1830

John Nelson Darby ajuda a dar início à comunidade dos Irmãos de Plymouth

Cinco homens se reuniram para adorar a Deus em uma casa em Fitzwilliam Square, em Dublin, em um dia de novembro de 1829. O anfitrião, Francis Hutchinson, apresentou uma ordem de culto simples e convidou-os a que se reunissem com ele regularmente, em um horário que não interferisse com suas outras atividades eclesiásticas.

Para a mente moderna, não havia nada de errado sobre aquela reunião. Contudo, naquela época, isto era bastante incomum. A igreja oficial da Inglaterra dominava toda a prática e toda a vida religiosa. Encontrar-se para comunhão e para adoração fora das paredes da igreja não era considerado comportamento adequado. Celebrar a ceia sem a presença de um clérieo era um escândalo.

John Nelson Darby estava presente naquela reunião, mas seria errado considerá-lo o fundador dos Irmãos de Plymouth. Ele foi um dos muitos líderes daqueles tempos primordiais, embora tenha se tornado um de seus mais notáveis porta-vozes.

Nas primeiras três décadas do século xix, o fervor espiritual aumentava na Irlanda. Alguns católicos converteram-se à Igreja Anglicana ou foram para as igrejas dissidentes, mas um movimento independente também havia svirgido. Grupos de cristãos começaram a se reunir — separadamente da igreja oficial — usando apenas a Bíblia como sua orientação.

O movimento dos Irmãos de Plymouth teve seu início com Anthonv

Norris Groves, um dentista cristão. Devoto, ele estava disposto a desistir de sua profissão para servir como missionário na Pérsia. Antes de atingir esse intento, ele, submisso à ordem vigente, freqüentou a Trinity College, em Dublin, durante o ano de 1826, a fim de se preparar para a ordenação. Ali, porém, teve contato com um número de cidadãos de Dublin que tinha uma mentalidade bastante independente. Esses amigos abalaram sua idéia a respeito de uma “igreja estabelecida”. Ele mesmo, porém, já estava pensando: “Por que eu preciso de todas essas aulas e provas para ser missionário?”. Por fim, decidiu que não precisava da ordenação ou de uma sociedade missionária oficial, mas simplesmente necessitava dar um passo de fé.

Groves, após conseguir levantar apoio de seus amigos em Dublin e Plymouth, rumou para Bagdá em 1829. O ato de apoiar Groves se transformou em um fator de união, à medida que os grupos se reuniam para orar por ele e para levantar fundos para seu sustento.

Enquanto isso, John Nelson Darby servia como pároco auxiliar em County Wicklow. Ele estudara Direito na Trinity College, mas logo começou a buscar sua ordenação. Também era um clérigo devoto, mas ficou desiludido pela política de portas fechadas de sua igreja. Seus superiores pareciam se importar mais com os membros da igreja do que com Cristo.

Depois de se ferir em um acidente em 1827, Darby pediu licença de sua igreja para se recuperar em Dublin. Ali, encontrou um grande número de homens que pensavam da mesma maneira que ele, alguns pertencentes ao círculo de apoio de Groves. O grupo inflamou ainda mais as idéias que se formavam na mente de Darby Em seguida, renunciou à sua posição, mas ainda não havia rompido com a igreja oficial. Ele se tornou um defensor da abertura e da união da igreja, publicava panfletos que exigiam mudança na política eclesiástica. Clamava por uma espiritualidade verdadeira entre os cristãos, assim como pregava o retorno às Escrituras. Um dos aspectos das Escrituras grandemente ignorado, dizia ele, era o da profecia. Ele ficou fascinado pelas teorias sobre o final dos tempos e implorava aos líderes cristãos que atentassem para isso. Uma série de conferências proféticas foi promovida no início da década de 1830 para analisar o assunto.

A idéia predominante na igreja oficial era pós-milenarista, ou seja, que a igreja promoveria uma era de paz, depois da qual Cristo voltaria a terra. Darby, porém, foi adepto dos ensinamentos que haviam sido propagados no século XVIIIm pelo monge chileno Manuel de Lacunza. Esse monge sugeria que haveria um retorno pré-milenar — o mundo se encaminharia para a destruição, e somente depois disso é que Cristo voltaria para estabelecer seu reino milenar. (Lacunza também propôs que Cristo apareceria primeiramente para remover os fiéis e poupá-los das piores tribulações antes de voltar plenamente para estabelecer seu Reino.) Em 1831, a atenção do movimento começou a se transferir a cidade de Plymouth, na Inglaterra. Os anos seguintes presenciaram uma espécie de consolidação dos diversos grupos. Os “Irmãos”, como ficaram conhecidos, tentavam livrar suas igrejas de todos os adornos não-bíblicos. A ceia era celebrada semanalmente; não havia ministros ordenados (todos os crentes eram ministros); pessoas de todas as denominações eram bem-vindas em nome de Cristo. Os irmãos também acreditavam no pacifismo e, naturalmente, na importância da profecia.

Em Bristol, um imigrante alemão, George Mueller, fundou um orfanato. Inspirado pelo exemplo de A. N. Groves de encaminhar-se para o campo missionário pela fé, Mueller se propôs a cuidar de seu orfanato pela fé. Ele não pedia dinheiro e confiava apenas na provisão de Deus. O ministério de Mueller transformou-se em uma obra legendária, testemunha da fé simples do florescente movimento dos Irmãos de Plymouth.

Enquanto isso, Darby continuava a viajar, a falar e a escrever. Começando pela Suíça, em 1838, ele deu início a um grande número de Igrejas dos Irmãos naquele lugar. Com uma revolução política em 1845, começou a perseguição a essas igrejas, e o próprio Darby escapou por pouco.

Nessa época, levantaram-se várias controvérsias entre os Irmãos, especialmente no que se referia aos dons espirituais, ao lava-pés, ao papel dos presbíteros e dos anciãos e à interpretação da profecia. A maior contenda aconteceu entre Darby e Β. W Newton, considerados fundadores os do movimento. Newton terminou se afastando da igreja, mas o conflito provavelmente estimulou uma discordância posterior que promoveu um grande cisma entre Darby e Mueller. O resultado de sua discordância foi uma divisão entre os Irmãos Exclusivos (que não teriam comunhão com os que não partilhassem da sã doutrina) e os Irmãos Abertos (que mantinham comunhão com eles). Naturalmente, a exclusividade do primeiro grupo levou a várias divisões subseqüentes, refletindo a triste ironia de que é difícil apegar-se à unidade da igreja e ao mesmo tempo à pureza de doutrina.

Como os Discípulos de Cristo nos EUA, os Irmãos de Plymouth contribuíram para a ênfase na simplicidade da vida eclesiástica, tão necessária na Inglaterra. A igreja conseguiu arrebanhar um grande séquito de seguidores por todo o mundo, incluindo figuras proeminentes como o estudioso Samuel Tregelles e o especialista em Novo Testamento F. F. Bruce.

Porém, o aspecto que conferiu a Darby sua grande fama foi sua escatologia. Suas idéias sobre a profecia ficaram conhecidas por “dispensacio-nalismo” e tornaram-se o tema principal das conferências proféticas do final do século xix, assim como dos movimentos fundamentalistas do início do século XX.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *