1854

Hudson Taylor chega à China

Ninguém sabia que ele estava chegando. Hudson Taylor saiu do barco em Xangai, depois de uma viagem tediosa que se iniciara na Inglaterra, e não havia ninguém para lhe dar as boas-vindas. Sua carreira missionária brilhante apenas começava, mas ele não tinha um lugar para ficar. Não sabia Falar chinês, e apenas alguns chineses conseguiam falar inglês. Para agra-var ainda mais as coisas, havia uma guerra civil em andamento, acontecendo bem nos arredores da cidade.

Taylor perguntou no consulado britânico sobre alguns missionários ocidentais que ele conhecia. Um deles havia morrido, e o outro voltara para casa. Finalmente localizou o dr. Walter Medhurst, da Sociedade Missionária de Londres, e combinou ficar com ele.

Isso nem de longe era o que Taylor sonhav a. Criado em um lar metodista, ouvira histórias sobre a China contadas por seu pai, que era pregador. Ele escutou histórias sobre Robert Morrison, o presbiteriano escocês que iniciou seu ministério em Guangzhou em 1807, que, enquanto trabalhava como tradutor para mercadores, pregava Jesus Cristo. Quando o jovem Hudson, aos dezessete anos, tornou-se cristão, ele quase que imediatamente sentiu seu chamado. Estudou medicina e teologia, assim como procurou conhecer tudo sobre a grande terra da China.

Quando estourou a Rebelião de Taiping em 1850, no primeiro momento aquilo soou como uma boa notícia para os missionários. O líder dos rebeldes fora influenciado por folhetos cristãos. Queria livrar a China da idolatria e da corrupção. Ele até mesmo batizou o movimento com o nome de “Taiping”, que quer dizer “grande paz”. (Ele também estava convencido de que era o irmão mais novo de Jesus Cristo, mas essas excentricidades não ficaram aparentes logo de início.)

Toda a Inglaterra deu atenção à China. Uma nova junta de missões, a Sociedade para a Evangelização da China, publicou um chamado para trabalhadores. Taylor, que fora dissuadido pela Sociedade Missionária de Londres, ofereceu seus serviços. Ele foi direto da escola para o campo missionário. Tinha 22 anos quando chegou a Xangai.

O zelo se sobrepôs à sabedoria, pelo menos no que se referia à junta de missões. Ε certo que eles colocaram seu homem no campo, mas não lhe deram orientação, pois não tinham uma filosofia missionária, assim como fizeram pouca coisa para preparar o caminho dele até lá. Eles, rotineiramente, também ficavam sem fundos.

Taylor precisou estabelecer suas próprias regras. Uma dessas questões tinha relacionava-se com o fato de se vestir como os chineses. Seus colegas da Inglaterra ficaram assustados, mas Taylor tinha suas razões. “Estou plenamente seguro de que as vestimentas nativas são um pré-requisito absoluto”, escreveu ele.

“Estabelecer-se discretamente junto às pessoas, desenvolver comunicação livre, familiar e irrestrita com eles, conciliar os preconceitos, atrair sua estima e confiança e, assim, viver de maneira a ser um exemplo para eles de como um cristão chinês deve se comportar, exigia não apenas a adaptação a esse costume, mas também a aceitação dos hábitos deles […] a aparência estrangeira das capelas e até mesmo o próprio ar estrangeiro de tudo o que estava ligado à religião atrapalhou muito a rápida disseminação da verdade entre os chineses. Mas por que era necessário dar esse aspecto estrangeiro ao cristianismo? A Palavra de Deus não exige isso […] nós procuramos a cristianização deles e não a perda da identidade nacional desse povo.”

Os missionários chegaram àquele país fechado no rastro dos mercadores e dos soldados. Desde que Morrison começou a trabalhar como tradutor para a Companhia das índias Orientais, a relação entre essas pessoas tornou-se evidente. Quando a Grã-Bretanha promoveu as vergonhosas Guerras do Ópio — na verdade, uma luta pela manutenção do direito de trocar ópio por seda chinesa —, os tratados unilaterais incluíram, até mesmo, suprimentos especiais para os missionários. A mensagem foi bastante clara: a civilização antiga da China era humilhada pela moderna máquina de guerra da Europa — e os europeus trouxeram consigo o cristianismo. A China estava sendo transformada em outra colônia do Império Britânico, um usurpador “cristão”.

Taylor teve de lutar com essa história. De certa forma, esses tratados facilitaram o surgimento de missionários. Porém, também dificultaram uma relação de maneira mais séria com o povo. Taylor esperava que pudesse romper com a mentalidade colonial ao adotar os costumes locais.

Nos primeiros seis anos de trabalho, Taylor trabalhou em Xangai, Swatow e Ningpo, aprendeu o idioma, traduziu as Escrituras e até dirigiu um hospital. Durante esse tempo, ele se demitiu da sociedade missionária e continuou de maneira independente.

Voltou à Inglaterra em 1860 e começou a despertar o entusiasmo pelas missões na China. Escreveu um livro sobre as necessidades daquele local e buscou ativamente novos missionários. Ele fundou a Missão para o Interior da China (MIC) e estava determinado a não cometer os mesmos erros das juntas de missões anteriores. A MIC não faria pedidos específicos de contribuições, não garantiria um salário para seus obreiros, mas compartilharia todas suas entradas de maneira equitativa entre os obreiros. A missão indicaria pessoas de denominações diferentes e de nações distintas, assim como permitiria até mesmo que mulheres solteiras ou casadas pudessem ser apontadas como missionárias. Para aquela época, isso era radical. Ele também insistiu em que os missionários da MIC seguissem o seu costume: vestir-se como os chineses.

Em 1866, dezesseis novos missionários voltaram para a China com ele. Iniciaram o trabalho em novas áreas, pregavam o Evangelho aos que nunca puderam ouvi-lo antes. Em pouco tempo, a MIC era a principal missão na China. Na época da morte de Taylor, em 1905, havia 205 campos missionários, 849 missionários e uma estimativa de 125 mil cristãos chineses.

Hudson Taylor não foi o primeiro missionário na China, mas sua firme recusa de fazer missões “da maneira habitual” levou-o a obter grande sucesso naquele subcontinente.

Um incidente tipifica a integridade e a visão que Taylor introduziu em sua sociedade missionária. A MIC, como outras organizações missionárias, perdeu pessoas e propriedades na Revolta dos Boxers em 1900. O exército britânico entrou no país mais uma vez, controlou a crise e impôs grandes multas ao governo chinês. Esse dinheiro serviria para cobrir os prejuízos das missões. A MIC, no entanto, recusou-se a aceitar qualquer pagamento, pois os chineses já haviam perdido muito.

Nos anos que se seguiram, os missionários da MIC descobriram que esse compromisso de permanecer ao lado do povo chinês fez mais para abrir o coração deles a Cristo do que qualquer tratado diplomático poderia ter feito. Hudson Taylor sempre soube essa verdade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *