e com a
tradução do Padre Figueiredo do século XVIII. É um magnífico
monumento literário.» (*)
4
Para o fim do século XVIII, e o princípio do XIX, a coroa britânica
incorporou Tranquebar aos seus domínios, e o idioma português foi
gradualmente abandonado como a língua comercial, e conseqüentemente
banido do uso das igrejas reformadas. Porém a divina providência estava
preparando outro meio para a evangelização das terras do velho Portugal e
a conservação da Bíblia portuguesa. Portugal, até então mergulhado nas
densas trevas da superstição romana, experimentou uma renascença. Isto
veio por uma série de acontecimentos. Pela opressão política, umas
pessoas refugiaram-se em Plymouth e em outras cidades da Inglaterra, o
território nacional foi ocupado por tropas inglesas e o exército lusitano
organizado segundo o gênio disciplinador “inglês, as relações comerciais e
políticas foram estreitadas com a Grã-Bretanha, e propagou-se
rapidamente por todo o reino o sentimento de tolerância religiosa. Isso,
com as facilidades de comunicação com as ilhas e colônias portuguesas,
induziu a Sociedade Bíblica Britânica a publicar uma edição do Novo
Testamento em português da versão de João Ferreira de Almeida em 1809.
Desde então esta sociedade tem publicado muitas edições, e, sob a mão de
Deus, tem sido usada maravilhosamente para a disseminação da Bíblia em
português.
Em 1819 a Bíblia completa de João Ferreira de Almeida foi
publicada em um só volume pela primeira vez, com este título: «A Bíblia
Sagrada, contendo o Novo e o Velho Testamentos, traduzida em português
pelo Padre João Ferreira de Almeida, ministro pregador do Santo
Evangelho em Batávia — Londres, na oficina de R. e A. Taylor, 1819 —
8
o gr. de IV — 884 pp., a que se segue, com rosto e numeração o Novo
Testamento, contendo IV — 279 páginas.» Desde essa data tem sofrido
várias revisões. A primeira, em 1840, foi chamada de Revista e Emendada.
Em 1847 foi novamente revisada, e chamada de Revista e Reformada. A
revisão de 1875 foi chamada de Revista e Conecta. Depois, sofreu a
correção de vários «erros óbvios» e algumas modificações ortográficas e

recebeu o nome de Revista e Corrida, que é essencialmente a Bíblia de uso
popular ainda. Esta última revisão data de 1898.
A Bíblia por João Ferreira de Almeida que atualmente temos, não é
realmente dele, por causa das diversas correções e versões por que tem
passado; entretanto, o texto original era dele e as modificações foram feitas
devido às exigências da língua, e à luz dos textos originais, e, sendo o
primeiro a dar ao protestantismo português as sagradas letras, é digno de
ser reconhecido como o autor da Bíblia que tem o seu nome.

Fonte: A Bíblia E Como Chegou Até Nós

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