O uso que Jesus fazia do seu material de ensino é uma das fases mais
interessantes e reveladoras de nosso estudo. E será também para nós bem
sugestivo e de grande ajuda, se, nos materiais por ele usados, pudermos
encontrar sugestões sobre o que devemos empregar em nossa própria atividade
educadora. Tais materiais variam quanto a fontes, qualidades e usos. De modo
nenhum Jesus se escravizou a eles, nem deles dependia. Ao contrário, à medida
que passavam pelo cadinho do seu intelecto, ele lhes adicionava o seu
pensamento criador, reformava-os e passava-os adiante.

1. As Fontes

Várias eram as fontes gerais das quais o Mestre retirava seu ensino.
Podemos separá-las em outras tantas divisões. Provinham, é certo, de seu
preparo e experiência, e eram empregadas conforme as necessidades. Aqui no
pequeno espaço de que dispomos, só poderemos fazer a elas referências breves
e de caráter geral. Se fôssemos tratar pormenorizadamente deste assunto,
escreveríamos outro livro.

A) As Escrituras Sagradas

stá bem claro que Jesus usou livremente as Escrituras do Velho
Testamento. D. R. Piper nos conta que Jesus fez do Velho Testamento trinta e
oito citações diretas, quatro vezes aludiu a acontecimentos nele registrados e
cinqüenta vezes empregou linguagem paralela a certas palavras do Velho
Testamento. Ele se referiu a vinte e um livros do Velho Testamento. Parece que
usou mais os Salmos e o Deuteronômio. Os pensamentos do Mestre mostravamse
saturados das idéias do Velho Testamento e eram expressos na linguagem do
mesmo.

Às vezes fazia citações diretas, como esta: “Não só de pão viverá o homem,
mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mat. 4:4; Deut. 8:9). Há muitas
outras ainda. Sem a veleidade de apresentar um estudo completo, Horne, nos
apresenta trinta e três citações diretas feitas por Jesus do Velho Testamento.
Muitas delas referem-se de maneira definitiva a Jesus e a suas atividades, e, por
isso, são duplamente positivas. Trazem o peso do Mestre e também o do Velho
Testamento.

Em certos casos Jesus fez afirmativas praticamente idênticas às das
Escrituras do Velho Testamento, sem indicar que eram citações. Em Mateus 5:5 encontramos isto: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra”, e, nos
Salmos 37:11, lemos: “Os mansos herdarão a terra”. Encontramos cerca de
quarenta passagens, assim paralelas, no Velho Testamento e no Novo
Testamento. Evidentemente Jesus as assimilou e depois nos deu a substância
delas.

Noutros casos, o Mestre fez alusão às Escrituras, sem as citar de modo
claro ou definido. Há bom número desses casos, como sua afirmativa de que no
dia do juízo haverá mais tolerância para Sodoma e Gomorra do que para os
homens de seus dias (Mat. 10:15). Outro é a breve menção ao exemplo da
mulher de Ló que olhou para trás (Luc. 17:32), implicando isso um aviso a seus
seguidores para que não façam o mesmo. Tais referências valem por citações
definidas e exatas.

Jesus, porém, fez certas referências que dificilmente podemos saber de
onde provêm. Por exemplo, esta: “Porque estes são dias de vingança, para se
cumprir tudo o que está escrito” (Luc 21:22). Parece que ele viu nas Escrituras
algumas coisas que não podemos ver. Parece também que Jesus conhecia bem
os escritos judaicos extrabíblicos, pois encontramos afirmativas como esta:
“Perdoa a teu próximo o mal que te fez, e assim também teus pecados serão
perdoados quando pediras” (Eclesiástico 28:2 (livro apócrifo); conferir com Mat.
6:12,14).

Os professores de nossos dias ganharão bastante em seguir neste particular
o exemplo de Jesus, e devem assim familiarizar-se com a história, com o ensino,
e mesmo com as palavras da Bíblia, e usar constantemente esse material/A Bíblia
é a Palavra de Deus; o povo crê nela e gosta de ouvi-la; e não há outro
material de maior peso e valor. Urge que o professor da Escola Bíblica Dominical
conheça bem a Bíblia toda e saiba usá-la para o bem de seus alunos. Um dos
pontos fracos de nosso professorado eclesiástico é justamente este: o estudo só
de certos trechos da Bíblia, em vez de ensinar a Bíblia toda.

