Existem muitas divergências entre os comentaristas
quanto ao local exato do Tribunal de Cristo. Alguns têm
sugerido que será aqui mesmo na terra. O homem pecou
aqui (dizem eles); aqui foi salvo; aqui trabalhou – então
aqui deve ser avaliado o seu trabalho (cf. Mt 25.19 e ss).
Outros, porém, asseguram que esse julgamento deve ter lugar
no Céu e confrontam o Tribunal de Cristo com o julgamento
do grande Trono Branco; apenas o dividem por etapas:
1? o Tribunal; 29 o Juízo das Nações e 3? o Grande Trono
Branco (cf. Mt 25.32 e ss; 2 Co 5.10; Ap 20.11 e ss). Porém,
é evidente que essa forma de interpretação deve ser
rejeitada de todo. Visto que esses três julgamentos obedecem
a uma ordem cronológica bem clara: o Tribunal de
Cristo se dará por ocasião do arrebatamento; o juízo das
nações vivas, por ocasião do retorno de Cristo na sua Parousia
(sete anos depois do arrebatamento); e o juízo final,
mil anos depois. Um outro grupo diz que terá lugar nos
ares, mas não especifica o lugar (cf. 1 Ts 4.17; Ap 22.12).
As passagens de Mateus 9.15 e Apocalipse 22.12 nos
levam a entender que o Tribunal não será “ dentro do
Céu” . Razão por que, na primeira citação Jesus declara
que os filhos das bodas (que se dará no Céu: Ap 19.7) não
podem andar tristes e, em 1 Coríntios 3.15, lemos que
diante do Tribunal isso pode acontecer; na segunda, Jesus
declara: “ E eis que cedo venho, e o meu galardão está comigo
(no original virá comigo), para dar a cada um – no
tribunal – segundo a sua obra” .
Ora, se essa recompensa fosse feita no Céu, não seria
necessário Jesus trazer consigo este galardão. Na antiguidade,
os juizes e anciãos de uma nação costumavam julgar
seus súditos e suas causas na “ porta da cidade” (Gn
19.1,9; 1 Sm 4.13,18; 2 Sm 15.2). Boaz, chamando o remidor,
e mais dez testemunhas da cidade de Belém, julgaram
a causa de Rute a moabita na “ porta da cidade” de Belém
(Rt 4,1,2). E ali, diante desse tribunal, ela recebeu “ …0 galardão
do Senhor Deus de Israel” (Rt 2.12).
Muitas coisas nas Escrituras foram escritas “ …para
nosso ensino” (Rm 15.4), pois algumas delas são
“ …sombras das coisas celestiais” (Hb 8.5), e outras são
“ …figuras das coisas que estão no céu” (Hb 9.23). Se o nosso
pensamento é acertado nesta interpretação, é evidente,
embora pouco provável que o Tribunal de Cristo terá lugar
ainda nos ares, especialmente na “ porta formosa do
Céu” (cf. Ct 2.4; 1 Ts 4.17 etc).
a. Diante do Tribunal de Cristo, serão reprovadas as
obras e não o obreiro (1 Co 3.13 e ss), pois todo o seu trabalho
que tiver feito “ por meio do corpo” será ali avaliado perante
a justiça divina.
Porém,’ se fará necessário que a caridade de Deus esteja
ali! A justiça exige que o “ bem” seja recompensado e o
“mal” punido.(19) Ora, isto não pode realizar-se senão pela
sanção (sanção aqui não é condenação) da vida futura; somente
esta pode ser rigorosamente justa, uma vez que depende
de Deus, que “ sonda os rins e os corações” . Realmente
eficaz, porque ninguém pode escapar-lhe. Nenhum
subterfúgio daquele que é culpado (culpado aqui é descuidado).
É necessário uma recompensa baseada na justiça e caridade
de Deus. Esta prova se baseia na justiça de Deus,
que exige que a virtude e 0 vício (aqui já neste mundo) recebam
as sanções que lhes são devidas: recompensa ou punição.
Aqui no mundo, as sanções da virtude e do vício são
evidentenjente insuficientes; muitas vezes mesmo, é 0
vício que triunfa, e a virtude que fica humilhada. Portanto,
é necessária uma recompensa futura através da justiça
divina que quer. que cada um seja tratado segundo suas
obras, e isso não pode ser feito a não ser com a vida futura.
Mas, se fará necessário, diante do tribunal de Cristo
que a caridade triunfe! E triunfará mesmo! A justiça deve
ser tempçrada pela caridade. É preciso distinguir cuidadosamente
a legalidade e a eqüidade (diante do Tribunal de
Cristo isso n,ão é necessário; mas apenas aqui para ser entendido
pela mente natural).
b. A prova pelo “ fogo” . No que tange a este fogo, muitas
interpretações têm surgido! Mas uma coisa é certa: a
onisciência de Deus ali deve estar presente. Todo nosso
trabalho passará “ diante dos olhos” da Trindade Divina
(cf. Êx 13.21; At 2.3; Hb 12.29; Ap 1.14; 2.18; 3.2, etc). A
passagem de Apocalipse 4.8 descreve seres viventes como
tendo a inteireza da inteligência; são cheios de “ olhos por
diante e por detrás” (4.6). Podem tanto ver para a frente
como para trás.(20)
O passado e 0 futuro estão abertos a eles como um livro.
Visão interna (olhos por dentro), visão externa (olhos
por diante) também lhes pertence. A absoluta visão circundante
corresponde a uma infinita visão interior, que
expressa a concentração contemplativa, a unidade da onisciência
divina. Vigilância! Ora, se estes seres viventes possuem
tal visão, que diremos nós diante daquele perante
quem “ …todas as coisas estão nuas e patentes aos
olhos…?” (Hb 4.13).
Ali, pois, diante da perscrutação desses olhos infinitos
que tudo contemplam (Pv 15.3), surgirão duas palavras soIenes:
“Aprovados e Reprovados” . “ Este ‘fogo’ diz Speaker,(־
(‘dura apenas ‘um dia’ ; é futuro, não presente; é destrutivo,
não purificador; destrói apenas obras, não pessoas;
causa perda e não lucro; destrói apenas o que for falso
e não o que for verdadeiro; causa apenas reprovação da
obra e não do obreiro” (1 Co 3.13-23).
c. A interpretação errônea. Alguns eruditos ensinam
que mesmo os mais fiéis precisam dum processo de purificação
antes de se tornarem aptos para entrar na imediata
presença de Deus. Também alguns (não são todos) teólogos
protestantes que crêem na doutrina de “ uma vez salvo,
salvo para sempre” , embora reconhecendo a palavra
divina que diz: “ Segui a paz com todos, e a santificação,
sem a qual ninguém verá o Senhor” , concluem que o Tribunal
de Cristo seja uma espécie de “ purgatório” onde os
crentes carnais imperfeitos se purifiquem da escória. Esse
processo, segundo essa maneira de interpretar 0 Tribunal,
dar-se-á ali. Todavia, não existem nas Escrituras evidências
para tal doutrina, e existem muitas evidências contrá-
rias a ela.(22)

 

fonte: Ecatologia Severino Pedro da Silva

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