Entre 1517 e 1564, surgem na Europa movimentos de caráter religioso, político e econômico que contestam a estrutura e os dogmas da Igreja Católica, rompendo com a unidade do cristianismo e dando origem ao protestantismo. Os reformistas rejeitam a pretensão da Igreja em ser o único veículo de acesso ao mundo religioso e questionam a supremacia papal, marcando o início de uma nova perspectiva religiosa: a fé pessoal.

Os movimentos reformistas ocorrem paralelamente ao renascimento, à passagem do feudalismo para o capitalismo e ao fortalecimento das monarquias nacionais européias. São o resultado da nova visão sobre o homem dada pelo humanismo, assim como do descompasso entre a consciência crítica dos fiéis e a desmoralização com a opulência do alto clero e a formação deficiente do baixo clero. As reformas interessam às monarquias, detentoras do poder secular, que querem acabar com os privilégios da Igreja. O progresso comercial e urbano também necessita de uma nova religião afinada com o capitalismo emergente. Os camponeses oprimidos pegam em armas e revoltam-se contra o catolicismo dos senhores feudais, o que transforma a luta religiosa em luta de classes. Os movimentos também provocam guerras religiosas entre protestantes e católicos, como a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). O seu avanço pela Europa obriga a Igreja Católica a adotar reformas internas, conhecidas por Contra-Reforma.

 

 

 

 

REFORMA LUTERANA

 

Em 1517 começa na Alemanha a reforma do monge Martinho Lutero  (1483-1546), que defende a fé como forma de salvação do indivíduo. Lutero é excomungado em 1520. Com o apoio da nobreza, as idéias de Lutero difundem-se rapidamente. Elas substituem o poder eclesiástico pelo poder do Estado, simplificam a liturgia, revogam o celibato clerical e acabam com o culto às imagens.

Reforma anglicana – É promulgada em 1534 pelo rei Henrique VIII (1491-1547) da Inglaterra. O pretexto é a recusa do Papa ao pedido de anulação de seu casamento com Catarina de Aragão, para que possa desposar Ana Bolena (1057?-1536). Na verdade, há o interesse da monarquia inglesa em submeter a Igreja e tornar o rei a autoridade suprema. A reforma anglicana consolida-se em 1558, sob o reinado de Elizabeth I (1533-1603).

REFORMA CALVINISTA

 

Começa em 1534, na França, com as pregações de João Calvino (1509-1564). Mais radical que Lutero, Calvino defende que o homem nasce predestinado à salvação ou à condenação, podendo salvar-se santificando a própria vida. Considera-o livre das proibições não-explicitadas nas Escrituras e estimula a busca do conforto por meio do trabalho e da vida regrada.

MARTINHO LUTERO

 

Teólogo  alemão (1483-1546). Iniciador da Reforma e fundador da Igreja Luterana. A partir de 1501, estuda Artes, Lógica, Retórica, Física e Direito na Universidade de Erfurt. Torna-se mestre em Filosofia em 1505 e ingressa na Ordem dos Agostinianos. Em 1512, doutora-se em Teologia. Cinco anos depois, passa a criticar a venda de indulgências pela Igreja Católica e a defender a tese de que o homem só se salva pela fé. É acusado de herege. Fixa na porta da igreja do Castelo de Wittenberg as 95 teses que iniciam a Reforma. Não reconhece a autoridade papal, nega o culto aos santos, abole a confissão obrigatória e o celibato clerical e só aceita os sacramentos do batismo e da eucaristia. Convidado pelo Papa Leão X a se retratar, recusa-se e queima em praça pública a bula pontifical. Excomungado em 1520, publica Manifesto à Nobreza Alemã, Do Cativeiro Babilônico da Igreja e Da Liberdade do Cristão, os grandes escritos reformistas. Em 1521, é banido pelo imperador Carlos V da Alemanha. Apoiado por setores da nobreza, traduz o Novo Testamento para o alemão. Abandona a ordem agostiniana em 1524 e, no ano seguinte, casa-se com uma ex-freira.

JOÃO CALVINO

 

Religioso francês (1509-1564). É um dos principais teóricos da Reforma Protestante do século XVI, ao lado do alemão Martinho Lutero. Nascido em Noyon, filho de um secretário do bispado da cidade. Em 1523, ingressa na Universidade de Paris, onde estuda Latim, Filosofia, Dialética e acaba por formar-se em Direito. Publica em 1532 sua primeira obra, Dois Livros sobre a Clemência ao Imperador Nero, que marca sua adesão à Reforma. Em 1535, aos 26 anos, passa a ser considerado o chefe do protestantismo francês. Muda-se para Genebra, na Suíça, mas é perseguido pelas autoridades católicas, refugiando-se então em Estrasburgo. Três anos depois, volta a Genebra, onde organiza uma nova Igreja, com pastores escolhidos pelos fiéis, e funda o Colégio de Genebra, que se torna um dos centros universitários mais importantes da Europa. Sua doutrina é conhecida como calvinismo e diferencia-se do luteranismo basicamente pela noção de predestinação: para Calvino, a salvação é uma escolha divina, cabendo ao homem apenas cooperar com a vontade de Deus. De ideologia ascética e puritana, o calvinismo inspira, mais tarde, o aparecimento do presbiterianismo.

HENRIQUE VIII

 

Rei da Inglaterra (1491-1547). Fundador da Igreja Anglicana. É o segundo filho de Henrique VII, fundador da dinastia Tudor. Torna-se herdeiro do trono em 1502, com a morte do irmão mais velho. Em 1509, coroado rei, casa-se com a viúva do irmão, Catarina de Aragão, filha de Fernando II e Isabel I, da Espanha. Em 1527, como Catarina não consegue lhe dar um herdeiro, pede ao Papa Clemente VII a anulação de seu casamento. Este não o atende, temendo contrariar Carlos V, sobrinho de Catarina, que domina a Itália na época. Em 1533, o Parlamento aprova a anulação, e Henrique VIII se casa com a dama da Corte Ana Bolena. No ano seguinte, rompe com a Igreja Católica e é proclamado chefe supremo da Igreja na Inglaterra. Ana Bolena dá à luz Elizabeth I, mas, incapaz de gerar um menino e acusada de adultério, é decapitada em 1536. Henrique VIII consegue um herdeiro para a dinastia Tudor, Eduardo VI, com Jane Seymour, sua terceira esposa. Casa-se mais três vezes e dirige a Reforma da Igreja na Inglaterra. Entre 1536 e 1540, extingue os mosteiros, confisca as propriedades eclesiásticas e persegue católicos e protestantes contrários à nova Igreja independente.

LUTERO E A AUTORIDADE DAS ESCRITURAS

Autor: Pr. Erroll Hulse

 

Ao abordar o assunto de Lutero e a Bíblia, nós verificamos que ele conseguiu derrubar as confissõescatólico-romanas. A razão porque conseguiu fazer isso é que essas confissões de fé eram baseadas natradição humana e não eram de acordo com as Sagradas Escrituras. É importante observarmos como a Bíblia tinha se perdido gradativamente e como a Igreja tinha adquirido grande pode e riqueza. Esse poder e riqueza tinham resultado em corrupção, assim como o papado e o clero se tornaram corruptos.

 

Vamos ver 8 escândalos que ilustram a corrupção a que chegara a igreja católica romana:

 

  1. escândalo do menino papa. Ele tinha 12 anos e acabou se revelando uma “besta maligna”, vendendo o papado por uma oferta “gorda’ em dinheiro (Sec. XI).
  2. papa Inocêncio VIII, no século XIII. Era pai de 16 filhos ilegítimos e ordenou a execução dos Valdenses que criam verdadeiramente na Bíblia.
  3. escândalo do Cisma Papal. Século XIV e XV. Três papas reivindicavam a autenticidade do seu papado. Onde fica a infalibilidade papal?
  4. escândalo da imoralidade. O celibato não funcionava de fato. Em I Tm.3:4 lemos que essa doutrina do celibato é do diabo. Todos sabiam que os sacerdotes eram imorais; era um escândalo dos maiores.
  5. O escândalo da idolatria. Eles conferiam às relíquias um poder supersticiosamente grande e da mesma forma aos ídolos. Isso pode ser observado em catedrais e igrejas romanas ainda hoje. Pessoas indo de santo em santo, de ídolo em ídolo para rezar e dando homenagem especial à Maria.
  6. escândalo das guerras das Cruzadas. A maior relíquia era a cidade de Jerusalém que estava em poder dos muçulmanos e então foram organizadas guerras, que tiveram o nome de cruzadas onde milhares de pessoas foram exterminadas. Perguntamos: desde quando Jesus nos mandou sair matando pessoas? Isso era uma coisa sem precedentes. A população muçulmana ainda não se recuperou deste trauma. É uma mancha tremenda na história da Igreja.
  7. escândalo da Inquisição. Thomas Tacomado foi o chefe da Inquisição na Espanha e fez com que 10 mil pessoas fossem queimadas, presas a um poste. Procurava aliciar judeus sem nenhum escrúpulo, para se tornarem cristãos. Desde quando Jesus mandou que nós deveríamos forçar pessoas a se tornarem cristãs na base da espada? Será que Jesus sugeriu que nós deveríamos ameaçar as pessoas de serem queimadas vivas se não se tornassem cristãs? Isso foi algo terrível!
  8. As Indulgências. A salvação comprada por dinheiro nos leva a Lutero e à Reforma. Ele sentiu-se ofendido com Tetzel e a venda de indulgências. Tetzel era o mais talentoso vendedor de indulgência. dinheiro arrecadado era dividido com os banqueiros da época e com o papa, mas uma parte fica para o próprio Tetzel. Desta forma Lutero conseguiu ver que as almas estavam sendo enganadas quanto à salvação. Desde quando podemos comprar salvação com dinheiro? Isto foi o que proporcionou o pontapé inicial da Reforma.

 

Na Reforma nós encontramos 3 eventos principais:

 

  1. As 95 tesesde 1517. Foi o protesto contra as indulgências.
  2. A queima das leis (bulas) católico-romanas. Isso aconteceu quando Lutero foi excomungado pelo papa em 1520.
  3. A posição firme de Lutero diante do Rei Carlos V em 1521.

 

Se entendermos estes três eventos, vamos compreender a Reforma.

Primeiro Evento

 

Na venda das indulgências havia variedades de preços. Para se certificar de que      tiraria dinheiro do bolso do povo, Tetzel criou um meio de atingir os ricos e os pobres. Quem era      rico, dava mais, quem era pobre dava menos, porém todos davam. Lutero ficou enfurecido com isso  e desenvolveu, à partir das Escrituras, 95 teses mostrando razões pelas quais essa prática era   inaceitável. Mas as 95 teses também eram a respeito da salvação. Era como se fosse uma exposição      bíblica do assunto. Ele pretendia que as 95 teses fossem uma plataforma para debate do assunto. Por isso pregou-as na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. Estavam escritas em latim e  constituíam um convite para um debate sobre o assunto. A imprensa escrita já havia sido inventada      por Gutemberg e a esta altura já havia jornalistas nessa época. Cada um deles pegou uma cópia e a      traduziu para o alemão moderno da época, vendendo-as a muitas pessoas. Em duas semanas estes      escritos estavam espalhados por toda a Europa. Os alemães, especialmente, foram muito tocados por      essas 95 teses e a venda de indulgências caiu tremendamente. Ora, se você acerta o bolso de um      homem, realmente isso lhe dói bastante e profundamente.

 

Os líderes católicos estavam muito preocupados e algo extraordinário havia acontecido. Lutero      havia chamado a atenção das pessoas para as Escrituras, havia alertado as pessoas para a autoridade  da Bíblia. As indulgências eram contra a Bíblia. Lutero havia puxado a corda do sino que acordara o      mundo! Depois de mil anos a Igreja estava agora acordada para a realidade. De repente Lutero se  tornou conhecido por toda a Europa e teria de responder por suas ações. Felizmente ele tinha um      amigo, o príncipe Frederico, o qual tinha muita influência política. Dessa forma, na hora que se      fazia necessário, ele vinha em defesa de Lutero. Porém, ainda assim, Lutero teve de prestar contas      ao Cardeal. Ele achava que iria ser martirizado e que fariam com ele o mesmo que fizeram com John  Huss, quando o queimaram vivo.

 

Como resultado dos debates, outros escritos surgiram. Quanto mais eles desafiavam o reformador,      mais ele escrevia. Frederico, o príncipe, havia tido um sonho e nele viu um sacerdote que era      Lutero. A caneta de Lutero ficava cada mais longa, de tal maneira que atingia Roma e tirava o      chapéu do papa. Isso foi exatamente o que aconteceu. Os livros de Lutero começaram a se espalhar      e espalhar o Evangelho. Ele começou a expor os abusos da igreja católica. Expôs a doutrina da      justificação pela fé somente, e enfatizou o sacerdócio de todos os crentes. Essas publicações      venderam muitos números e todo mundo queria adquirir um exemplar. Um livro leva a outro e      todos eram expositivos no seu estilo.

Segundo Evento

 

O papa teve de tomar uma medida drástica e apelou para a excomunhão de      Lutero. Isso nos leva ao segundo evento da Reforma. O fato de ser excomungado da igreja era uma      coisa muito séria. Havia toda uma papelada necessária e que era muito grande, todas com o selo      papal e uma oração que dizia: “Levanta-te Senhor contra este porco que invadiu Tua vinha”. Essa      linguagem irritou a Lutero que ficou ainda mais irado. A excomunhão fazia também com que      ninguém tivesse o direito de ler os livros de Lutero e todos que os lessem corriam o risco de vida. A      excomunhão de Lutero foi projetada de forma que as pessoas não mais lessem seus livros. Mas      havia um pequeno espaço de tempo de “misericórdia”, pois teria 60 dias para se arrepender de tudo.      Ele criam que nesse prazo Lutero voltaria arrependido. Foi um grande erro deles, porque a cada dia      que se passava Lutero ficava mais irritado.

 

No 60º dia Lutero organizou um evento grandioso. Juntou todos os professores da Universidade, os      alunos e todos os amigo e anunciou que haveria uma cerimônia de “queima” de alguma coisa. Na   cidade de Wittenberg havia um portão através do qual saía todo o lixo da cidade. Lutero pediu que  fosse construída uma grande fogueira do lado de fora da cidade. Os professores e alunos e todos      que estavam ali fizeram como que uma procissão cerimonial e juntaram todas a leis da igreja      católica, leis papais, bulas papais que havia se acumulado durante séculos. Leis que amarravam e  amarram as consciências dos homens. Todo aquele ensino católico romano que era destinado a   fazer com que os homens ficassem escravizados àquelas leis. Todos estes livros foram levados por      aqueles que estavam à frente da procissão, atravessaram o portão da cidade e chegaram à fogueira. Lutero ordenou que todos estes livros fossem jogados à fogueira, um após o outros e que dessa  forma representavam as leis e tradições que haviam se acumulado através dos séculos, mantendo as      pessoas escravas. Quando estes livros estavam na fogueira, Lutero tirou do seu hábito o decreto      papal, o documento da excomunhão, jogou-o na fogueira e disse: “Já que vocês destruíram a      verdade de Deus, que o Senhor consuma vocês nestas chamas”. Foi um ato de muita coragem, preparado para que as pessoas tivessem ousadia e coragem. Dessa forma Lutero se tornou corajoso  e povo também. Assim, quando o papa mandou emissários para impor nova excomunhão a Lutero, esse povo os expulsou. Foi um quadro muito interessante ver os emissários do papa fugindo. Foram      recebidos com paus e pedras o que serviu de “prato cheio” para os chargistas da época. No entanto      temos de ver um princípio importante aqui. Lutero estava usando a autoridade das Escrituras para      destruir a tradição.

 

Nós precisamos nos lembrar o que Jesus disse aos fariseus: vocês destruíram a Palavra de Deus com      as suas tradições. Isso foi exatamente o que Lutero disse. A Palavra de Deus é a verdade e      precisamos destruir a tradição humana libertando as pessoas. Então um movimento grandioso se      espalhou. A igreja fez de tudo para tentar amarrar Lutero, mas a cada tentativa de fazê-lo retroceder,      havia fracasso. Só havia um método que faltava e a igreja católica apelou para ele, o poder político      de Carlos V que era o imperador e na realidade representava o poder civil e a igreja. Então ele      recebeu ordens para comparecer diante de Carlos V e isso foi organizado na cidade de Worms, onde      seria Lutero julgado diante do Imperador. Eles tinham certeza de que Lutero iria fraquejar diante      do imperador, pois pensavam que seu sistema nervoso não suportaria a pressão.

Terceiro Evento

 

Aqui chegamos ao terceiro evento da Reforma: Lutero diante do imperador. Ele      pensou que jamais sobreviveria a tudo aquilo. Viajou com alguns amigos para a cidade de Worms e      quando chegou à cidade, mais de 2.000 simpatizantes vieram encorajá-lo. Ele chegou e ficou diante      do Imperador. Todos ficaram surpresos, pois Lutero disse que precisava de mais tempo para pensar  e considerar as questões colocadas diante dele. Alguns pensaram que ele estava começando a   fraquejar. Lutero deveria comparecer no outro ia diante do imperador. Havia tanta gente      interessada neste evento que eles tiveram de ocupar o auditório mais amplo que havia na cidade.      No dia seguinte, Lutero apareceu. Sobre a mesa estavam todos os seus livros e exigiam dele que      tirasse todos aqueles livros dali e os renegasse a todos. O homem que o interrogava chamava-se  John Eck e era um homem muito eloqüente. Ele perguntou a Lutero como ousava desafiar toda a      igreja e como podia concluir o único certo e todos os demais errados; como todos os papas podiam      estar errados, todos os cardeais, toda a história da igreja? Será que Lutero podia desafiar a todos      eles? Não seria a hora de Lutero negar todos aqueles escritos e confessar que estava errado?