B) O mundo natural

Vê-se claro de seus ensinos que Jesus era um atento observador das forças
da natureza e fez constantes referências a elas, usando isso como material de
ensino. “Vemos os vinhedos florescentes; o vale, todo garrido, pletórico de roses
e lírios, e de pomares cheios de romãzeiras; os rebanhos alimentando-se nas
pastagens; as pombas fazendo ninhos nas brechas das rochas; as raposas
causando estragos nas vinhas… Aspiramos o perfume do espicanardo, do
olíbano e dos cedros do Líbano. Ouvimos o zumbido de abelhas, o balido de
ovelhas e bodes, o arrulho do pombo torcaz.” Parece que lhe era familiar cada
um e todos os aspectos da natureza. Nos seus ensinos este conhecimento da
natureza lhe estava sempre à mão, como diz Wilson: “Sua fala comum e habitual era de vivo colorido, pintalgada e saturada dessa beleza da terra que nos rodeia
e que se revela no firmamento por sobre nós.” Jesus viveu junto à natureza e
absorveu muito dela, trazendo-a sempre nos seus ensinos dos últimos anos.

Nos elevados céus, observou ele os ventos “soprando onde querem”, o sol
brilhando sobre bons e maus, as chuvas descendo para justos e injustos, e a
tempestade combatendo casas. No reino vegetal percebeu a relação vital da
videira e suas varas, o horror da figueira sem frutos, o crescimento da semente
desde a erva até o grão grado na espiga, a presença do joio no meio do trigo. No
mundo dos pássaros, acompanhou com olhos inteligentes, tanto a inofensiva
pomba como o corvo em busca de alimento, tanto o pardal que cai ao chão como
a águia em seus círculos, espreitando sua presa. Na vida dos animais, observou
a mortífera serpente, o boi na vala, a raposa espreitando a caça, o cão lambendo
feridas. Tudo isso o impressionava, e fazia parte dele, e ele usava isso tudo para
ilustrar e colorir seus ensinos.

Entraram particularmente em suas parábolas. Temos quatro delas que nos
falam de animais — bodes, ovelhas, cães e águias; sete que nos falam de
plantas, inclusive o fermento, o joio, a figueira, a semente de mostarda; e
dezesseis que nos falam de coisas como a luz, o solo, redes, e tesouro
escondido. Muitas outras referências e ilustrações provêm dessas fontes, e
animaram muito suas lições. Qualquer ensino se torna mais eficiente por meio de
ilustrações tiradas da natureza que nos rodeia, particularmente se forem de
coisas que são familiares aos ouvintes e sabiamente escolhidas. É difícil pensar o
que Jesus teria feito sem esse material, ou o que conseguiremos sem ele,
especialmente quando queremos ensinar crianças e outras pessoas que vivem
em contato direto com a natureza. Muitos hoje se lembram perfeitamente dos
ensinos e lições de J. B. Gambrell por esta razão: muitas de suas ilustrações
eram tiradas do mundo da natureza e da vida diária. Tais lições assim prendiam a
atenção das massas, eram bem lembradas por elas e influenciavam
poderosamente seu modo de pensar e agir.

C) Afazeres comuns e correntes

O Mestre dos mestres estava igualmente sempre de olhos abertos para as
situações que surgiam na vida daqueles com quem convivia. Ele conhecia bem
as medidas do alqueire, das talhas de água, dos odres de vinho; o lidar com
lâmpadas de óleo, o remendar vestidos, a lide nos moinhos de trigo; conhecia o
valor duma dracma para uma viúva, os atritos de irmãos, os brinquedos e
passatempos das crianças. Embora Jesus não fizesse citações diretas da história
secular, da filosofia ou dos poetas do tempo, usou consideravelmente os
acontecimentos correntes. Neutras palavras, Jesus nunca deixou passar uma
oportunidade sem que a usasse para ensinar algo a seus ouvintes.'”Ele encontrou, nos fatos comuns da vida de cada dia, inspiração para os temas mais.
profundos e inspiradores que já empolgaram o coração humano.”

Ele tirou lições da galinha a defender debaixo de suas asas os seus
pintainhos, da mulher preparando a massa de pão, do lavrador a semear, do
viticultor a podar suas videiras, do pescador a tirar peixes da água, do construtor
a edificar, do alfaiate a remendar roupas velhas, do rei preparando-se para ir à
guerra. Parece que nada escapava a seus olhos inteligentes e vigilantes. E
dessas experiências tirava ensinamentos e avisos para seus ouvintes. “Falou
sempre com autoridade — a autoridade da experiência própria e real e não como
os escribas, que se estribavam em livros e regulamentos.”