 

Mas Lutero tinha uma capacidade muito grande de argumentar e colocar a sua defesa. Ele disse que      não conseguia encontrar nada em seus livros que fossem de encontro à Bíblia. Lutero disse que      achava Ter dito algumas palavras duras a respeito de algumas pessoas, alguns líderes, mas que      havia boas razões para ter feito aquilo e mesmo isso não ia de encontro à Bíblia. “Por que tenho de      negar estes livros e retirá-los?” , perguntou Lutero. Então John Eck disse-lhe: “Se seus primeiros      livros foram ruins, os últimos são piores ainda. Você precisa renunciar agora a sua heresia. Você é a   mesma coisa que Wycliffe e Huss; agora, será que você, sem muitas desculpas, nega os seus livros e  os retira? É o momento de sua última chance de renunciar aos seus erros. Negue estes livros!”. Lutero se dirige ao Imperador e a todos aqueles líderes que estavam ali e responde: “Não vou usar    de mais argumentos e a menos que seja convencido pela Bíblia, não aceito a autoridade papal, nem      os concílios de tradição católicos. Todos eles se contradizem. Minha consciência está cativa à      Palavra de Deus. Tudo que posso fazer é não negar os meus livros, pois não posso ir de encontro a      minha consciência. Ajuda-me Senhor Deus! Amém.”

 

Houve um tremendo silêncio naquele lugar. Lutero havia ido de encontro a mil anos de tradição da      igreja, contra os papas e desafiava até o Imperador. Eles o deixaram livre. Os italianos que ali      estavam começaram a ranger os dentes pois o odiavam, mas à medida que saía daquele lugar, os      alemães batiam palmas para ele. Antes que Lutero saísse, aqueles líderes exigiram que ele fizesse      sua defesa em latim e ele o fez repetindo cada palavra em latim. Dessa forma havia uma dupla      ênfase sobre a verdade defendida. Certo autor tem dito que essa, talvez, tenha sido a hora mais      brilhante na história da raça humana. Talvez seja um exagero, mas fica próximo da verdade. Foi  realmente um evento memorável.

 

Quando Lutero ia chegando àquela cidade de Worms, ele disse: “Mesmo que todas as telhas dos      telhados da cidade fossem demônios, ainda assim, eu iria àquela cidade”.

 

Porém, nós precisamos fazer aplicação destas verdades para nós mesmos. Vejo três áreas de  aplicação aqui:

 

  1. A Bíblia e o desafio de Roma.
  2. A Bíblia e o desafio das novas revelações.
  3. A Bíblia e o desafio do modernismo.

 

Primeiro vemos que a igreja católica continua em nosso meio e tem na América Latina seu    grande campo de evangelização. Mas nós temos a Palavra de Deus como nossa arma poderosa, nossa espada de dois gumes que é apta para fazer em pedaços todas as tradições humanas. Nós precisamos fazer como os reformadores, que tinham ousadia e coragem. É possível que o Brasil possa ser libertado de toda espécie de tradições católicas. Vamos ver algumas tradições           católicas que foram adicionadas e se acumularam ao longo dos séculos, mas continuam   presentes ainda hoje, isso porque a igreja católica não nega nenhuma delas.

 

 

  • Ano 300 – Orações pelos mortos; ano 375
  • Veneração de imagens; ano 593
  • Doutrina do Purgatório; ano 600
  • Reza à Maria, aos santos que já morreram e aos anjos; ano 1050
  • Sacrifício da missa; ano 1079
  • Doutrina maligna do celibato obrigatório; ano 1190
  • Venda de indulgências; ano 1215
  • Doutrina da transsubstanciação; ano 1414
  • O cálice da eucaristia foi tirado do povo e este não mais o tomava; ano 1546 Adição de livros apócrifos (depois de 2000    anos, como podiam fazer qualquer adição às Escrituras?); ano 1870 – Infalibilidade papal; ano    1950 – Ascensão corporal de Maria.

 

A igreja católica jamais negou estas tradições. Mesmo assim mudou alguma coisa. Em 1964   houve uma mudança dramática, pois agora ela é pluralista. As pessoas podem ser salvas    através de várias religiões diferentes. Isso trouxe um pânico dentro da igreja católica, pois até  então ela achava que você só poderia ser salvo se fizesse parte dela, os demais estariam    perdidos. Mas, o que a Bíblia ensina sobre isso? Somente aquilo que estão em Cristo podem    ser salvos, não há salvação em nenhum outro nome, senão o de Cristo Jesus. Nunca a Bíblia   limita a Sua Igreja à uma denominação, nem tão pouco indica outro caminho para o homem   ser salvo senão Cristo. Esta mudança na igreja católica vem provar que ela não é infalível e   transforma esta idéia de infalibilidade em uma completa loucura.

 

Segundo, temos que considerar a Bíblia e o desafio das novas revelações. Depois de ser           julgado pelo imperador, Lutero voltou para casa. Porém, para protegê-lo de ser morto na sua    viagem de volta, houve um “seqüestro amigável” quando o levaram para um lugar secreto  onde foi guardado em segurança – o Castelo de Wartburg. Assim não o matariam. Neste lugar   Lutero faz a tradução da Bíblia para o alemão.

 

Havia muita encrenca em Wittenberg, pois alguns “profetas carismáticos” haviam chegado e  estavam gerando confusão entre os líderes e o povo da cidade. Havia três líderes este   movimento e por isso Lutero teve de voltar. Eles diziam Ter revelações especiais de Deus, uma  espécie de “linha telefônica direta” com deus. Esta tem sido hoje a forma de muitos  reivindicarem autoridade para si: “Deus me falou e eu posso transmitir para você o que Ele  está dizendo porque é só pegar o telefone”.

 

Estes homens geraram muita divisão e introduziram doutrinas fanáticas entre o povo. Lutero  teve de voltar e pregar a Palavra de Deus dizendo do fanatismo destes homens e afirmar que a   reforma tinha de se estabelecer, se estabilizar. Nós temos os mesmos problemas hoje! E a    forma que se tem achado para se obter crédito é dizer: “O senhor me disse”. É o caso de um     jovem crente apaixonado por uma descrente. Então ele diz: “Deus me disse que eu posso casar  com ela.” Ora, isso é o oposto do que a Bíblia diz. Dessa forma você pode ir fazendo   acréscimos como quiser.

 

Mas nós cremos que a palavra de Deus é completa e o final da época apostólica é o final da    revelação. As pessoas nos desafiam a provar isso através da Bíblia e eu vejo duas passagens    no V.T. que dizem que as revelações cessaram: Daniel 9:24 e Zacarias 13: 1-5. É algo dado no    contexto messiânico e a verdade é dita que com a vinda do messias isso trará ao final a   revelação. O Pai disse amém a tudo o que o Filho Jesus fez. Nós não precisamos de nenhuma  revelação extra. Estas revelações têm o propósito de nos desviar da Palavra de deus e onde se    começa a dar ouvidos a estas revelações extra-bíblicas, o interesse pela palavra diminui. Hoje   em dia muitos cristãos se firmam na base de sensações. Soube até de batistas na Argentina    que organizaram uma conferência onde o tema era “BÍBLIA OU EXPERIÊNCIA? ” e chegaram    a conclusão que a experiência está em primeiro lugar e a Bíblia em segundo. Ë uma tremenda          falta de bom senso pois toda experiência deve estar abaixo da Bíblia, sob o crivo da Palavra.

 

Nós não estamos negando o lugar da experiência, mas ela precisa ser testada pela Palavra. A   verdade é que quando as sensações chegam, as pessoas são logo atraídas por elas. Nesse caso, seu amor não é pela Palavra mas a mente fica cativa às sensações.

 

Isso enfraquece tremendamente a Igreja e arruina a vida familiar também. A Bíblia nos ensina como devemos viver em amor e paz uns com os outros. Os maridos devem lembrar todos os  dias a amarem suas esposas, mas eles não poderão fazer isso se estiverem só correndo atrás de  novas sensações. Lutero experimentou a mesma coisa que temos hoje em dia, mas ele usou a    Bíblia para derrubar a tradição católica e também os falsos carismáticos e restaurar a ordem à   cidade de Wittenberg.

 

Chegamos a terceira aplicação. A Bíblia e o desafio do modernismo e da incredulidade. A   Igreja tem sofrido muito nos últimos cem anos por causa da reivindicação da ciência. A    tendência moderna é negar o sobrenatural, tudo é racionalista na mente humana, mas a Bíblia    é um registro dos atos sobrenaturais de Deus. O remover do povo de Israel do Egito foi um ato   sobrenatural; a inscrição dos dez mandamentos naquelas tábuas de pedra foi um ato   sobrenatural; a encarnação do senhor Jesus Cristo foi um ato sobrenatural; Suas obras  poderosas e sua ressurreição foram atos sobrenaturais. É o poder todo poderoso do nosso  Deus. Temos de reconhecer que Deus criou tudo pelo poder da Sua Palavra. Mas agora nós    temos o ensino da teoria da evolução e muitos crentes fraquejam neste ponto pela pressão da   sociedade que exige a evolução como metodologia. Agora está sendo reconhecida como não   ciência, sendo apenas uma teoria e os cientistas estão tendo de corrigir algumas coisas que eles  já disseram. Mas Deus não tem nada a corrigir. O que Ele disse é a verdade e por isso temos de    ficar com a autoridade das Escrituras. Se os cientistas dizem que a Bíblia está errada, nós mandamos eles de volta para seus laboratórios, pois precisam pesquisar mais e muitas vezes   chegam a mudar de idéia e no tempo certo acertam o que erraram antes.

 

Aqueles cientistas que hoje já rejeitam a evolução, que não crêem em Deus, fazem a sugestão   de que certos pingos vieram do céu, fórmulas de DNA que vieram através do céu e    misteriosamente caíram na terra. Isto é conto de fada. Vamos permanecer com a Palavra de   Deus pois Ele é coerente, consistente. Não é apenas o Gênesis que nos fala da criação. O salmo   33 também nos fala e o próprio Jesus confirma a criação; o apóstolo Paulo em Romanos 5 fala   sobre Adão, o primeiro homem. A Bíblia é completamente coerente com tudo isso, com todosestes assuntos. Nós não devemos permitir que a pressão nos assuste e com as Escrituras vamos    ensinar a todas as nações e enchê-las das verdades bíblicas. Há promessas na Bíblia de que a     terra será cheia da verdade; isso será na medida que tivermos confiança na Bíblia. Que   confiança maravilhosa! Lutero tinha a Bíblia e com ela pôde empurrar e derrubar toda a força          dos papas da igreja católica. Por isso tenhamos coragem também para evangelizar e sempre que nos depararmos com material antibíblico temos que usar a Palavra da Verdade, pois nela  há poder.

 

Irmãos, vamos nos levantar com a Palavra de Deus e espalhar a Sua verdade por toda parte   para GLÓRIA DE DEUS E DO SENHOR JESUS CRISTO. Amém!

TRÊS PRINCÍPIOS DO PRO-TESTANTISMO

 

Autor: Pr. James E. McGoldrick

 

“Estamos comemorando neste mês, outubro, mais um aniversário deste marco histórico do qual somos fruto.

 

Precisamos, então, estar conscientes daquilo que foi e que deve ser uma Igreja Reformada. Quais suas  doutrinas, suas práticas, sua forma de culto, etc… Que Deus nos dê graça, a fim de que possamos redescobrir o  verdadeiro significado e necessidade de um movimento de REFORMA na Igreja em nossos dias”

 

A fé protestante se originou em um tempo de escândalo quando Zohann Tetzel, um monge dominicanoapareceu na Alemanha e foi por todos os lugares vendendo certificados de indulgências. Era outono de 1517 quando o escândalo começou. Tetzel prometeu aos seus ouvintes que eles poderiam obter a remissão dos pecados das pessoas queridas que já haviam morrido e ido para o purgatório. Consequentemente, pessoas piedosas juntaram seus bens e correram para Tetzel para comprar estes documentos, pois isto parecia ser o requisito de caridade cristã – para que os entes queridos fossem libertos dos tormentos do purgatório e tivessem a entrada no céu assegurada. De fato, Tetzel levou pessoas a crerem que podiam obter o perdão meramente ao colocarem suas moedas no seu cofre-caixa e levando em troca os certificados oferecidos por ele. Para tornas sua campanha mais popular, Tetzel recitava o seguinte jingle: “Assim que a moeda no cofre tilintar, a alma do purgatório irá saltar”. As pessoas pareciam vir de todos os lugares, procurando libertar seus queridos das chamas da punição. O purgatório, no ensino da igreja medieval, era retratado como um lugar de punição temporal pelos pecados; O tempo que a pessoa deveria passar lá seria determinado pelo número e gravidade das ofensas. Quando uma pessoa havia sido completamente purgada, ela estaria liberada para ir para o céu.

 

Informações a respeito das atividades de Tetzel logo chegaram à Universidade de Winttemberg onde o Doutor Martin Luther(Martinho Lutero) Professor de Teologia, as recebeu com consternação. Ao invés de reagir com uma esperança feliz que caracterizava a reação das pessoas que estavam comprando os documentos de Tetzel, Lutero ficou enfurecido. Ele falou vigorosamente contra estas atividades e denunciava todo negócio como um escândalo de imensas proporções e defendia que a igreja tinha que ser salva deste terrível tráfico de indulgências. Lutero foi para frente da porta da igreja do castelo de Wittemberg, com um documento em uma mão, um martelo na outra e afixou na porta uma lista com noventa e cinco protestos contra a venda das indulgências. Ele também disse ao povo que estava sobre os seus cuidados que eles haviam sido cruelmente enganados. Os certificados de indulgências não prometiam a remissão de pecados e não podia garantir a salvação deles ou dos seus parentes mortos. O povo humilde alemão e a população comum das cidades não sabiam ler latim e os certificados estavam impressos em latim. Tetzel havia apostado na ignorância do povo quando os incentivava a acreditar que haviam obtido benefícios que não sequer escritos nos tais documentos.

 

De acordo com os ensinamentos da igreja católica, a igreja tem a custódia dos Tesouros dos Méritos que são adquiridos pelos grandes santos que haviam excedido as boas obras necessárias para sua salvação.

 

Este excesso de méritos se tornava uma fonte da qual a igreja poderiam distribuir méritos aos que estavam deficientes, e a indulgência se tornou o meio pelo qual os pecadores necessitados poderiam obter méritos desta tesouraria. Nos anos entre 1460-1470, o Papa Sixtus IV declarou que os benefícios obtidos através das indulgências poderiam ser transferidos para os crentes que há haviam ido para o purgatório.

 

Lutero, inflamado de indignação, desafiou a venda de indulgências e exigiu que toda esta questão fosse discutida pelos estudiosos da Universidade. Ele convidou alguns colegas acadêmicos para um debate público a respeito das 95 teses ou objeções, que ele havia escrito sobre a venda de indulgências. Lutero assim iniciou um protesto que atraiu muitos seguidores, e logo, os que se uniram ao protesto ficaram conhecidos como os “Protestantes”.

 

A palavra “Protestante”, de acordo com a definição do dicionário, é “um membro de algumas igrejas cristãs que terminaram se separando da igreja católico romana desde o século XVI: Batistas, Presbiterianos, Metodistas e muitos outros”; ou “uma pessoa que protesta”.

 

Foi no dia 31 de outubro de 1517 quando Martinho Lutero afixou os seus protestos na porta da igreja do castelo. Ele protestava contra os abusos e as corrupções ligadas a venda de indulgências e denunciava o ensino de que o perdão dos pecados poderia ser obtido através de “contrição, confissão e contribuição”.

 

Nesta época a igreja ensinava que o perdão dos pecados vinha através do sacramento da penitência quando o padre, representando Jesus Cristo, absolvia o pecador que confessava seus pecados, expressava arrependimento e contrição e dava uma contribuição à igreja, como penitência. Lutero falou com coragem contra as indulgências e a crença de que o perdão seria realizado através delas ou de contrição, confirmação e contribuição. A tese de número 32 das 95 escritas por Lutero diz o seguinte: “Aqueles que crêem que podem garantir a salvação por terem cartas de indulgências serão condenados eternamente juntamente com seus professores”. Através deste gesto dramático, Lutero começou uma tentativa de reformar a igreja, de trazê-la de volta às origens bíblicas e à salvação ensinadas nas Escrituras, para restaurar a pureza da fé do Novo Testamento. Ele, é claro, não tinha a intenção de se tornar o fundador de

uma igreja separada protestante. De fato, Lutero, naquele ponto, acreditava que o papa ficaria agradecido por um dos seus monges ter tido a coragem de se levantar para defender a igreja contra este abuso escandaloso. Lutero não sabia que esta corrupção já havia permeado a cúpula em Roma. Nem tão pouco que o para Leão X e Albrecht, o arcebispo de Mainz, haviam organizado a venda de indulgências e apontado Tetzel como seu representante. Ao contrário de gratidão, Leão X estava totalmente enfurecido

com as ações de Lutero.

 

O protesto de Lutero não era de todo negativo, e a palavra “protestante” realmente não é um termo pejorativo. A palavra é derivada do latim, da preposição PRO, que significa “para”, e o infinito TESTARE, “testemunho”. Um protestante, então, é um que testemunha – um protestante é uma testemunha de Jesus Cristo e da Palavra de Deus. O protestantismo, então, não é meramente o protesto contra a corrupção eclesiástica e o falso ensinamento; é o reavivamento, o renascer da fé bíblica, um renascer do cristianismo do Novo Testamento, com uma ênfase positiva sobre as doutrinas das Escrituras, Graça e Fé. Dito no belo latim do século XVI, o Protestantismo proclama SOLA SCRIPTURA, SOLA GRATIA, SOLA FIDE. Estes são os três princípios do protestantismo.

Sola Scriptura:

 

Onde a Bíblia afirma ser a Palavra de Deus, o verdadeiro Protestantismo aceita esta declaração como a verdade. Os protestantes acreditam, como Paulo, que toda a Escritura é “inspirado por Deus”, que a Bíblia é o guia para a salvação e que é através da Palavra escrita de Deus que o crente se torna “perfeitamente habilitado para toda boa obra”.(II Tm.3:17) Os protestantes atribuem à Bíblia exatamente a mesma autoridade que Jesus Cristo atribuíra à Bíblia da sua época. Disse Jesus: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas: não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: Até que o céu e a terra passem, nem um i ou til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra”.(Mt.5:17-18)

 

Por ficar ao lado de Jesus nesta questão da autoridade da Bíblia, o Protestantismo renuncia a autoridade das tradições humana. Quando Jesus debateu com os fariseus, ele respondeu às suas críticas com a seguinte acusação: “… E assim invalidastes a Palavra de Deus, por causa da vossa tradição”.(Mt.15:6) Jesus muitas vezes contradizia as tradições dos homens, mas ele cumpria, mantinha e defendia a Palavra de Deus. No Sermão do Monte Jesus expôs a confiança dos judeus na tradição rabínica quando disse:

“Ouvistes o que foi dito aos antigos… Eu, porém, vos digo…”.(Mt.5:21-22) Desta maneira Jesus contradizia os ensinamentos tradicionais dos rabinos que haviam pervertido a Palavra de Deus através de falsas interpretações. Jesus disse, em outras palavras: “Esqueçam o que os rabinos lhes ensinaram e ouçam o que eu digo, pois a minha palavra é a Palavra de Deus”. Quando comparada ao Velho Testamento, as palavras de Jesus são, realmente, a Palavra de Deus.

 

Lutero combateu a venda de indulgências e das outras superstições da igreja medieval porque ele percebeu que estas coisas não estavam baseadas na Bíblia. No entanto, ele se tornou a figura central de uma controvérsia intensa. O papa e o imperador se tornaram contra Lutero violentamente, e os príncipes da Alemanha receberam ordens para avançarem contra ele. O papa exigiu que Lutero se apresentasse em Roma para responder às acusações que pesavam contra ele. Lutero, no entanto, tinha um protetor, Frederico o Sábio, Príncipe da Saxônia. Frederico sabia que Lutero não receberia uma chance justa em um tribunal em Roma. Se ele teria de ser julgado, teria que ser em um tribunal na Alemanha. Finalmente, tudo foi organizado, e em abril de 1521, o “santo imperador romano”, Carlos V foi à pequena cidade de Worms, na Alemanha, onde ele havia convocado uma assembléia imperial.

 

Lá em Worms, estavam unidos os bispos, arcebispo, príncipes do Império, representantes das cidades livres e bem no alto, acima de todos esta o augusto Carlos V, Rei da Espanha e ‘santo imperador de Roma’.

 

Diante daquela assembléia imponente esta o humilde monge Agostiniano, Martinho Lutero, vestido com seu capuz de monge, de pé diante de uma mesa onde estavam folhetos e tratados escritos e publicados por ele. Johaun Von Eck, assistente do Arcebispo de Trier, que serviu como interrogador, mandou Lutero reconhecer o material como sendo seu mesmo, e Lutero assumiu a autoria de todo o material. Eck também perguntou se o teólogo iria se retratar das “heresias” que havia publicado. Percebendo a importância da sua postura, Lutero pediu um tempo para escrever uma resposta formal. Foram-lhe concedidas 24 horas para preparar a sua resposta e no dia seguinte ele estava diante da Assembléia e pronunciou o discurso que mudou o curso da História e modificou a Igreja para sempre. O mundo e a Igreja jamais voltaram a ser os mesmo depois que Lutero fez a sua declaração arrebatadora.

 

Um simples monge e um teólogo obscuro, sem fortuna ou poder, Lutero ficou diante dos governantes da Alemanha e disse: “Desde que vossa serena majestade e vossas senhorias buscam uma resposta simples, eu a darei assim, sem chifres nem dentes. A menos que seja convencido pelo testemunho das Escrituras ou por mera razão (pois não confio nem no papa nem nos concílios somente, pois é bem sabido que eles freqüentemente erram e se contradizem), eu estou atado pelas Escrituras que já citei, e a minha consciência é escrava da Palavra de Deus. Eu não posso e não irei me retratar de nada, já que não é seguro nem correto agir contra a consciência”.

 

Lutero talvez estivesse ali tremendo, pois ele sabia que havia arriscado sua vida por Jesus Cristo. Outros que haviam tomado este tipo de atitude antes de Lutero haviam sido queimados como traidores. De fato, o reformador John Hus havia sido queimado por ordem do Concílio de Constança 100 anos antes, e entre os crimes que o levaram a morte, foi ter protestado contra a venda de indulgências!

 

Ao defender o seu ponto de vista diante daquela Assembléia, Lutero sabia que a sua vida corria um grande risco. O imperador, em favor de Lutero, manteve a sua palavra de que Lutero poderia ir até Worms e sair de lá em segurança, mas a partir daquele momento seria considerado herege diante da Igreja e um fora-da-lei aos olhos do imperador. Lutero havia proclamado o princípio que estava destinado a ecoar através dos tempos, o princípio de SOLA SCRIPTURA. Aqueles que acreditam como ele, anda defendem só as Escrituras e, como Lutero, as suas consciências estão “presas à Palavra de Deus”.

 

Pouco depois do protesto de Lutero e de ter iniciado a Reforma da Igreja na Alemanha, outros, em várias partes do mundo cristão, também se voltaram para a Bíblia e nela descobriram as verdades que haviam ficado obscuras através dos séculos de tradições eclesiásticas. Nas montanhas da Suíça, João Calvino surgiu como um líder da Reforma. Ele, como Lutero, se tornou um fervoroso estudante da Bíblia, e para ele, também, a Escritura era a autoridade suprema. Calvino, falando a respeito do Livro Sagrado, disse:

 

“Os profetas não falavam por vontade própria, eles eram instrumentos do Espírito Santo usados para dizer apenas o que era enviado dos céus”. Os protestantes suíços, como seus irmãos alemães, eram protestantes verdadeiros pois sempre exigiam que cada assunto fosse testado pela autoridade de SOLA SCRIPTURA.

 

Eles também não confiavam nos papas nem nos concílios, pois as suas consciências estavam cativas ou presas à Palavra de Deus. O Protestantismo genuíno em qualquer lugar declara que a Bíblia, unicamente a Bíblia, é a autoridade da fé cristã e de prática de vida, pois esta é a fé dos nossos pais, “a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”. (Jd.3)

 

Entre as declarações protestantes de confiança na verdade e na confiabilidade das Escrituras, a da confissão de Fé de New Hampshire é majestosa e inequívoca. Aquela afirmação batista diz: “Nós cremos que a Bíblia Sagrada foi escrita por homens divinamente inspirados, e que é um perfeito tesouro de instrução celestial; que Deus é o seu autor, a salvação o seu propósito, e a verdade, sem qualquer mistura de erro em sua essência revela os princípios pelos quais Deus irá julgar-nos, e então é, e irá permanecer até o fim do mundo, o verdadeiro centro da união cristã, e o padrão supremo pelo qual toda a conduta humana, credos e opiniões devem ser testadas”.

 

Com esta afirmação retumbante de SOLA SCRIPTURA todos os verdadeiros cristãos irão concordar. SOLA SCRIPTURA é o fundamento indispensável da fé cristã. Se a Igreja do século XX não for fiel em proclamar SOLA SCRIPTURA, chegou a hora de outro protesto, um protesto contra os projetos humanos e a favor da Palavra de Deus.

Sola Gratia

 

O Protestantismo, já que é baseado nas Escrituras, ensina que o homem pecador não tem qualquer esperança de salvação através de seu próprio esforço, pois os protestantes sabem que a Bíblia diz claramente: “Pela graça sois salvos, por meio da fé – isto não vem de vós, é Dom de Deus – não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef. 2:8-9). O Protestantismo, assim, nega todos os esquemas de salvação que promovem o homem e suas atividades e cerimônias religiosas como meio de vida eterna e perdão. Insiste ainda que a salvação vem através do puro e imerecido favor de Deus, pela graça somente. SOLA GRATIA é um ensinamento cardeal da fé protestante. Os protestantes sabem que o homem é deficiente tanto no querer quanto na habilidade de agradar a Deus e de ganhar ou conquistar a salvação. Lutero descreveu o estado pecaminoso do homem como sendo a condição de arbítrio escravo (escravidão da vontade).

 

O homem, em sua insensatez, pensa que é livre, mas ele está realmente escravizado pelo pecado e por Satanás. Jesus disse: “… Todo o que comete pecado é escravo do pecado”(Jo.8:34). O homem possui um tipo de liberdade, é claro. De fato, ele é livre para fazer o que quer, mas o que ele quer é pecar! Os desejos pecaminosos o levam cada vez mais a pecar e cada vez mais para longe de Deus, vivendo em pecado, amando o pecado, e se não for pela misericórdia de Deus, morrendo em pecado. A escravidão do homem é tão completa que ele fica alegremente desapercebido da sua condição de escravo.

 

Lutero refletia a respeito da trágica condição do homem caído e a descrevia desta maneira: “Eu creio que não posso por minha própria razão ou força, acreditar em Jesus Cristo meu Senhor, ou buscá-lo; mas o Espírito santo me chamou através do Evangelho, me iluminou pelos Seus dons, e me santificou e preservou na verdadeira fé; da mesma maneira Ele chama, reúne, ilumina e santifica toda a Igreja cristã da terra, e preserva a sua união com Jesus Cristo na verdadeira fé …”

 

Este é o evangelho da SOLA GRATIA! Este é o ensinamento que, aos pecadores sem esperança e incapazes, aos quais Deus não deve nada, e Ele sente piedade e derrama o seu favor de graça. Pecadores que não merecem nada além da ira de Deus, ganham o inestimável privilégio de gozar do seu favor, pois Deus, da bondade do Seu ser, escolheu ser gracioso para com pessoas que só mereciam o Seu julgamento.

 

O verdadeiro protestantismo tira a sua doutrina da salvação diretamente da Bíblia e assim declara que a salvação é um presente de Deus, espontâneo, imerecido, dado a pessoas indignas, “… a graça de Deus se manifestou salvadora …”(Tito 2:11), e assim, o verdadeiro Protestantismo declara SOLA GRATIA ao mundo inteiro. O que o homem não pode fazer por si mesmo, Deus já fez por ele através da Sua graça em Cristo Jesus. Se a Igreja do século vinte está negligenciando declarar o Evangelho da SOLA GRATIA, é chegada a hora de um novo protesto! Os protestantes agora, como no século dezesseis, devem insistir que a questão da salvação seja resolvida nas Escrituras, que proclamam que é um presente, não uma recompensa por qualquer esforço humano.

Sola Fide:

 

O Protestantismo afirma que a Bíblia é a única autoridade e que a graça é o único meio de salvação. Isto, no entanto, deixa uma pergunta ainda sem resposta. Como é que uma pessoa pode receber a salvação? Ou, dito de outra maneira, como é que uma pessoa pode estar com deus? Esta foi a pergunta

que deixou Lutero perplexo e o levou quase ao desespero.

 

Lutero não se tornou monge por opção. Enquanto ainda era um jovem estudante, preparando-se para a carreira de advogado, Lutero estava viajando por uma floresta na Alemanha quando de repente caiu uma terrível tempestade. Os trovões estrondavam sobre sua cabeça e os raios atingiam as árvores. O jovem temeu ser consumido por um raio e na sua angústia ele orou. Lutero orou, mas não a Deus; ele implorou a ajuda de santa Ana, a santa padroeira dos mineiros. O pai de Lutero havia trabalhado nas minas, então Lutero se lembrou da infância quando o pai dava instruções que o ensinavam a buscar a ajuda de santa Ana como mediadora para falar com Deus. Ele prometeu a santa Ana que se tornaria um monge se a sua vida viesse a ser poupada. Ele sobreviveu àquele tenebroso temporal, e foi fiel a sua promessa entrando no monastério da ordem Agostiniana em Emfurt. Como ele se tornou um padre, e, enquanto estava no monastério, se dedicou às responsabilidades da vida em comunidade, com um vigor incomum. Passava noites sem dormir, em jejuns e orações. Procurava confessar os seus pecados todos os dias, em sua busca de acertar com Deus.

 

O padre Johan Stauptz, superior monástico de Lutero, percebeu que este monge era um homem com uma consciência notavelmente sensível. Lutero se sentia tão oprimido com a sensação de pecado e de culpa que ele não podia confessar o suficiente, e finalmente Stauptz disse que Lutero saísse do confessionário e só voltasse quando tivesse realmente pecado para confessar! Lutero estava vasculhando a sua consciência no esforço de conseguir aliviar o terrível peso da culpa e da vergonha, mas a confissão a um padre não o ajudou em nada.

 

Apesar da Igreja medieval incentivar as pessoas a adotarem uma vida monástica como a melhor forma de ganhar o favor de Deus, a experiência no monastério, no caso de Lutero, não o ensinou a amar a Deus. Lutero mesmo admitiu que se tornou mais alienado e distante do seu Criador ao mesmo tempo em quebuscava servir mais fielmente. Como ele mesmo colocou: “Eu… estava sendo atormentado perpetuamente”.

 

Os estudos de Lutero no monastério e na universidade, como também na infância, o ensinaram a considerar Deus como um severo juiz, então ele ficava aterrorizado com a possibilidade de não estar entre os escolhidos de Deus. Ele confessou suas dúvidas ao padre Stauptz, e o sábio conselheiro o incentivou a parar de estudar e meditar na ira de Deus e na Sua justiça, e começar a meditar no amor e misericórdia de Deus. Stauptz mandou Lutero olhar as chagas de Cristo e acreditar que Ele foi crucificado por ele, e assim o monge encontraria a certeza do amor de Deus e do Seu favor. Lutero levou este conselho a sério, mas as dúvidas ainda o atacavam, pois ele não podia livrar-se da imagem de Deus como um juiz irado.

 

O estudo da Bíblia foi uma das responsabilidades de Lutero como padre e teólogo, mas mesmo este sagrado exercício, a princípio, parecia aumentar o senso de que era um miserável. Quando encontrava a ênfase bíblica da justiça de Deus, Lutero percebia que a justiça perfeita de Deus exige a perfeição do homem. Mas, não importava o seu esforço, pois Lutero não conseguia atingir a retidão exigida pelo Criador; o monge atribulado continuava a afundar em uma miséria mental e espiritual por não conseguir apaziguar a ira de Deus contra quem havia pecado. O Deus justo que Lutero encontrou na Bíblia permanecia na sua mente como um juiz de acusação, cujas leis haviam sido quebradas.

 

Na universidade de Wittemberg, Martinho Lutero recebeu a responsabilidade de fazer estudos de passagens bíblicas, e, em 1515, dois anos antes de Ter afixado suas 95 teses, ele iniciou uma série de palestras na epístola aos Romanos. Neste grande tratado de Paulo, Lutero descobriu o coração do Evangelho no capítulo 1, versos 16 e 17: “Pois não me envergonho do Evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no Evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé”.

 

A retidão que Lutero precisava, mas que não tinha poder de produzir, ele encontrou no evangelho de Cristo. Ele descobriu que é uma retidão que vem de Deus! A retidão que Deus exige, é a retidão que Ele mesmo fornece, através da fé no Seu Filho. Aí está o coração da fé cristã – o homem pecador é justificado, isto é, obtém uma vida reta diante de Deus, SOLA FIDE, através da fé somente.

 

Quando Lutero fez a descoberta da justificação através unicamente da é, ele exclamou: “Eu senti que havia realmente nascido novamente e que havia entrado no próprio paraíso através dos portões abertos. Ali uma face totalmente diferente das Escrituras tornou-se clara para mim”.

 

Sim, um milagre havia acontecido no coração e na alma de Martinho Lutero. Enquanto ele estudava a palavra de Deus, o Espírito de Deus lhe concedeu a vida espiritual, o regenerou e lhe deu a fé para crer e compreender a justificação, a retidão que ele necessitava tão desesperadamente; havia-lhe sido dada pelo Filho de Deus. O Protestantismo proclama que a fé, somente a fé justifica o pecador, isto é, o declara justificado diante de Deus.

 

O catecismo de Heidelberg é uma das grandes declarações da Reforma Protestante, e a sua definição de fé salvadora é especialmente pertinente: “A verdadeira fé não é meramente o conhecimento de que eu declaro saber ser a verdade tudo o que Deus revelou através da Bíblia, mas também é a firme confiança de que o Espírito Santo trabalha no meu coração pelo Evangelho; que não só para os outros, mas para mim também, a remissão dos pecados, a justificação eterna e a salvação são gratuitamente dadas por Deus meramente pela graça, só pelo méritos de Jesus Cristo”.

 

Aí está! O pecador, sem qualquer mérito próprio apresenta diante de Deus os perfeitos méritos de Jesus Cristo que é a suprema benevolência do céu descendo para alcançar os pecadores que não podem alcançar a deus,. Como Jesus colocou isso: “Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido”(Lc. 19:10). Ele veio buscar homens que, por natureza, jamais O buscariam. Ele amava tanto os pecadores perdidos que Ele os perseguia ao fugirem dEle, alcançou-os durante a fuga, e pelo toque suave da sua graça os transformou e guiou para o céu. Paulo descreve essa salvação de forma belíssima: “Quando, porém, se manifestar a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o Seu amor para com todos os homens não por obra de justiça praticada por nós, mas segundo a Sua misericórdia Ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente por meio de Jesus Cristo nosso Salvador”(Tt. 3:4-6).

 

Martinho Lutero sabia que havia recebido o presente preciosos de Deus, a fé justificadora em Jesus Cristo. E quanto a nós? Ao considerarmos os três grandes princípios do Protestantismo cremos na Bíblia? Estamos firmados na SOLA SCRIPTURA, só na Palavra de Deus? Temos abandonado todos os esforços de nos salvar por nós mesmos? Podemos nós apresentar-nos diante de Deus salvos por Cristo, SOLA GRATIA? Já confessamos os nossos pecados e sabemos da nossa condição de pecadores perdidos? Sentimo-nos sem esperança e incapazes como Lutero? Cremos que, pela fé, Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou? Se respondemos afirmativamente, nós também nascemos de novo; nós também, encontramos os portões abertos do paraíso; nós também, temos recebido a justificação que vem de Deus, que é “do primeiro ao último através da fé”, pois nós “que através da fé fomos justificados, viveremos!”.

 

Na última década deste século, mais de quinhentos anos depois do nascimento de Lutero em 1483, a Igreja contemporânea deve proclamar o Evangelho de SOLA FIDE. Se a Igreja da nossa geração não estiver fazendo isto, chegou a hora, novamente, de protestar! Vamos transformar a nossa Igreja em realmente Protestante novamente. Vamos testemunhar de Cristo e pela Palavra de Deus. Vamos protestar contra os desígnios humanos e as falsas tradições. Nós precisamos de um reavivamento do genuíno testemunho Protestante, pois estes princípios estão sendo descartados, apesar de virem da Bíblia e terem sido escritos com sangue dos mártires.

 

Vamos protestar, antes que o verdadeiro Protestantismo se perca por omissão e negligência. Aqui está a fé dos nossos pais, a fé pela qual viveram e pela qual morreram. Esta é a fé que permitiu que Lutero ficasse de pé diante da igreja e do império e declarar: “A minha consciência está presa à Palavra de Deus”. Esta é a fé que sustentou o mártir protestante inglês Thomas Cranmer, arcebispo de Cantebury, que morreu queimado durante o reinado de Maria a Sangüinária. Que em momento anterior de fraqueza, havia negado a sua fé para salvar a sua vida, mais que recuperou a sua coragem e pagou o preço pela lealdade ao Senhor. Quando o fogo foi colocado aos seus pés, Thomas Cranmer colocou sua mão direita dentro das chamas e clamou: “Porque a minha mão ofendeu ao escrever o contrário do que dizia meu coração, ela será queimada primeiro”.

 

Como Lutero, Cranmer e outros mártires creram nos três princípios do Protestantismo e sabiam que não podiam negá-los sem negar o próprio Jesus Cristo. Que Deus nos dê coragem de viver pela mesma fé e de morrer nela.

 

“Eterno Deus e Pai do Nosso Senhor Jesus Cristo, dá-nos o Teu Espírito Santo que escreve a Palavra pregada em nossos corações. Que nós possamos receber e crer no Teu Espírito para sermos regozijados e confortados por Ele na eternidade. Glorifica a Tua palavra em nossos corações e faz com que ela seja tão brilhante e quente que nós possamos achar prazer nela, através do Teu Espírito Santo, pensar o que é certo, e pelo Teu poder cumprir a Tua Palavra por amor de Jesus Cristo, Teu Filho, Nosso Senhor. Amém!”

Martinho Lutero.

 

Tradução: Débora M. G. Gomes

CALVINO, AS INSTITUTAS  E A REFORMA PRO-TESTANTE

 

Carta ao Rei Francisco, mui poderoso monarca, cristianíssimo rei dos franceses, seu príncipe, João Calvino roga paz e salvação em Cristo.

 

“Quando inicialmente, lancei mão da pena para escrever esta obra, meu principal objetivo, ó Mui Preclaro rei, era o de escrever algo que, depois, pudesse ser apresentado diante de tua majestade. Meu objetivo era o de apenas ensinar certos rudimentos em função dos quais fossem instruído, na verdadeira piedade, todos quantos são tocados por algum zelo de religião. Resolvi fazer este trabalho principalmente, por amor aos nossos compatriotas franceses, muito dos quais eu via famintos e sedentos de Cristo, e a muito poucos, porém, eu via imbuídos devidamente de conhecimento sequer modesto a respeito dEle. O próprio livro, composto de forma de ensinar simples e até chã, mostra que foi esta a intenção proposta”

João Calvino

 

Quando João Calvino começou a escrever a primeira edição das Institutas da Religião Cristã, em 1535, com a idade de 27 anos, sua intenção era de servir grandemente aos interesses protestantes, mas sua influência deve ter excedido em muito a sua expectativa. Provou ser o trabalho mais influente da Reforma Protestante. Os protestantes de outros países, viram em Calvino, e em sua obra, um pilar de grande força para a obra iniciada, pois que era um teólogo do mais alto grau, enquanto que os romanistas temeram sua caneta como um dos inimigos mais fortes. Certo escritor católico, teve que dizer o seguinte a respeito das”Institutas”:

 

“É o Alcorão, o Talmud da heresia, a causa principal de nossa queda… o arsenal comum do  qual os oponentes da velha Igreja obtiveram emprestado as armas mais agudas. Nenhum   escrito da era da reforma é mais temido pelos católicos romanos e mais zelosa e hostilmente    combatido, que as “Instituas” de João Calvino”.

 

A cidade suíça de Genebra, debaixo da influência de Calvino como pastor e reformador, se tornou um refúgio para o qual os fugitivos podiam abrigar-se livres de perseguição e era um local onde eles aprendiam e equipavam-se como missionários e reformadores para o envio ao serviço do evangelho.

 

Verdadeiramente Genebra era o centro da reforma protestante. O imperador Philip II, filho de Charles V, expressou o pensamento de muitos inimigos da Reforma quando ele escreveu o seguinte para o Rei de França, relativo a Genebra: “Esta cidade é a fonte de todo o dano para a França e o maior inimigo de Roma.

 

A qualquer hora que precises de mim, estou pronto para ajudar, com todo o poder do meu reino, para subvertê-la”.

 

O governo francês, por sua parte, ameaçou destruir a cidade se ela não mantivesse os seus evangelistas dentro de seus limites geográficos, tendo enviado um embaixador com esta notificação àquela cidade. Os evangelistas protestantes, continuaram vertendo adiante, em desafio ao governo francês, depois que Calvino pronunciou aos magistrados da cidade de Genebra as seguintes palavras corajosas: “Já que a cidade só depende do Deus Onipotente para sua proteção, a prudência mais alta consiste na obediência mais perfeita ao Testamento dEle”.

 

Calvino nasceu na pequena cidade de Noyon, na França, em 10 de junho de 1509, quando Lutero já havia ditado suas primeiras conferências na Universidade de Wittenberg. Seu pai pertencia à classe média da cidade e trabalhava principalmente como secretário do bispo e procurador da biblioteca da catedral. Fazendo uso de tais conexões, procurou para seu filho os benefícios eclesiásticos com os quais custeasseseus estudos.

 

Com esses recursos, Calvino foi estudar em Paris, onde conheceu tanto o humanismo como a reação conservadora que se lhe opunha. A discussão teológica que tinha lugar nos seus dias levou-o a conhecer as doutrinas de Wyclif, Huss e Lutero. Porém, segundo ele mesmo disse: “estava obstinadamente atado às superstições do papado”. Em 1529 completou seus estudos em Paris, ao obter o grau de Mestre em Artes, e decidiu dedicar-se à jurisprudência. Com esse propósito, continuou seus estudos em Orleans e em Bourges, sob a orientação dos dois mais célebres juristas daquela época: Pierre de I’Estoile e Andrea Alciati. O primeiro seguia os métodos tradicionais no estudo e na interpretação das leis, enquanto o segundo era um humanista elegante e talvez algo vaidoso. Quando houve um debate entre ambos, Calvino interveio em favor do primeiro. Isto é importante porque indica que, ainda nesses tempos em que começava a desejar cultivar um espírito humanista, ela não senti simpatias pela elegância vã de que freqüentemente se viam possuídos alguns dos mais famosos humanistas.

 

Não se sabe o motivo certo que levou Calvino a abandonar a fé romana, nem a data exata em que isso ocorreu. Diferentemente de Lutero, Calvino nos diz muito pouco sobre o estado interior de sua alma. Porém o mais provável parece ser que, no meio do círculo de humanistas que freqüentava e através de seus estudos das Escrituras e da antigüidade cristã, Calvino chegou à convicção de que teria de abandonar a comunhão romana e seguir o caminho dos protestantes.

 

Em 1534, se apresentou em sua cidade natal e renunciou aos benefícios eclesiásticos que seu pai havia conseguido e que eram a sua principal fonte de sustento econômico. Se ele já estava decidido neste momento, a abandonar a igreja romana, ou se esse ato foi simplesmente um passo a mais na sua peregrinação espiritual, nos é impossível saber. O fato é que em outubro de 1534 Francisco I, até então relativamente tolerante com os protestantes, mudou sua política e, em janeiro seguinte, Calvino se exilava na cidade protestante de Basiléia.

 

Calvino sentia-se chamado a dedicar-se ao estudo e às obras literárias. Seu propósito não era de modo algum chegar a ser um dos líderes da Reforma, mas sim encontrar um lugar tranqüilo onde pudesse estudar as Escrituras e escrever sobre a nova fé. Pouco antes de chegar a Basiléia, havia escrito um breve tratado sobre o estado das almas dos mortos antes da ressurreição. Segundo ele encarava sua própria vocação, sua tarefa consistiria em escrever outros tratados como esse, que serviriam para aclarar a fé da igreja numa época de tanta confusão.

 

Portanto, seu principal projeto era um breve resumo da fé cristã do ponto de vista protestante. Até então, quase toda literatura protestante, chegava pela urgência da polêmica, e assim tratava somente dos pontos em discussão, e havia dito pouca coisa sobre outras doutrinas fundamentais do cristianismo, como por exemplo a Trindade, a Encarnação, etc. O que Calvino se propunha então era cobrir esse vazio com um breve manual ao qual deu o título de “Institutas da Religião Cristã”.

 

A primeira edição surgiu em Basiléia, no ano de 1536. Era um livro de 516 páginas, porém de formato pequeno, de modo que cabia facilmente nos amplos bolsos que se usavam antigamente, e podia, dessarte, circular dissimuladamente pela França. Constava de apenas seis capítulos. Os primeiros quatro tratavam sobre a lei, o Credo, o Pai Nosso e os sacramentos. Os últimos dois , de tom mais polêmico, resumiam a posição protestante com respeito aos “falsos sacramentos” romanos e a liberdade cristã.

 

O êxito desta obra foi imediato e surpreendente. Em nove meses se esgotou a edição, que, por estar em latim, era acessível a leitores de diversas nacionalidades.

 

A partir de então Calvino continuou preparando edições sucessivas das Institutas que foi crescendo segundo iam passando os anos. As diversas polêmicas da época, as opiniões de vários grupos que Calvino considerava errados e as necessidades práticas da igreja, foram contribuindo para o crescimento da obra, de tal maneira que para seguirmos o curso do desenvolvimento teológico de Calvino e das polêmicas em que se envolveu, bastaria comparar as edições sucessivas das Institutas. O que não é possível fazer aqui.

 

Foram editadas cerca de nove vezes, sendo que as últimas edições datam de 1559 e 1560. Este texto definitivo dista muito de ser o pequeno manual de doutrina que Calvino tinha tido em mente publicar quando da primeira edição, pois os seis capítulos de 1536 se haviam transformado em quatro livros com um total de oitenta capítulos. O primeiro livro trata sobre Deus e sua revelação, assim como da criação e da natureza do ser humano, porém sem incluir a queda e a salvação. O segundo livro trata sobre Deus como redentor e o modo em que se nos dá a conhecer primeiramente no Antigo Testamento, e depois em Jesus Cristo. O terceiro livro trata sobre como, pelo Espírito, podemos participar da graça de Jesus Cristo e dos frutos que Ele produz. Por último, o quarto livro trata dos “meios externos” para essa participação, isto é, fala-nos sobre a igreja e os sacramentos. Por toda obra se manifesta um conhecimento profundo, não só

das Escrituras, mas também de antigos escritores cristãos, particularmente Agostinho, e as controvérsias teológicas do século XVI. Sem dúvida alguma, esta foi a obra-prima de teologia sistemática protestante em

todo esse século.

 

Mas , na realidade, Calvino não tinha a menor intenção de se dedicar ativamente à obra de reformador. Pois mesmo sentindo grande admiração por aqueles que assim fizeram, seu maior desejo era o de poder se dedicar ao estudo e a literatura reformada, não se vendo como pastor ou mesmo capacitado para tal obra.

 

Seu objetivo era de se estabelecer em Estrasburgo, onde a causa reformadora havia triunfado, e onde havia uma grande atividade teológica e literária que lhe parecia oferecer um ambiente propício para seus trabalhos.

 

Mas, quando para lá se dirigia, teve de desviar seu caminho e passar por Genebra, em virtude de uma guerra. A situação em Genebra diferia em muito da de Estrasburgo, pois era muito confusa, tendo em vista a recem-chegada fé reformada levada por Guilherme Farel e um grupo de missionários advindo de Berna, que necessitava muito de ajuda para conduzir a vida religiosa na cidade.

 

Calvino chegou a Genebra com a intenção de passar ali, não mais que um dia , e prosseguir caminho para Estrasburgo. Porém, alguém avisou a Farel da presença de Calvino, o autor das Institutas, que logo foi procurado e com quem obteve uma entrevista marcante.

 

Farel, que “ardia com um maravilhoso zelo pelo avanço do evangelho”, apresentou a Calvino várias razões pelas quais precisava de sua presença em Genebra. Calvino escutou atentamente seu interlocutor, uns quinze anos mais velho que ele, porém se negou a aceitar seu rogo, dizendo-lhe que tinha projetado certos estudos e que não lhe parecia possível terminá-los na situação em que Farel descrevia. Quando por fim Farel tinha esgotado todos os seus argumentos, sem conseguir convencer ao jovem teólogo apelou ao Senhor de ambos e insurgiu contra o teólogo com voz estridente: “Deus amaldiçoe teu descanso e a tranqüilidade que buscas para estudar, se diante de uma necessidade tão grande te retiras e te negas a prestar socorro e ajuda”.

 

Diante de tal imprecação, nos conta Calvino: “essas palavras me espantaram e me quebrantaram e desisti da viagem que tinha empreendido”. E assim começou a carreira de João Calvino como reformador de Genebra.

 

Mesmo que de início Calvino aceitasse simplesmente permanecer na cidade, e colaborar com Farel, logo sua habilidade teológica, seu conhecimento da jurisprudência e seu zelo reformador fizeram dele o personagem central da vida religiosa da cidade, enquanto que Farel gostosamente se tornava um seu colaborador. Porém nem todos estavam dispostos a seguir o caminho da reforma que Calvino e Farel haviam traçado. E quando começaram a exigir que se seguissem verdadeiramente os princípios protestantes, muitos dos burgueses que haviam apoiado a ruptura com Roma começaram a oferecer-lhes resistência, ao mesmo tempo que faziam chegar a outras cidades protestantes da Suíça rumores sobre supostos erros dos reformadores genebrinos. O conflito se travou finalmente em torno do assunto do direito da excomunhão. Calvino insistia em que, para que a vida religiosa se conformasse verdadeiramente aos princípios reformadores, era necessário excomungar os pecadores impenitentes. Diante do que pareceu um rigor excessivo, o governo da cidade se negou a seguir os conselhos de Calvino. Posteriormente, o conflito foi tal que Calvino foi desterrado. O fiel Farel, que poderia permanecer na cidade escolheu antes o exílio que tornar-se um instrumento dos burgueses, que queriam uma religião com toda sorte de liberdade e poucas obrigações.

 

Calvino viu nisso tudo uma porta que o céu lhe abria para continuar sua vida de estudos e retiro, que havia projetado, e se dirigiu a Estrasburgo. Porém nessa cidade o chefe do movimento reformador, Martinho Bucero, também não o deixou em paz. Havia ali um forte contingente de franceses, exilados por motivos religiosos, carentes de direção pastoral, e Bucero fez com que Calvino se encarregasse deles. Foi aí então que o nosso teólogo produziu uma liturgia francesa e traduziu vários salmos e outros hinos, para que fossem cantados pelos franceses exilados. Além disso produziu a Segunda edição das Institutas, e se casou com a viúva Idelette de Bure, com quem foi feliz até que a morte o levou em 1549.

 

Os três anos que Calvino passou em Estrasburgo foram provavelmente os mais felizes e tranqüilos de sua vida. Porém apesar disso, lhe doía sempre não Ter podido continuar a obra reformadora em Genebra, por cuja igreja sentia um grande amor e responsabilidade. Portanto, quando as circunstâncias mudaram na cidade suíça e o governo o convidou a regressar, Calvino não vacilou e uma vez mais ficou com a responsabilidade da obra reformadora em Genebra.

 

Foi em meados de 1541 que Calvino regressou a Genebra. Uma de suas primeira ações foi redigir as Ordenanças Eclesiásticas, que foram aprovadas pouco meses depois pelo governo da cidade, se bem que com algumas emendas. Segundo se estabelecia nelas, o governo da igreja ficava principalmente nas mãos do Consistório, que era formado pelo pastores e por doze leigos que recebiam o nome de “anciãos”. Visto que os pastores eram cinco, os leigos eram a maioria no Consistório. Porém apesar disso o impacto pessoal de Calvino era tal que quase sempre esse corpo seguia suas orientações e seus desejos.

 

Em 1559 Calvino viu cumprir-se um de sues sonhos, ao ser fundada a Academia de Genebra, sob a direção de Teodoro de Beza, que depois sucedeu Calvino como chefe religioso da cidade. Naquela academia se formou a juventude genebrina segundo os princípios calvinistas, Porém seu principal impacto se deve a que nela cursaram estudos superiores pessoas procedentes de vários outros países, que depois levaram o calvinismo a eles.

 

 

Transcrição parcial de “A Era dos Reformadores” – Justo L. Gonzalez, publicado pela  Sociedade Religiosa Edições Vida Nova.

CALVINO E A REFORMA PROTESTANTE

 

Autor: Presb. Manoel Canuto

 

É importante saber sobre nossa herança e a pregação da fé. Uma das razões porque devemos olhar para a história é por que aprendemos a orar. Orar pelos homens que precisamos na Igreja de Cristo. Vendo os grandes homens do passado sabemos orar por quais tipos de homens precisamos nas Igrejas. Precisamos de homens de coragem, que saibam ficar de pé defendendo a salvação que uma vez nos foi entregue; homens como Barnabé e Paulo, que estejam prontos a arriscar suas próprias vidas; que estejam dispostos a pregar a verdade mesmo quando custar “muito caro”; que defendam a verdade custe o que custar.

 

Creio que Deus prepara a hora para os homens e os homens para a hora. Se lermos Efésios capítulo 4 em diante, vemos que os homens dados por Deus para a Igreja são aqueles que a Igreja precisa. Precisamos de homens novamente como Atanásio, que estava pronto a ficar em pé contra todo mundo. O mundo troca os ensinamentos bíblicos para justificar aquela maneira que os homens tem de pensar e agir. Mas Atanásio ficou de pé com a verdade, independente de qualquer consequência. Cristo é Deus de verdade!!

 

A outra razão pela qual devemos olhar para a história é para entendermos como Deus trouxe avivamentos no passado. Para nós a leitura da vida de homens do passado que foram usados em grandes avivamentos, nos traz encorajamento. Nos últimos anos tem havido um despertamento no ensino de que a salvação vem do Senhor, que a salvação é do Senhor. Temos visto e tomado conhecimento de que em todo mundo há evidências na mudança da pregação do Evangelho. O antigo Evangelho bíblico tem sido empurrado para o lado e hoje temos uma mensagem para a sociedade de consumo, em que se prega aquilo que as pessoas gostam e aceitam. Dessa forma é oferecido como uma loja oferece seus produtos para agradar ao cliente, aquilo que eles querem. Mas precisamos hoje daquele Evangelho que levou multidões ao quebrantamento, apesar de todas as suas pontas agudas. Este é o Evangelho da graça e da soberania de Deus. Somos salvos pela graça de Deus. O resultado deste “evangelho” superficial que hoje é pregado, que tem medo de ferir as pessoas, tem levado a gerar crentes carnais que nada sabem do temor de Deus em seus corações. Este “evangelho” que se prega hoje está centralizado no homem.

 

Vamos estudar a vida de um campeão da fé: JOÃO CALVINO. Que ele seja um exemplo para nós. Lendo Jr.9:23-24, “Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em entender, e em me conhecer, que eu sou o Senhor, que faço benevolência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor” vemos quem foi este herói da fé. Calvino foi um grande campeão da fé e o nosso desejo é estudar a vida deste homem, sua grandeza, e dar toda glória a Deus. Estes versículos falam da sua vida, pois deu toda glória a Deus e de fato trouxe uma grande influência no mundo ocidental.

 

Vejamos Calvino como um homem escolhido por Deus para dar-Lhe glória e exaltar o Seu nome. Vamos ver seis partes de sua vida de forma sucinta.

 

1º Calvino como ESTUDANTE ou ESTUDIOSO. (Omitido nesta transcrição)

2º Calvino como EXPOSITOR e PASTOR. (Omitido nesta transcrição)

3º Calvino como ESCRITOR. (Omitido nesta transcrição)

4º Calvino – UM LIDER ECLESIÁSTICO. (Omitido nesta transcrição)

5º Calvino como EVANGELISTA. (Omitido nesta transcrição)

6º Calvino como EXEMPLO.

 

Foi um estudioso, escritor, expositor, líder, evangelista, mas também um exemplo. Ele sempre queria ter paz. Se lermos algumas de suas obras veremos que foi um homem valente, muito franco, não tinha “arrodeios”, era muito direito. Assim ele era nas suas obras, nas suas pregações, mas era um homem de paz e que queria paz entre os irmãos.

 

Casou-se com uma viúva em agosto de 1540 e por nove anos viveu feliz com ela. Seu nome Idalette e sobre ela dizia Calvino: “Foi a mais excelente companheira da minha vida e ajudadora do meu ministério. Após sua morte (1549), Calvino criou os filhos dela, cuidando, ensinando sobre a humildade e o trabalho.

 

Nós temos sido dedicados trabalhadores só enquanto está tudo bem conosco e temos saúde. Mas Calvino era um homem muito doente, pois tinha asma, úlcera gástrica, cálculo renal, cálculo biliar e os historiadores dizem que ele tinha mais de quarenta tipos de doenças, porém sempre estava trabalhando e pregando. Pregava duas vezes por dia e chegava a pregar três vezes no Domingo. Escrevia cartas para a Inglaterra, Escócia, França e diferentes partes da Europa. Esta é um grande exemplo para nós.

 

Em 1537 Calvino e Farel conseguiram a aprovação de um decreto que determinava: A Ceia do Senhor será celebrada em ocasiões preestabelecidas; um catecismo de criança seria preparado; o canto congregacional seria adotado e os membros em pecado seriam disciplinados. Como se recusaram a dar a Ceia a alguns, isso gerou uma grande controvérsia que acabou levando-os ao exílio em 1538. Calvino foi para Estrasburgo onde pastoreou um grupo de refugiados franceses. Mas em 1541 é convidado a voltar após as lideranças reformadas obterem o controle da cidade de Genebra.

 

Em 1559 viu cumprir-se um dos seus sonhos ao ser fundada a Academia de Genebra sob a direção de Theodoro Beza, que foi seu sucessor como chefe religioso após sua morte. Nesta academia estudaram jovens de várias regiões da Europa segundo os princípios calvinistas.

 

Morreu em 27 de maio de 1564 após um episódio de hemoptise (talvez pela tuberculose). Só mesmo a graça de Deus, operando em um organismo tão frágil, explique o trabalho que este homem realizou e que até hoje dá seus frutos.

 

Eis algumas de suas últimas palavras: “O Senhor teve piedade de mim, sua pobre criatura; tirou-me das profundezas da idolatria na qual estava vivendo e levou0me à cruz do Evangelho da qual eu era completamente indigno; eu me via através de muitos defeitos que me faziam merecer mil vezes a Sua repulsa, mas Ele me estendeu a Sua misericórdia utilizando-me para anunciar a verdade do Evangelho. Por Sua infinita bondade, toda bênção que Ele tem dispensado por Sua graça, tem sido imerecida. Meu refúgio esta em um Pai de misericórdia para um miserável pecador como eu.”

 

Não se sabe onde foi sepultado, pois não queria Ter nenhum monumento, nada, tão somente que a Deus fosse dada toda glória. Muitas vezes começava suas mensagens dizendo: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Ele nos dá o exemplo de prestar toda glória a Deus.

 

Não é sem razão que os slogans da Reforma são: SOLI DEO GLORIA, SOLA SCRIPTURA, SOLA FIDE, SOLA GRATIA, SOLO CHRISTI.

PROTESTANTISMO

 

Movimento  cristão surgido com a Reforma, iniciado pelo teólogo alemão Martinho Lutero  (1483-1546), no século XVI, que rompe com a Igreja Católica. As críticas de Lutero ao catolicismo começam em 1517. Defende que a fé é o elemento fundamental para a salvação do indivíduo, condena a venda de indulgências pela Igreja e o relaxamento dos costumes do clero da época. Fixa na porta da igreja do Castelo de Wittenberg as 95 teses consideradas heréticas. Em 1519, Lutero afasta-se definitivamente do catolicismo, ao negar o primado do Papa. Dois anos depois é excomungado pelo Papa Leão X. Com a simpatia de diferentes setores da nobreza e dos camponeses, o luteranismo difunde-se na Alemanha. Lutero traduz a  Bíblia para o alemão, abole a confissão obrigatória, o jejum e o celibato clerical. Os protestantes também negam o culto à Virgem Maria e aos santos. O nome protestante é atribuído, na época, aos partidários da Reforma que protestam contra a Dieta (assembléia convocada pelos reis) de Espira (1529). A Igreja Protestante, também conhecida como Evangélica, reivindica a reaproximação da Igreja ao cristianismo primitivo.

O protestantismo divide-se em protestantismo histórico, criado a partir da Reforma, e protestantismo pentecostal, surgido no começo do século XX, com ênfase no exorcismo e na veneração do Espírito Santo. Todas as igrejas protestantes celebram Natal, Páscoa, Pentecostes e as demais festividades. Também existem as comemorações particulares a cada uma das igrejas protestantes, como o Dia de Ação de Graças, celebrado pelos luteranos, e o Dia da Escola Dominical, comemorado pelos metodistas. A liturgia protestante é simplificada e os sacramentos são o batismo e a eucaristia.

Protestantismo Histórico

 

Corrente do protestantismo que compreende as igrejas formadas a partir da Reforma, como a Luterana, a Presbiteriana, a Anglicana, a Batista e a Metodista.

 

Igreja Luterana

É a primeira Igreja saída da Reforma, fundada por Martinho Lutero. A comunidade pode escolher seus pastores e todos os batizados são considerados sacerdotes. Acentua-se a autoridade única da Bíblia, não sendo necessária a interpretação de um sacerdote. Cada igreja é independente e não é submetida a uma hierarquia.

 

Igreja Presbiteriana

Modalidade protestante que não reconhece a autoridade episcopal (dos bispos) nem aceita hierarquia superior à dos presbíteros (sacerdotes). Fundada pelo escocês John Knox (1505-1572), seus princípios fundamentais são enunciados na Confissão de Fé de Westminster, em 1643. Segue a doutrina religiosa do teólogo francês João Calvino (1509-1564), que funda em Genebra uma corrente do protestantismo. Calvino afirma o dogma da predestinação, segundo o qual o homem está destinado à salvação ou à condenação. Salva-se quem santificar a vida cumprindo seus deveres. Defende que a Igreja e o Estado devem estar separados, com predomínio da primeira sobre o último. Enfatiza especialmente a leitura e interpretação da Bíblia e admite os sacramentos do batismo e da eucaristia.

Igreja Anglicana

Igreja oficial da Inglaterra criada pelo rei Henrique VIII (1491-1547), que em 1534 rompe com a Igreja Católica. Usa como pretexto a recusa do Papa Clemente VII em aceitar seu divórcio de Catarina de Aragão. Com o apoio do Parlamento e do povo, descontentes com os privilégios e poderes eclesiásticos, Henrique VIII se proclama chefe supremo da Igreja Anglicana. Da Inglaterra difunde-se para as colônias, especialmente na América do Norte. No Brasil, é conhecida como Igreja Episcopal. Assemelha-se ao catolicismo quanto à liturgia. O anglicanismo admite mulheres como sacerdotes desde 1994.

 

Igreja Batista

Criada em Londres, em 1611, a partir de um grupo de luteranos liderados por Thomas Helwys (1550-1616). Valoriza o sacramento do batismo e defende a sua realização em idade adulta. Para os batistas, a salvação eterna não está relacionada com a realização de boas obras. Difundida principalmente nos Estados Unidos, a Igreja Batista não utiliza a cruz como símbolo.

 

Igreja Metodista

Formada em 1740, a partir da obra do clérigo anglicano John Wesley (1703-1791), tem forte influência calvinista. Wesley passa a fazer reuniões metódicas para exercícios de meditação mística, daí o nome de metodistas. A Igreja Metodista aceita o batismo simbólico das crianças. Defende que a Palavra de Deus é suficiente para a salvação, mas critica a interpretação individual dos textos sagrados. Acredita na cura divina e na manifestação do Espírito Santo.

Protestantismo Pentecostal

Corrente do protestantismo que surge em Los Angeles, Estados Unidos, em 1906, e se difunde rapidamente pelos países do Terceiro Mundo. Desenvolve-se a partir de uma dissidência dos metodistas. O pentecostalismo reverencia o Espírito Santo, que concede aos apóstolos o dom de curar. Os cultos são emotivos e teatrais. Há ênfase na pregação do Evangelho, nas orações coletivas feitas em voz alta e nos rituais de exorcismo e cura, realizados em grandes concentrações públicas. Divide-se em pentecostalismo tradicional e neopentecostalismo.

 

Pentecostalismo tradicional

As principais igrejas são Assembléia de Deus, Congregação Cristã do Brasil, Evangelho Quadrangular e O Brasil para Cristo. A Assembléia de Deus é a maior igreja pentecostal do Brasil. Surge em 1911, de uma cisão dos batistas de Belém (PA). Nos cultos, os fiéis cantam e oram em voz alta, com os braços estendidos. A Congregação Cristã do Brasil existe desde 1909. Durante os cultos, homens e mulheres sentam-se em lados separados nos templos. A Evangelho Quadrangular, criada nos Estados Unidos em 1918, chega ao Brasil na década de 40. Enfatiza os dons da cura e de falar em línguas desconhecidas. O Brasil para Cristo é fundada em 1955 pelo brasileiro Manuel de Melo, que foi pastor da Assembléia de Deus e da Evangelho Quadrangular. Os cultos são marcados pelas orações espontâneas e pelos testemunhos dos fiéis, que também podem pregar.

 

Neopentecostalismo

Movimento surgido na década de 70 e que dá maior ênfase aos rituais de exorcismo e cura. Segue a Teologia da Prosperidade, que defende que a felicidade e o sucesso devem ser encontrados nesta vida. Os neopentecostais têm hábitos morais menos rígidos do que os pentecostais tradicionais. A principal igreja é a Universal do Reino de Deus, fundada por Edir Macedo  em 1977. Com 3,5 milhões de membros, a Universal é a igreja que mais cresce no Brasil, onde tem cerca de 2.100 templos, e já se espalhou para 34 países. Considera que o mundo está tomado por demônios e a tarefa dos pastores é exorcizá-los.

Pára-Protestantes

 

Formam um grupo específico dentro do protestantismo porque acreditam que a própria doutrina foi revelada por uma ação divina especial. As principais igrejas são a Mórmon, a Adventista e a Testemunhas de Jeová.

 

Igreja Adventista

Doutrina criada nos Estados Unidos por William Miller (1782-1849), que anunciava a volta de Cristo à Terra em 1844. Apesar de não realizada a profecia, continua a incorporar novos fiéis. Divide-se em vários ramos, como Cristãos Adventistas União da Vida e Advento; e Adventistas do Sétimo Dia, que consideram o sábado dia sagrado. Os adventistas acreditam que a volta de Cristo está próxima e que os mortos dormem até a ressurreição.

 

Igreja Mórmon

Também chamada de Igreja de Jesus Cristo dos Santos do Último Dia, é fundada em 1830 pelo americano Joseph Smith (1805-1844). Mórmon é o nome do livro que o fundador teria recebido das mãos de um profeta.

 

Testemunhas de Jeová

Igreja formada em 1875 pelo americano Charles Russel (1852-1916), resulta da fragmentação da Igreja Adventista. Os fiéis rejeitam as noções de imortalidade da alma e de inferno. Acreditam que religião e governo são criações do diabo. Defendem a moral rígida e recusam-se a prestar o serviço militar. Seus locais de encontro chamam-se salões do reino.

“EVANGÉLICO”

 

Os rótulos geralmente são confusos, especialmente quando o conteúdo da embalagem muda. Suco de uva pode virar vinagre com o passar dos anos na adega, porém o rótulo não muda junto com as mudanças na substância. 0 mesmo vale para o termo evangélico”.

 

Desde o “Ano do Evangélico”, correspondente ao bicentenário de nossa nação (no caso os EUA) em 1976, o termo – pelo menos na América do Norte – veio a identificar aqueles que salientam um determinada marca da política, uma abordagem moralista e freqüentemente legalista da vida, e certo tipo de imitação, “cafona” de estilo de evangelismo. Para alguns o termo compreende o emocionalismo que eles vêem na televisão religiosa. Para outros, hipocrisia e justiça própria. E aí há as memórias que muitos de nós, que fomos criados como evangélicos, temos: ambientes familiares fortes e cuidadosos; um senso de pertencer a um mesmo lugar, com os amigos que gostam de conversar das “coisas do Senhor”.

 

Independente do seu passado, é importante entender o significado do termo “evangélico”.

 

As pessoas só começaram a usar o rótulo no século XVI, designando aqueles que abraçaram o Evangelho que havia – num sentido bem real – sido recuperado pela Reforma Protestante naquele século. “Evangélico” vem de “evangel”, que é o termo grego para “evangelho”. Deste modo, os “evangélicos” eram luteranos e calvinistas que queriam recuperar o evangel e proclamá-lo dos altos dos telhados. Era uma designação empregada para colocar os Protestantes num agudo contraste com os Católicos Romanos e “seitas”. Mas para entender por que estes Protestantes pensavam que eram realmente aqueles que recuperaram o verdadeiro e bíblico Evangelho, temos que entender o que era aquele evangelho.

 

O “Evangel”

 

A Reforma era uma coleção de “solas” – esta é a palavra latina para “somente”. Eles vibravam ao dizer “Sola Scriptura!”, significando, “Somente as Escrituras”. A Bíblia era a “única regra para fé e prática” (Westminster) para os reformadores. Você vê que a igreja acreditava que a Bíblia era totalmente inspirada e infalível, mas a igreja era o único intérprete infalível da Bíblia. Os Reformadores acreditavam que a Tradição era importante e que os Cristãos não a deveriam interpretar por eles mesmos, mas que todos os cristãos sejam clérigos ou leigos, deveriam chegar a um comum entendimento e interpretação das Escrituras juntos. A Bíblia não deveria ser exclusivamente deixada aos “espertos”, mas isso nuncasignificou para os Reformadores que cada cristão deveria presumir que ele ou ela pudessem chegar a interpretações da Bíblia sem a orientação e assistência da Igreja.

 

0 principal ponto de “Sola Scriptura” então, era este: Não deveria ser permitido à Igreja fazer regras ou doutrinas fora das Escrituras. Não existem novas revelações, nem papas que ouvem diretamente a voz de Deus, e nada que a Bíblia não apresente deveria ser ordenado aos cristãos.

 

0 segundo “sola” era “solo Christus”, “Somente Cristo”. Isto não queria dizer que os Reformadores não criam na Trindade – pois o Pai e o Espírito Santo eram igualmente divinos, mas que Cristo, sendo o “Deus-Homem” e nosso único Mediador, é o “Homem de frente” para a Trindade. “Aquele que me vê a Mim, vê ao Pai que me enviou”, disse Jesus. Num tempo em que meros seres humanos estão tomando o lugar de Cristo como Mediador entre Deus e cristãos, os reformadores proclamaram juntamente com Paulo: “Há somente um Deus e um Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem” (1 Tim. 2: 5). Eu cresci em igrejas onde tínhamos “apelos ao altar” e esta pode ser a coisa mais próxima que nós cristãos modernos temos do “chamado ao altar” medieval, a missa. Em nossas igrejas, o pastor atuaria como mediador, vendo nossa mão levantada “enquanto cada cabeça está baixa e cada olho fechado”, e nós iríamos para a frente onde ele estava, o chamado “altar” e repetiríamos uma oração após ele. Então ele afirmaria que, tendo “feito a oração”, nós agora estaríamos salvos. Eu me lembro de Ter  sido “salvo” novamente, e novamente. Quando me senti culpado após uma particular e desagradável noite de sábado, lá ia eu novamente ao altar. Cristãos medievais estavam sempre apavorados até a morte, por ver que poderiam morrer com pecados não confessados e assim iriam para o inferno. Assim, a missa era uma oportunidade de “estar em dia com Deus” e de “encher a banheira” que tinha tido um vazamento por causa do pecado.

 

Os reformadores, porém, diriam àqueles dentre nós que vivem ansiosos quanto ao fato de estar ou não dentro do favor de Deus, ou se estamos cedendo demais ou obtendo vitória: “Somente Cristo!” É a Sua vida e não a nossa, que conta para a nossa salvação; foi a Sua morte sacrificial e ressurreição vitoriosa que nos assegurou vida eterna. Porque Ele “entregou tudo”; o Seu mérito cobre totalmente o nosso demérito.

 

E isso nos traz ao próximo “sola” – “sola gracia” (Somente a Graça!) Roma acreditava na graça; de fato, a Igreja insistia que, sem a graça, ninguém poderia ser salvo. Só que a graça era o tipo de “um pó mágico” que ajudava a pessoa a viver uma vida melhor – com a ajuda de Deus. Os reformadores, em contrapartida, diziam que a graça não é uma substância que Deus nos dá para vivermos uma vida melhor, mas sim uma atitude em relação a nós, aceitando-nos como justos por causa da santidade de Cristo, e não nossa.

 

Por isso eles lançaram o quarto “somente” (sola), que sabemos ser “sola fide” (somente a fé). Considerando que somos salvos somente pela graça, como obtemos essa graça? Roma argumentava que essa graça era distribuída pela igreja através dos vários métodos que os “altos escalões” haviam inventado. Fé mais amor, ou fé mais boas obras, ou alguma coisa assim, tornou-se a fórmula para a salvação. Os reformadores ao contrário, insistiam que do início ao fim, “salvação é obra do Senhor” (João 2: 9). “0 Espírito dá vida; o homem em nada colabora” (João 6: 55). “Não depende da decisão, nem do esforço do homem, mas da misericórdia de Deus” (Rom 9: 16). Assim a fé em si mesma é um dom da graça de Deus e não se pode dizer dela que seja “a coisa” que nós fazemos na salvação: Pois nós não somos nascidos da vontade da carne ou da vontade do homem, mas de Deus” ( João 1: 13).

 

No minuto em que uma pessoa olha para “Cristo somente” para sua salvação, dependendo da Sua vida santa e sacrifício substitutivo na cruz, naquele exato momento ela ou ele é justificado (posto em posição de justiça, declarado justo, santo, perfeito). A própria santidade de Cristo é imputada (creditada) na conta do crente, como se ele ou ela tivessem vivido uma vida perfeita de obediência – mesmo enquanto aquela pessoa continua a cair repetidamente no pecado durante sua vida. 0 Cristão não é alguém que está olhando no espelho espiritual, medindo a proximidade de Deus pela experiência e progresso na santidade, mas é antes alguém que está “olhando para Cristo, o Autor e Consumador da nossa fé”( Heb. 12: 2). Resumindo, é o estilo de vida de Cristo, não o nosso, que atinge os requisitos de Deus, e é por Ele que a justiça pode ser transferida para nossa conta, pela fé (olhando somente para Cristo).

 

Finalmente, os reformadores disseram que tudo isso significa que Deus é quem tem todo o crédito. “Soli Deo Gloria” (Somente a Deus seja a Glória) era a forma que eles colocavam – nosso último “sola”, que quer dizer, “A Deus somente seja a Glória” Um evangélico, portanto, era centrado em Deus; alguém que estava convencido de que Deus havia feito tudo e que não restava nada que o homem considerasse seu a não ser seu próprio pecado. Isto não apenas transformou radicalmente a vida devocional dos crentes que o abraçaram, mas toda a estrutura social também.

 

Numa velha taverna do século XVII em Heidelberg, na Alemanha, lê-se no alto “Soli Deo Gloria!” Johann Sebastian Bach, o famoso compositor, assinou todas as suas composições com aquele slogan da Reforma.

Do mesmo modo, um outro compositor, Handel, declarou, “Que privilégio é ser membro da igreja evangélica, saber que meus pecados estão perdoados. Se nós fossemos deixados à mercê de nós mesmos, meu Deus, o que seria de nós?” Grandes e nobres vidas requerem grandes e nobres pensamentos, e a soberania e a graça de Deus são, para o crente, grandes e nobres pensamentos. Os reformadores disseram a Roma o que J.B.Philipps, o tradutor inglês da Bíblia, disse à igreja contemporânea: “O Deus de vocês é muito pequeno”.

 

A Reforma, a qual produziu o termo “evangélico”, também recuperou a doutrina bíblica do “sacerdócio universal de todos os santos” e a noção bíblica do chamado e vocação. A igreja tinha dividido os cristãos em primeira classe (aqueles que serviriam no “ministério cristão em tempo integral”) e segunda classe (aqueles que estavam empregados em serviços “seculares”). Os reformadores concediam, por direito, que todos os cristãos são sacerdotes e são, por isso, ministros de Deus, independente de estarem varrendo uma sala para a glória de Deus, moldando uma peça de cerâmica, defendendo um cliente na corte, curando um paciente, ordenhando uma vaca, ou conduzindo uma congregação no louvor. Não há o “secular” e o “sagrado” – Deus criou o mundo inteiro e fez a vida neste mundo como algo inseparável de nossa própria humanidade.

 

Como nós ajustamos as coisas hoje?

 

A questão, é claro, é se “evangélico” hoje significa o que significou há quinhentos anos.

 

Em primeiro lugar, muitos dos evangélicos de hoje têm uma visão das Escrituras inferior à que a igreja de Roma tinha no século XVI. Instituições evangélicas de peso duvidam da confiabilidade da Bíblia e de sua infalibilidade – a menos, claro, que se trate daquilo que eles já decidiram que é verdade. Outros acreditam que a Bíblia é inerrante, porém acrescentam novas regras e revelações ao cânon. “A Bíblia é suficiente”, nos aconselhariam os reformadores. Os sermões, com muita freqüência, são “pop-inspiracionalistas” discursos superficiais de “Como criar filhos positivos” ou “Como ter uma auto-estima” em detrimento de sérias exposições das Escrituras. De acordo com o Gallup, “Os EUA são um país de iletrados bíblicos”, ainda que 60 milhões deles se consideram “evangélicos”.

 

Em segundo lugar, muitos evangélicos modernos também não acreditam que Cristo é suficiente. Às vezes pessoas muito boas e nobres substituem Cristo como nosso único Mediador, assim como o Espírito Santo. Enquanto louvamos o Espírito juntamente com o Pai e o Filho, o Filho tem este papel único de nosso único advogado e Mediador. Não devemos olhar para a obra do Espírito nos nossos corações, mas para a obra de cristo na cruz. Às vezes, nós temos mediadores humanos que não são o Deus-Homem Jesus Cristo. Precisamos de outras coisas pelo meio, como a figura do pastor no “apelo” do altar ao qual me referi anteriormente. Não muito tempo atrás eu vi um tele-evangelista de sucesso tirando o fone do gancho e informando seus telespectadores que “esta é sua conexão com Deus”. Uma banda secular, “Depeche Mode”, canta sobre “Seu próprio Jesus Pessoal” que pode ser contactado ao se pegar no fone e fazendo sua confissão. Enquanto estivermos neste assunto, também deveríamos mencionar que foi a venda de indulgências de John Tetzel (redução do período no purgatório em troca de valores em dinheiro) que inspirou as “Noventa e Cinco Teses “de Lutero, desencadeando a Reforma. “Quando a moeda bate no cofre”, o coro cantava, “uma alma do purgatório é vivificada”. Será que isso realmente é diferente da venda da salvação que temos visto na televisão cristã, rádio, e mesmo em muitas igrejas? Dinheiro e salvação têm sido distorcidos para serem uma coisa só no meio de muitos de nós. “Eles vendem salvação a você”, canta Ray Stevens, “enquanto eles cantam ‘Amazing Grace’ (‘Graça Maravilhosa’)”.

 

Muitos evangélicos hoje crêem que “Somente a Graça” (sola gracia) é algo como livre-arbítrio, uma decisão, uma oração, uma ida até a frente, uma segunda bênção, algo que nós façamos por Deus que nos dará confiança de sermos alvo do Seu favor. Doutrinas como eleição, justificação e regeneração são discutidas quase que nunca, porque elas mostram o quadro de uma humanidade que é incapaz e nem ao menos pode cooperar com Deus em matéria de salvação. Se nós formos salvos é Deus e Deus somente que deverá faze-lo.

 

E sobre “Somente a Fé” (sola fide)? Muitos evangélicos acham que a fé não é suficiente. Se um indivíduo crê em Cristo e daí sai e o anuncia, será que a fé é suficiente? Alguns insistem que a fé mais a entrega, ou a fé mais a obediência, ou fé mais um sincero desejo de servir ao Senhor servirão como uma fórmula. 0 fato de que os evangélicos hoje lutam com estas questões indica que nós não ouvimos o “som seguro” de “Somente a Fé” em nossas igrejas. Fé é suficiente porque Cristo é suficiente.

 

Como se comparariam os evangélicos de hoje com os seus predecessores em matéria de “Somente a Deus seja a Glória”? Auto-estima, glória-própria, centralidade do “eu” parecem dominar a pregação, ensino e a literatura popular do mundo evangélico. Os evangélicos de hoje sabem muito pouco do grande Deus dos reformadores – um Deus que faz tudo conforme o Seu agrado, em relação aos céus e às pessoas sobre a terra e “que faz tudo conforme o conselho da Sua vontade” (Dn. 4; Ef. 1: 11). Os evangélicos hoje, refletindo sua cultura e sociedade mais ampla, estão intimidados por um Deus que é Deus. Porém que outro Deus é digno de confiança? Em poucas palavras, que outro Deus existe? Louvar ao Deus de uma experiência pessoal ou o Deus de preferência pessoal é louvar um ídolo. Os reformadores levaram isso a sério, e aqueles que quiserem ser evangélicos genuínos também devem faze-lo.

 

 

 

 

 

 

 


IGREJA METODISTA – NA VANGUARDA DO EVAN-GELHO

 

História da Igreja Metodista é marcada por pioneirismo e vocação missionária

 

Por Carlos Fernandes

 

“Creio que uma porta oportuna para pregação do Evangelho está aberta neste vasto império. Os privilégios     religiosos permitidos pelo governo do Brasil são muito mais tolerantes do que eu esperava achar em um país     católico. (…) Diversas pessoas parecem preocupadas com suas almas e querem ser remidas dos seus pecados.

 

Formei uma pequena classe dos que desejam fugir da ira vindoura’’. Foi nestes termos que o jovem pastor     Fourtain Pitts, do Tenesse (EUA), dirigiu-se ao superiores da Sociedade Missionária Metodista, dando conta dos     resultados de sua primeira incursão no Rio de Janeiro. A carta, datada de 2 de setembro de 1835, até parece     extraída das páginas do Novo Testamento – guardadas, é claro, as proporções e a diferença de quase 19     séculos. A epístola de Pitts, além de pitoresca, é o marco do surgimento da igreja Metodista em território     nacional.

 

Passados 162 anos, o trabalho de Pitt e de outros pioneiros que o seguiram rendeu frutos , como diz a     Bíblia, a 30, 60 e 100 por um. Os metodistas são hoje uma das maiores e mais tradicionais denominações     evangélicas do Brasil, com cerca de 115 mil fiéis espalhados por todo o país. Embora só tenha chegado aqui em     meados do século passado, o metodismo é bem mais antigo. O movimento surgiu no início so século 18, fruto do      trabalho iniciado por John e Charles Wesley que incendiou espiritualmente a Grã-Bretanha. Como toda caminhada tem, seus percalços, a trajetória dos metodistas teve pedras no caminho. Após um  período e expansão, no qual o missionário norte-americano Daniel Kidder chegou a distribuir bíblias em muitas   províncias, o trabaho no Brasil foi extinto em 1841. De acordo com o professor DuncanReily, em seu livro  Momentos decisivos do Metodismo (Imprensa Metodista), a principal razão foi financeira. A depressão  norte-americana, que passou à História com o “pânico de 1837”, secou os recursos para a missão no Brasil. Além     disso, a perseguição religiosa por toda parte dos católicos ajudou a sufocar a obra. Houve até um padre, Luiz     Gonçalves dos Santos, que chegou a escrever num livro chamado O Catholico e o Methodista, no qual fazia  duras críticas à “seita dos metodistas, de todos os protestantes os mais turbulentos, relaxados, fanáticos, hipócritas e ignorantes”, inflamado, o padre Luiz referia-se às práticas religiosas do grupo como “atividade dos     demônios para perverter católicos a abalar sua fé”.

Arrancada

 

Contudo, as raízes do trabalho permaneceram. Havia reuniões em residências, como a da família de Mary     Walker, que mantiveram a chama do metodismo acesa até agosto de 18678, quando as atividades da igreja     recomeçaram oficialmente no Brasil. Mais uma vez, a chegada de missionários ao país deveu-se a questões  políticas e sociais no exterior. Fugindo da decadência que atingiu o sul dos Estados Unidos no fim da Guerra Civil   (1861-1865), centenas de colonos sulistas emigraram para a América do Sul. A junta de Missões Metodistas     designou então o pastor Junius Newman para trabalhar junto a eles no país. Empobrecida devido ao conflito, a     junta nada mais pôde fazer por Newman senão dar-lhe uma carta de apresentação.

 

O missionário arrecadou dinheiro embarcou num navio ruma ao Brasil. Fixou-se em Santa Bárbara     D’Oeste (SP), onde estabeleceu que aquela seria a primeira paróquia da denominação no Brasil – nada mais do     que uma pequena casa , de chão batido coberta de sapê. Empolgado com os resultados, Newman insistiu com os     metodistas norte-americanos para que investissem no país. Seus apelos resultaram no envio do primeiro obreiro     oficial, John James Ranson, que chegou em 1876 e logo aprendeu o português para evangelizar os brasileiros no     seu próprio idioma.

 

As últimas décadas do século XIX foram de trabalho árduo e muitas conquistas para os metodistas     brasileiros. Ao mesmo tempo que ganhavam almas, foram abrindo frentes de trabalho. Fundaram a igreja no Rio     em 1879; em São Paulo e em Juiz de Fora (MG), no ano de 1884. O crescimento numérico e geográfico     tornou-se necessária a criação de uma órgão nacional, que organizasse o movimento metodista, dando-lhe forma     de igreja institucionalizada. Em 16 de setembro de 1886 foi realizada a Conferência Anual, na capela do Catete,     no Rio. Por essa época, já havia uma liderança consolidada, e estava à frente da denominação o chamado “trio de     ouro”: John William Tarboux, James L. Kennedy e Hugh C. Tucker.

Pioneirismo

 

De acordo como o publicitário João Wesley Dornellas, um dos maiores historiadores metodistas a     denominação sempre teve um caráter pioneiro no Brasil. “Os metodistas organizaram as primeiras classes     regulares de escola dominical, ainda em meados do século 19. Além disso, foram os primeiros a lançar um jornal     evangélico, o Metodista Católico, ainda em 1886, que circula até hoje, rebatizado de O Expositor Cristão”,     informa. Já neste século, a igreja tornou-se genuinamente nacional. O ano de 1930 marcou a autonomia da Igreja     Metodista do Brasil, cuja representação máxima foi a eleição do primeiro bispo brasileiro, o reverendo César     Dacorso Filho. Foi ele quem consolidou o metodismo no país.

 

Considerado o maior nome da história da Igreja Metodista brasileira. Dacorso, morto em 1966,fez do seu     episcopado a verdadeira missão apostólica. Suas viagens missionárias, sermões e milhares de cartas enviadas aos     pastores de todo o Brasil em mais de 20 anos de ministério constitui uma epopéia que é motivo de orgulho para     os metodistas. Por sua influência, a denominação ingressou na Confederação Evangélica do Brasil desde sua     constituição, em 1934, e no Conselho Mundial de Igrejas em 1942, tornando-se a primeira igreja da América     Latina a aderir àquele órgão eclesiástico internacional. Essa vocação associativa se reflete também na postura     ecumênica que a denominação vem adotando, intensificada a partir do Concílio Geral de 1970, que fez profundas     mudanças as diretrizes para sua atuação neste fim de século e sua postura no panorama evangélico brasileiro.

 

Fonte: Revista Vinde – Ano II – nº 19 – Junho 1997

 

IGREJA BATISTA – SAGA DE FÉ E DEMOCRACIA

 

Igreja Batista tem história marcada por respeito à liberdade e zelo pela Palavra

 

Marcelo Dutra

 

Conta-se que numa determinada igreja do interior do Brasil, um grupo de pessoas     reuniu-se, como de costume num dos cultos de quarta-feira, com o objetivo de escolher o   nome mais adequado para uma nova congregação a ser fundada. Com a mediação equilibrada     do pastor, todos os membros presentes puderam dar sua sugestão, democraticamente, antes     que a decisão fosse tomada. No calor dos comentários e opiniões livremente expostas, uma     idéia de nome causou espanto: “Igreja Batista do Apocalipse 21”, propôs um dos participantes     mais entusiasmados. Diante da explosão de exclamações de espanto que sucederam a estranha     proposição, o pastor solenemente interpelou o autor: “””Mas o irmão acredita que esse nome     seja bíblico?” Para surpresa do ministro que resedia a sessão e de todos os presentes, a     resposta veio rápida e certeira: “Só não seria bíblico se a sugestão fosse, por exemplo, Igreja     Batista do Apocalipse 23, pois como o senho bem sabe, não existe esse capítulo na Bíblia,”,     rebateu o fiel.

 

Essa simples anedota exemplifica de maneira clara um conceito fundamental entre os     adeptos da Igreja Batista, uma das mais sólidas e conceituadas denominações protestantes do     Brasil: a valorização da liberdade e da democracia. Desde seus primórdios , os batistas decidem     democraticamente sobre questões que se referem à sua igreja, desde que mantidas as bases     bíblicas, das quais não abrem mão. A postura batista com relação a liberdade exercida por seus     membros se confundem com história da igreja. As famosas Declarações de Fé – documentos     escritos por teólogos da igreja que através dos séculos reproduzem sua ideologia – já marcavam     essa posição muito antes do primeiro missionário pôr os pés no Brasil, em 1860. Naquele ano,     o missionário norte americano Thomas Jefferson Bowen aportou na cidade do ria de Janeiro,     capital do Império do Brasil. Na longa travessia marítima, dois livros foram seus companheiros     de viagem em alto-mar: A Bíblia e o Cantor Cristão.

Pioneiro

 

O pastor Bowen foi o primeiro missionário enviado ao Brasil pela Junta de Richmons,      associação de igrejas batistas do /]sul dos Estados Unidos. Sua missão era organizar uma igreja      de língua inglesa para os imigrantes americanos. Também tinha intenção de trabalhar entre os      escravos, já que vinha de um longo período como missionário na África, onde inclusive      aprendera o dialeto iorubá, corrente entre os negros traficados para o Brasil seu sonho      missionário, entretanto, virou pesadelo. Além de sofrer sérios problemas de saúde, o pastor foi      impedido pelas autoridades de propagar uma mensagem cristã que se caracterizava pela      distância com os ensinos católicos, até então a religião oficial do país. Bowen acabou ficando      no Brasil por apenas nove meses, período em que se comunicava com freqüência, através de      relatórios, com seus superiores da junta. Nestas epístolas, o missionário se queixava do alto      custo de vida, do clima quente da cidade do Rio de Janeiro e principalmente da ameaça,      problema crônico de saúde naqueles idos do século 19.

 

A junta de Richmond ficou tão decepcionada com as dificuldades enfrentadas por      Bowen que não quis mais arriscar e cancelou todos os planos missionários para a América do   sul.

 

Mas Deus tinha seus planos. Depois dessa primeira tentativa frustada, não demorou muito e      um conflito social acabou sendo o estopim que detonou a verdadeira explosão missionária no      Brasil. Com a Guerra de Secessão (1859-1865), entre os estados do Norte e do Sul dos EUA,     milhares de imigrantes americanos vieram para o Brasil a partir da segunda metade do século     passado, em busca do sonho da paz e prosperidade. Em sua maioria os colonos eram de     formação protestante. Curiosamente, essa segunda onda evangelística tinha um caráter bem     mais informal – ao contrário da missão de Bowen, planejada e patrocinada pela Junta de     Missões Estrangeiras, essa leva de protestantes emigrou em busca da sua própria     sobrevivência.

Fé Nas Raízes

 

Esses retirantes acabaram sendo fundamentais no processo de evangelização do Brasil.

 

Ao chegar aqui, procuraram uma região onde pudessem reproduzir com o máximo de exatidão     o ambiente deixado para trás. Fixaram-se no Estado de São Paulo, entre a cidade de Santa     Bárbara D´Oeste e uma outra fundada por eles mesmos, com o sugestivo nome de americana.

 

Após a instalação, o segundo passo dado pelos pioneiros foi a criação de igrejas onde pudessem     exercer sua fé e reafirmar seus valores éticos cristãos.

 

Assim nasceu a primeira igreja batista fundada em território brasileiro, em 10 de     setembro de 1971, sob a coordenação do pastor, Richard Ratliff. No início, os cultos ainda     eram em inglês, o que afastava os habitantes locais. Os primeiro cultos em português só     ocorreram dez anos depois, com a chegada ao Brasil do missionário William Buck Bagby e sua     mulher Anne, que rapidamente aprenderam o português, no Colégio Presbiteriano de     Campinas. Um dos instrutores do casal foi o ex-padre Antônio Teixeira de Albuquerque.     Sacerdote católico na província de Alagoas, ele converteu-se ao protestantismo sozinho,     enquanto estudava a bíblia. Depois de abandonar a igreja de Roma, o ex-padre peregrinou pelo     Brasil até chegar a Campinas, onde tornou-se o primeiro brasileiro a se consagrado pastor     batista.

 

A conversão do católico, contudo, foi uma exceção. Falar do Evangelho naqueles dias     era motivo de perseguições e, até mesmo, espancamentos. Tudo por causa da intolerância     religiosa patrocinada, principalmente, pela Igreja Católica. Certa vez, o casal Bagby estava     realizando um batismo numa praia do Rio quando foram interrompidos aso gritos de “hereges”     por uma multidão enfurecida. William foi detido por um homem que afirmava estar cumprindo     ordens do chefe de polícia. Na verdade, a prisão fora ordenada por um padre, irritado com o     trabalho dos missionários batistas. A situação dó foi contornada graças aos jornais da cidade,     que descobriram a artimanha e publicaram reportagens condenando o comportamento das     autoridades. A repercussão foi tanta que a polícia acabou sendo forçada a dar cobertura aos     cultos dos crentes.

 

Naquele mesmo ano de 1881, o casal Bagby, auxiliado por outra dupla de     missionários, Zachary e Kate Taylor, deram seqüência ao seu plano evangelístico e decidiram     pregar nos grandes centros urbanos do Brasil. Para tanto, viajaram até a Bahia e no dia 15 de     outubro fundaram a Primeira Igreja Batista do Brasil, em Salvador – na época, a segunda     maior cidade do país, com 250 mil habitantes. O sucesso do trabalho no Nordeste encheu     William Bagby de coragem, e ele resolveu vir para o rio de Janeiro, onde fundou uma     congregação no bairro do Estácio que, logo de início conseguiu a adesão de quatro pessoas.

Com a abertura do campo missionário brasileiro através do sucesso de Bagby, as     organizações batistas americanas resolveram investir. Os obreiros que aqui chegaram traziam     consigo o modelo de igreja que conheciam na sua terra natal, implantando a estrutura     eclesiástica americana. Além da estrutura cuidadosamente organizada, herança da matriz, as     igrejas brasileiras fizeram questão de manter o modelo congregacional de governa,     caracterizado pela autonomia de cada igreja local – uma marca dos batistas que predomina até     hoje. Com o tempo, as comunidades foram adaptando seus costumes à realidade brasileira,     mas sempre mantendo a identidade.

 

Democracia

 

O historiador batista, jornalista e professor Israel Belo de Azevedo, diretor do     Departamento de comunicação social da Universidade Gama filho, no Rio, afirma que a     ideologia democrática está inserida no conceito de valores da denominação. “O princípio das     decisões individuais produz uma democracia participativa, o que está na raiz do pensamento     batista. Não existe cristianismo sem isso, porque na realidade ninguém pode empurrar a sua     responsabilidade para outro, nem para Deus”, explica o pesquisador. Azevedo se tornou um     dos mais respeitados teólogos batistas ao escrever o livro A Celebração do Indivíduo,     considerado o documento mais completo sobre a formação do pensamento teológico da     denominação. É ele quem reponde também a uma das questões mais freqüentes sobre a Igreja     Batista: seriam os batistas protestantes ou não? Alguns teólogos argumentam que a igreja é     anterior à Reforma protestante, movimento que transformou espiritualmente a Europa há 480     anos. O professor Israel, entretanto, explica que na verdade essa tese tem origem numa     rivalidade entre segmentos evangélicos, ainda no século passado. Chamada de sucessão     neotestamentária, a questão surgiu num momento de grande disputa entre denominações     devido à explosão evangélica nos EUA: “Havia naquele momento uma necessidade de     auto-afirmação dos batistas sobre as outras vertentes evangélicas. Então, a tese do     sucessionismo surgiu para tentar provar que a Igreja Batista descendia diretamente dos     apóstolos. Na verdade, isso nada mais é do que uma herança dos católicos, que dizem que sua     igreja vem de Pedro”, argumenta o professor.

 

À medida que as igrejas batistas se multiplicavam, surgiu a necessidade de reafirmar o     ideário do segmento. Esta tradição ideológica jamais se perdeu no tempo, graças à estratégica     propagação através de publicações como livros, bíblias, revistas de estudo e jornais. Os     primeiros periódicos da denominação foram o Echo Batista e o Boas Novas, que em 1901     foram substituídos pelo Jornal Batista, que através de seus artigos e matérias ao longo destes     96 anos vem proporcionando uniformidade nas interpretações teológicas, além de manter sua     função histórica na reprodução do pensamento da igreja. Atualmente, sua tiragem é de 10 mil     exemplares por semana. A tradição batista legou aos evangélicos brasileiros outra preciosidade:     o Cantor Cristão, que eternizou centenas de hinos cantados até hoje por crentes de tod o país.

 

Da primeira edição, de 1891, até hoje, as páginas do Cantor têm sido fonte de louvor e     inspiração. Dos acervos, mais de 100 foram compostos ou traduzidos pelo missionário e     músico judeu polonês Salomão Luiz Ginsburg, que viveu 37 anos no Brasil. Ginsgurb é     considerado por muitos o mais importante hinologista brasileiro. Mas também foi um     evangelista de visão avançada para o seu tempo. Coube a ele ter sido o primeiro a imaginar uma     associação que agrupasse todas as igrejas da denominação, em 1894. As idéias de Ginsburg     acabaram influenciando a história da Igreja Batista brasileira. Como as congregações do início     do século não tinham condições de, sozinhas, alcançar todo o território brasileiro e o exterior,     em 1907 surgiram duas grandes entidades missionárias – a junta de Missões Nacionais e a     Junta de Missões Mundiais. Hoje, esses departamentos contam com quase mil missionários     espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Aquele ano marcou ainda o surgimento da Casa     Publicadora batista – atual Juerp –, até hoje responsável por boa parte das publicações da     denominação. Também no início deste século, as igrejas passara a se agrupar na chamadas     convenções, com o objetivo de gerir causas comuns como o trabalho de missões e a     manutenção de seminário, orfanatos, asilos e colégios. Essa estrutura ampliou-se, buscando a     cooperação entre as igrejas. Surgiu assim a CBB (Convenções Batista Brasileira), que abriga     hoje aproximadamente 5,6 mil igreja da denominação e cerca de 1 milhão de membros. Neste     ano, o pastor Darcy Dusilek, da igreja batista de Itacuruçá, assumiu a presidência da CBB.

 

Avivamento

 

Um dos motivos de orgulho dos batistas brasileiros – a coesão – só veio a sofrer um     abalo considerável no final da década de 50. O Brasil presenciava um avivamento pentecostal,     iniciado pelo trabalho de missionários norte-americanos. Foi época do surgimento de grandes     igrejas carismática, como a Quadrangular, o Brasil Para Cristo e a Nova Vida. Paralelamente, diversos setores evangélicos tradicionais experimentaram a renovação espiritual. Não demorou     muito e o movimento alcançou os arraiais batistas, através de um pastor ainda pouco     conhecido, mas que no futuro seria lembrado como um dos maiores líderes evangélicos do     século. Na noite de 18 de outubro de 1958, o pastor José rego do Nascimento, da Igreja Batista     da Lagoinha, em Belo Horizonte (MG), voltava de um culto no Seminário Batista do Sul do     Brasil, no Rio – um dos mais antigos e respeitados da denominação –, quando foi abordado por     um grupo de alunos. Convidado a participar de uma vigília de oração promovida pelo grêmio     estudantil., Rego, embora estivesse exausto, aceitou. O que aconteceu naquela noite delineou a     história do ramo batista pentecostal no país. Rego e os seminaristas que participaram da     reunião forma batizados com o Espírito Santo – uma experiência que até então só conheciam     de ler no Novo Testamento, caracterizada pelo exercício de dons espirituais. José Rego do     Nascimento relatou os acontecimentos a seu colega e também pastor batista Enéas Tognini,     que logo aderiu ao avivamento tornou-se ícone do movimento pentecostal que acabou     dividindo a denominação. Em 1967, Tognini fundou a CBN (Convenção Batista Nacional),     reunindo 60 igrejas. Hoje, a CBN é presidida pelo pastor Daniel Leite, de Betim (MG) e tem     aproximadamente 1,2 mil igrejas, todas independentes, mas vinculadas pela teologia     pentecostal. Além das duas grandes convenções, existem ainda a Igreja Batista Regular, a     Igreja Batista Independente, a Igreja Batista Bíblica e a Igreja Batista fundamental, que embora     expressem interpretações bíblicas diversas, têm como elo fundamental a soberania das decisões     tomadas pelo povo. Nas igrejas batistas, tudo é decidido pelos membros: desde a escolha do     pastor até o orçamento da comunidade. Até mesmo o nome de sociedade internas como corais     e grupos de jovens passam pelo voto. A tradição democrática é até hoje um dos maiores     orgulhos dos batistas.

 

Fonte: Revista Vinde – Ano II – nº 24 – Novembro de 1997

ASSEMBLÉIA DE DEUS – A IGREJA DAS MULTIDÕES

 

Fundada há 86 anos e com 16 milhões de fiéis, a Assembléia de Deus é a maior denominações do Brasil

 

Carlos Fernandes

 

Pelo menos um em cada três crentes brasileiros tem a mesma resposta quando a pergunta é: a que igreja     você pertence? “Assembléia de Deus”, respondeu , na ponta da língua e com um certo orgulho, cerca de 16     milhões de cristãos evangélicos no país. Quem conhece a história da denominação percebe que não poderia     mesmo ser diferente. Há 86 anos no Brasil, a igreja evangélica Assembléia de Deus espalhou-se como fogo,     levada pelo vento pentecostal que soprou a obre do avivamento aos quatro cantos do país. É difícil encontrar ema     cidadezinha que não tenha pelo menos um templo da denominação, por mais humilde que seja. Ezistem     Assembléia de Deus na favela de grandes cidades, em fazendas do interior, em ilhas e até mesmo no meio da floresta amazônica. Quase todo mundo já viu famílias humildes que saem de casa todo domingo de Bíblia na mão     e vestindo suas melhores roupas, ruma a um templo assembleiano. Esse apelo junto ás camadas populares é, aliás, uma das principais características da Assembléia de Seus, uma igreja de multidões.

 

Quanta diferença do longínquo dia 19 de outubro de 1910! Naquele dia, dois jovens europeus     desembarcaram em Belém do Pará, trazendo na bagagem pouco de inverno – totalmente, inadequadas para o     calor equatorial –, livros de estudos e uma Bíblia bastante gasta pelo manuseio. Os dois sentaram-se num banco   de praça, olhando espantados para tipos humanos que jamais haviam visto: índios, estivadores, caboclos de   enxada nas costas. De crentes, nem sinal. Uma paisagem totalmente diversa da gélida Suécia, onde ambos     nasceram e deram seus primeiros passos no Evangelho, instruídos por suas famílias batistas.

 

Embora compatriotas, Gunnar Vingren e Daniel Berg (foto abaixo) só se conheceram durante uma     conferência missionária em Chicago, nos Estados Unidos, para onde emigraram fugindo da depressão econômica     que atingiu em cheio a Escandinávia no início do século. Corria o ano de 1909, Vigren e Berg já haviam     trabalhado em meia dúzia de empregos no Novo Mundo e estavam insatisfeitos com o rumo que suas vidas     estavam tomando. Sentiam-se apenas mais dois estrangeiro em busca de um futuro melhor na terra das     oportunidades. O que queriam mesmo é pregar o Evangelho e falar com entusiasmo da obra do Espírito Santo,     cujas manifestações carismáticas já haviam experimentado.

A decisão de vir para o Brasil aconteceu por um daqueles acasos que os     crentes costumam atribuir à vontade divina. Os dois amigos andavam orando para     saber para onde deveriam seguir, já que tinham o desejo de levar a Palavra a uma     nação ainda não-evangelizada. Uma noite, um certo Olof Uldin, que costumava     participar de reuniões de oração com Berg e Vigren, teve um sonho em que via o     nme Pará. Embora não tivesse a menor idéia de onde ficava o tal lugar, Berg e Vigre     debruçara-se sobre o Atlas e descobriram a terra prometida era uma manchinha no     mapa do Brasil. Sentiram, então que era por lá que deveriam começar sua cruzada.     Com o último dinheiro que tinham foram para Nova Iorque e de lá embarcaram num     navio de terceira classe com destino a Belém.

Igreja De Porão

 

Em terra brasileiras, a primeira igreja que Gunnar Vigrene e Daniel Berg freqüentara foi a Batista do Pará,     que conheceram através de um marinheiro crente que falava inglês. Como não tinham onde ficar a igreja estava     sem pastor, passaram a dormir no porão do templo, onde realizavam reuniões de oração avivadas que     despertaram a antipatia dos crentes tradicionais da cidade. Presbiterianos, anglicanos e metodistas não aceitavam     aquele movimento “estranho ” que tomara a Igreja do Pará. A pressão foi tanta que o sois avivalistas acabaram     sendo excluídos. Levando consigo um grupo de irmãos que já tinham recebido o batismo com o Espírito Santo,     experiência carismática que os pentecostais consideram como um revestimento do poder de Deus.

 

“Ficamos frustados, pois não pretendíamos formar uma nova igreja. Desejávamos que os batistas brasileiros     experimentassem o avivamento que conhecêramos” dizia Gunnar Vigren, demonstrando que a criação de uma     outra denominação nunca esteve em seus planos antes de expulsão. Sem ter templos onde se reunir, foi em casas     de família que o grupo estruturou-se com igreja. Assim nasceu a Missão de Fé Apostólica, embrião do que seria      dentro de algumas décadas a maior denominação evangélica do país. Gunnar Vigren foi seu primeiro pastor,      auxiliado por Daniel Berg. O nome Assembléia de Deus só surgiria em 1918, quando foi registrada com a      primeira igreja evangélica organizada genuinamente nacional. De acordo com o pastor Valdir Bícego, 57 anos,      pastor da Assembléia de Deus na região da lapa em São Paulo, estudioso da história da denominação, o nome      tem sue origem, provavelmente, no hebraico. “Uma das interpretações para o significado de igreja, no hebraico, é      ‘assembléia de Deus com seu povo’, ou seja, tem fundamento bíblico”, diz.

Apesar do crescimento rápido, não foram poucas as dificuldades enfrentadas pelos pioneiros da      Assembléia de Deus. Numa época de extrema intolerância religiosa, havia ameaças e perseguições contra os      integrantes daquela “seita perigosa que praticava exorcismo e outras práticas estranhas”, como diziam os      evangélicos tradicionais. Houve templos apedrejados e ameaças a faca contra os membros da igreja. Até os      batismos tinham de ser feitos altas horas da noite nos rios da região para não atrair a hostilidade do povo.

 

Em pouco tempo, a Assembléia de Deus espalhou-se. Igrjas foram abertas em várias cidades do interior      do Pará e logo chegou em outros estados do Norte e Nordeste: Cerará (1914, Pernanbuco (1916), Amapá      (1917), Paraíba e Amazonas (1918). Interessado em abrir um trabalho no Rio de Janeiro, o próprio Gunnar      Vigren veio para a então capital federal em 1923. Alugou um salão no bairro de São Cristóvão, e a partir dali o      trabalho explodiu. Além de novos convertidos, muitas tradicionais recém-avivadas ingressaram na Assmbléia de      Deus, quepor essa época já era o maior grupo denominacional do país. . “A igreja no Rio de Janeiro cresceu mais      do que qualquer outra no Brasil. Os batismos na águas multiplicavam-se, em sinal de prosperidade e de bênçãos”,      alegava-se Vigren. O primeiro desses batismos, aliás, foi realizado num lugar impensável hoje em dia: a Praia do      Cajú, na zona portuária. Enquanto isso , o outro pioneiro, Daniel Berg, seguiu para São Paulo e inaugurou a      primeira igreja na região em 1927.

Expansão

 

Igreja com fortes raízes populares, a Assembléia de Deus tinha entre seus membros muitos operários,      trabalhadores braçais, agricultores, donas de casa e vendedores ambulantes. Como ainda não havia escolas      teológicas, a formação dos obreiros era o próprio campo de trabalho – aqueles que mais se destacavam iam      assumindo liderança naturalmente. “Nessa época, o trabalho desenvolvido pela Assembléia de Deus já era notório      e influenciava outra igrejas, num crescimento extraordinário” contas o pastor Manoel Ferreira, 61 anos, presidente      do Ministério de Madureira, um dos dois segmentos da denominação ver quadro na página 36).

 

Aquela foi a época das grandes convenções regionais, onde despontaram líderes como José Teixeira do      Rego, José Pimentel de Carvalho, João Kolenda e Paulo Leivas Macalão, este responsável direto pela expansão      do ministério ligado àquela congregação. Macalão tornou-se um dos mais conceituados líderes de toda a história      da Assembléia de Deus e faleceu em 1982.

 

“Desde os seus primórdios , a Assembléia de Deus empenhou-se em espalhar a mensagem e abrir templos      Brasil afora”, diz o pastor Abner ferreira, um dos vice-presidentes da igreja de madureira, salientando o furor      evangelístico que caracteriza a denominação A Assembléia de Deus foi responsável pela difusão do movimento      pentecostal no país, que culminou com as grandes cruzadas dos anos 50 4e o surgimento de outras grandes      igrejas avivadas, como a Quadrangular, O Brasil Para cristo e a Nova Vida.

 

Talvez devido a essa rápida expansão – são mais de 70 mil templos e congregações em todo o brasil –, a      Assembléia de Deus não tenha, até hoje, a força institucional que caracteriza os presbiterianos e batistas, por      exemplo. As igrejas são descentralizadas. A união promovida pelas convenções é fraternal e não significa      necessariamente, coesão. Além disso, não existe controle estatístico e é impossível precisar a quantidade exata de      membros e pastores. As divisões internas não impedem, contudo, que a assembléia de Deus seja uma espécie de      referência, para os não evangélicos, do que são os crentes. Seu gigantismo também pode ser percebido a cada      eleição, quando a denominação consegue emplacar dezenas de prefeitos e centenas de parlamentares.

 

Atualmente, 11 assembleianos ocupam cadeiras no Congresso nacional.                Mesmo com seus quase 16 milhões de fiéis, a Assembléia de Deus não pensa em parar de crescer no      Brasil. E seus objetivos são ambiciosos. “Queremos atingir em breve o número de 50 milhões de membros”,      empolga-se o pastor Valdir Bícego, líder do Projeto Década da Colheita, que, como o nome já diz, pretende      semear a Palavra e colher o maior número possível de novos adeptos até o fim do século. Segundo Bícego, a      igreja cresce cerca de 7% ao ano – um índice expressivo se comparado com a taxa de crescimento da população      brasileira, em torno de 2%. Em setembro, os assembleianos pretendem dar mais uma demonstração da dimensão      de sua igreja, na segunda Convenção Mundial das Assembléias de Deus, marcada para a cidade de São Paulo.

 

Nada meu para quem começou dentro de um porão.

 

  • Fonte: Revista Vinde – Ano II – nº 18 – Maio 1997.

IGREJA QUADRANGULAR

 

AS VERDADEIRAS TENDAS DE MILAGRES

 

Nascida sob longas de circo, há 45 anos, a Igreja Quadrangular conta com 1,5 milhão de membros em  todo o país

 

Por Carlo Fernandes

 

O ano era o de 1953. A cidade, São Paulo. Num terreno localizado na Avenida Francisco Matarazzo, no     bairro da Água Branca, Zona Oeste da capital paulista, uma grande lona montada chamava a atenção. Para quem     passava de longe, era penas mais um circo, como tantos outros, a se estabelecer na grande cidade em busca de     espectadores e dinheiro. Para quem chegava mais perto, porém a movimentação não lembrava em nada um     espetáculo circense. De palhaços e animais amestrados, nem sinal; no lugar do picadeiro, havia um púlpito; em vez     do mestre de cerimônias, um pastor anunciando que Deus iria operar milagres; na platéia, em vez de crianças     chupando pirulito, pessoas compenetradas, de Bíblia na mão, algumas com lágrimas nos olhos.

 

Dentro da lona, 3 mil pessoas cantam e oram em conjunto, fazendo um barulho santo, alimentado pelo     fogo pentecostal que, a partir daquele momento, se espalharia, dando origem ao movimento que, anos mais tarde,      faria do país uma potência evangélica. Aquela reunião inusitada, totalmente diferente de um culto convencional, foi     ponto de partida da Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ), que em 45 anos de atividades no Brasil, conseguiu     reunir 1,5 milhão de fiéis e influenciar decisivamente a história do evangelho no país.

 

O surgimento da denominação em terras brasileiras está diretamente ligado à iniciativa de evangélicos     americanos. Foi de lá que partiu , em 1944, o pastor e missionário Harold Edwin Williams, decidido a trazer o     Evangelho para a América do Sul. Nascido em Hollywood – a Meca do cinema – em 1913. Williams chegou a     atuar em filmes de faroeste. A carreira de caubói não durou muito, mas seu trabalho no Reino de Deus daria um     longa-metragem.

 

A vocação missionária o levou a estudar Teologia no Seminário Life, da Igreja Quadrangular     Internacional, em Los Angeles. Após terminar o curso, Harold Williams foi ordenado pastor e tornou-se diretor     superintendente da mocidade da IEQ em onze estados americanos.

Nessa época, ele já estava casado com Mary Elizabeth, pastora da denominação. Depois de um ano     atuando como missionário da igreja na Bolívia, Harold Williams resolveu continuar seu ministério no Brasil, que na     época ainda era um país essencialmente rural e dominado pelo catolicismo, sobretudo no interior. A     industrialização engatinhava e não havia quaisquer restrições ao ingresso e ao trabalho de estrangeiros no país. O     pioneiro tinha intenção de fixar-se numa região onde pudesse obter maior repercussão para o grande trabalho     evangelístico que pretendia realizar. Em 1946, desceu de barco pelo rio Amazonas até chegar a Belém (PA),     onde embarcou num navio em direção a Santos, no litoral paulista. Fixou residência provisória na cidade mineira     de Poços de Caldas, onde aprendeu a língua portuguesa e começou a “espiar a terra”, avaliando qual seria o local     mais apropriado para lançar a semente da denominação no país.

 

Benção No “Circo”

 

No dia 15 de novembro d e1951, abriram-se as portas do primeiro templo da Quadrangular, na cidade de     São João de Boa Vista (SP). Pentecostal convicto, Harold Williams não se satisfez com os resultados obtidos     nessa primeira congregação. Somática do Espírito Santo em nível nacional., a guinada começou através da     cruzada realizada pelo pastor americano Raymond Boatright no dia 1º de março de 1953, no templo da Primeira     Igreja Presbiteriana Independente do Cambuci, emprestado para o evento. Evangelista renomado em seu país,     Boatright era um velho amigo de Williams, e os dois resolveram juntar forças naquele esforço de evangelização.

 

Como os sinais acompanham aqueles que crêem – como diz a Bíblia -, o templo não foi grande o suficiente     para abrigar por muito tempo os cultos superlotados em que ocorriam milagres e renovação espiritual na vida de     muitas pessoas. O carisma de Raymond Boatright atraiu multidões e até mesmo repórteres de jornais locais, que     publicaram manchetes como “A repetição dos milagres de Cristo”, “Pastor norte-americano opera curas     assombrosas no Cambuci” e “Milhares de enfermos anseiam por milagre no templo do Cambuci”. Pela primeira     vez, os Evangélicos ocupavam espaço na mídia de forma expressiva.

 

Tanta repercussão impulsionou a dupla de evangelista para um trabalho mito mais amplo. Nascia assim a     Cruzada Nacional de Evangelização, que se tornou um marco na história do Evangelho no Brasil. Essas jornadas atraíram ainda mais gente para os cultos, que já eram realizados num templo presbiteriano no Brás. Mais de 15     mil pessoas se acotovelam até no ginásio esportivo da igreja. A procura era tanta que ser reduzida a 40 minutos e     as reuniões eram realizadas uma atrás da outra, o dia inteiro.

 

Apesar de alegria geral pelas bênçãos, a situação foi ficando insustentável. A solução que apareceu foi um     misto de milagre e loucura: um grupo de crentes americanos fez a doação de uma lona de circo capaz de abrigar 3     mil pessoas. O presente foi trazido pelo pastor Raymond Boatright e logo passou a abrigar as reuniões que,     àquela altura, já tinham se tornado conhecidas em todo os país. Os cultos, animados por músicas de louvor em     estilo country – inclusive com o uso da guitarra elétrica, uma inovação em reuniões evangélicas –,     caracterizavam-se pela informalidade, com orações coletivas e forte ênfase na realização de milagres e no batismo     com o Espírito Santo, experiência carismática considerada pelos pentecostais como a plenitude da vida espiritual     e que, até aquela época, ainda não era muito comum entre crentes nacionais.

 

Chama Acesa

 

No início do ano de 1954, o trabalho já crescera tanto que foi necessário organizá-lo em bases menos     improvisadas. O pastor Harold Williams alugou um teatro, onde passou a funcionar a congregação. Enquanto     isso, a tenda dos milagres continuava sua peregrinação por várias partes do país, sempre abrindo frentes de     trabalho que, mais tarde, viraram igrejas: Curitiba (1955) e Ponta Grossa (1958), no estado do Paraná;     Florianópolis (SC), Juiz de Fora (MG) e Rio de Janeiro, em 1956; Anápolis (GO) e Manaus (AM), no ano de     1959. Em 1957, a igreja adquiriu o terreno onde foi construída e funciona até hoje a sede nacional da     denominação, no bairro de Santa Cecília, na capital paulista.

 

De acordo com o pastor Daniel Marins supervisor da IEQ no estado de São Paulo, o tempo passou, mas     a chama evangelística permanece mais acesa do que nunca. Ele é o responsável pelo projeto. Tendas Itinerantes,     implantando no início deste ano. “A idéia é armar tendas durante quatro meses em cidades estratégicas onde     existe resistência ao Evangelho. Constrói-se depois a igreja definitiva e a casa pastoral, e a tenda é transferida     para outra cidade”, explica Marins. O pastor informa que 11 terrenos já foram comprados para edificar igrejas     nascidas desse projeto. Em Águas de Lindóia (SP), um templo com capacidade para mil pessoas foi inaugurado,     o local onde uma dessas tendas aterrissou tempo atrás. “estamos obtendo resultados expressivos”, festeja Marins.

Quase meio século depois de surgida no Brasil, a IEQ continua fiel às suas origens e espalhando suas tendas pelo     país. O Reino de Deus agradece.

 

Fonte: Revita Vinde – nº 21 – Agosto 1997 – Ano II

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