Poderíamos dar muitos outros exemplos que provam como Cristo se
aproveitava de ocasiões e acontecimentos do dia para ensinar os homens.
Quando entrou no Templo e o encontrou conspurcado pelos mercadores, não só
ensinou uma lição expulsando-os de lá, como aproveitou o incidente para
salientar a natureza sagrada da Casa de Deus. Quando os fariseus lamentaram
que seus discípulos houvessem violado o sábado, colhendo espigas para
comer, ao passarem por uma roça, Jesus aproveitou a oportunidade para
enfatizar ainda mais o propósito do sábado. Quando os escribas e fariseus o
criticaram por comer com publicanos e pecadores, contou as histórias da
ansiosa busca empós da moeda, da ovelha e do filho perdidos, para ajudá-los a
compreender qual a atitude própria para com os necessitados.

Não poucas vezes Jesus saía do seu círculo próprio usando os
acontecimentos do dia e revelando, assim, familiaridade com os afazeres
temporais dos homens. Frisando a necessidade de arrependimento, falou dos
galiieus cujo sangue Pilatos misturara com o dos sacrifícios que eles ofereciam,
e da queda da torre de Siloé, que matou dezoito pessoas. Em cada caso, Jesus
asseverou que em nada eram aquelas pessoas piores que os habitantes de
Jerusalém, e que, caso não mudassem eles seu modo de ver e agir pereceriam
igualmente (Luc. 13:1-5). Evidentemente Jesus acompanhara e anotara os feitos
de Herodes, e o fizeram tão bem que podia chamá-lo de “raposo”. Esse uso das
experiências do dia contribuiu imenso para fazer do ensino de Jesus um todo
mui interessante e eficaz, que tinha por centro a própria vida.

Tudo isto nos confirma que o currículo não consiste apenas de manuais ou
de tarefas especiais, mas também de outros materiais. O professor inteligente
encontrará inúmeras fontes que muito e muito enriquecerão seu ensino. Quanto
mais conhecer os afazeres, profissões e atividades de seus dias, melhor lhe
será. De grande valor lhe serão livros contando biografias ligeiras, boa ficção e
história. Se puder obter ilustrações nessas fontes, estará o professor preparado
para tornar a verdade mais clara, mais convincente e mais atraente.

2. As formas

As formas literárias de que Jesus revestiu seu ensino interessam quase
tanto quanto o próprio ensino. Na verdade a eficácia daquilo que ele disse foi
grandemente influenciada pelo modo por que o disse: Suas comparações e
metáforas davam sabor ao seu pensamento. São verdadeiramente espantosas a
variedade e a beleza dessas figuras de linguagem. Jesus se revelou Mestre
consumado por tornar sempre a verdade bem clara e imperativa, falando sempre
de modo direto, sem rodeios.

A) Afirmativas concretas

O ensino de Jesus sempre foi concreto, mesmo quando anunciava ideais e
princípios. Ele não filosofava, não teorizava, nem se ocupava com coisas
abstratas. O estilo dele não é lógico, ou analítico propriamente, e, sim,
relacionado com assuntos correntes e descritivos, e, justamente por isso, muito
impressionante. Anunciando uma nova verdade, começava com coisas que
estavam à mão, e, por meio destas, ia à conclusão. É verdade que ele
apresentou princípios e conceitos de caráter geral. Mas, em regra, partia sempre
de exemplos e coisas conhecidas, empregando o princípio da apercepção.
Noutras palavras: ia do conhecido para o desconhecido, do concreto para o
abstrato, das coisas que apelam aos sentidos para aquelas que pertencem
puramente à esfera mental. As parábolas de Jesus são ótimas ilustrações do
emprego deste princípio. Isto significa que seu ensino era mais indutivo que
dedutivo. Começava de onde estavam os alunos e os levava para onde queria
que estivessem; isto é processo assaz eficiente no se ensinar qualquer coisa,
quando se deseja levar um grupo de alunos a alguma verdade.

No Ensino do Monte, Jesus se referiu à luz e ao sal, ao argueiro e à trave, ao
olho e ao braço, ao caminho e à porta, a uvas e figos, à rocha e à areia, e a
outras mais coisas visíveis. Lançou mão de pássaros, para incutir nos outros a
confiança; duma criancinha, para ensinar a humildade; duma moeda, para
mostrar nossa responsabilidade como cidadão; falou do boi no valo, para
enfatizar a necessidade; da figueira estéril, para salientar a inutilidade; do copo
de água fria, para ilustrar o serviço. Haveria modo mais eficaz do que falar em
serviço pessoal como “pescar homens”, falar em falsos profetas como “lobos
vestidos de ovelhas”, falar nos cristãos como “sal da terra” e “luz do mundo”? Até
os milagres que ele operou falavam de verdades concretas. Os mestres mais
eficientes seguem ainda hoje o exemplo do Mestre no emprego de coisas
concretas, usando ilustrações para aclarar, transmitir e incutir a verdade./As
coisas que apelam aos sentidos atingem a imaginação, prendem o interesse e
são lembradas com grande facilidade. Andaremos acertadamente gastando tempo para ,-arranjar ilustrações boas e pertinentes, a serem empregadas em
nosso ensino.

B) Expressões incisivas

O discurso formal e didático de Jesus, tal como o Ensino do Monte, é peça
notável por ter ele usado expressões proverbiais, curtas e incisivas, que atraem a
atenção, incutem a verdade e se fixam na memória^ São “condensações da
experiência dos séculos e da sabedoria comum”. São como as máximas dos
rabinos, que resumiam seu ensino em ditados como estes: “Viver bem é melhor
que nascer de nobre estirpe”, ‘Tal pai, tal filho”, e “Quem vive atrás dos prazeres
desta vida perde os da eternidade”. Ditados assim entram no espírito como setas
farpadas, e são “estimulantes de nossa atenção dispersiva, e irritantes de nossa
prosaica imaginação”. “As palavras do sábio são como aguilhões, e como pregos
bem fixados pelos mestres das congregações” ( Ecl. 12:11).

Neste sentido o ensino de Jesus aproximava-se mais do ensino dos sábios
do que mesmo do dos profetas e poetas. Diz o deão de Westminster: “Se
procurarmos nas páginas das velhas Escrituras os modelos que, ao menos na
forma, serviram de paradigma para os discursos do Senhor Jesus, veremos que
em sua maior parte não foram os Salmos, nem as profecias, nem os livros
históricos que para tal serviram, e, sim, as sentenças de Salomão.” Essas
afirmativas proverbiais eram comuns no Oriente e dominavam o ambiente em
que Jesus se formou.

São características desta espécie de afirmativas curtas, incisivas e
epigramáticas, muitas que encontramos no ensino de Jesus, tal como: “A medida
de que usais, dessa usarão convosco” (Mar. 4:24). Também estas sentenças
proverbiais: “Um semeia, outro colhe” (João 4L37). “Onde está o teu tesouro, aí
está também o teu coração” (Mat. 6:21). Semelhantemente, encontramos
também expressões consideradas parábolas em embrião, como esta: “Onde
estiver o cadáver, aí se ajuntarão os corvos” (Mat. 24:28). Outro dito axiomático
é: “Quem não é comigo é contra mim” (Mat. 12:30).

Não sabemos se tais afirmativas e sentenças eram coisas estudadas ou
espontâneas. O que sabemos é que foram mais que eficientes. Em nosso país
temos visto a eficácia de sentenças proferidas por homens como Benjamim
Franklin, Will Rogers e J. B. Gambrell. Este último é o mais citado entre os
batistas do Sul. Talvez não estejamos capacitados para formular por nós
mesmos ditados e sentenças para nosso uso, mas podemos adquirir alguns
deles e de outras pessoas.

C) Figuras de linguagem

Jesus fez mais que empregar materiais concretos e sentenças lapidares.
Para tornar a verdade mais impressionante, empregou constantemente inúmeras
figuras de linguagem. Horne avança tanto em suas afirmativas que diz ser mais
importante sentir a beleza duma parábola do que entendê-la. Vemos que isto é
extremismo e exagero; não obstante, prova o efeito das figuras de linguagem na
vida. Empregando-se metáforas, corre-se o risco de ser mal interpretado; mas
vale a pena porque elas movimentam e dão colorido ao ensino. O mestre comum
talvez não esteja preparado para usar muitas delas, mas, podendo fazê-lo,
certamente tornará mais eficaz o seu ensino, pois que as figuras de linguagem
são como “maçãs de ouro em salvas de prata” (Prov. 25:11). Elas sempre
impressionam favoravelmente.

Por isso as parábolas são as principais figuras de linguagem empregadas
por Jesus. Não obstante, o Mestre usou bom número de outras figuras, como
comparações e analogias. Disse ele: “Quantas vezes quis eu ajuntar teus filhos,
como uma galinha ajunta os seus pintos debaixo das suas asas, e não o
quiseste!” (Mat. 23:37). A alegoria ou comparação sistemática é em parte
usada quando ele diz: “Eu sou a videira, vós sois as varas” (João 15:1-10). A
beatitude ou bem-aventurança, espécie de exclamação, é empregada quando
diz: “Oh! bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mat. 5:8,
tradução de Kent). Empregou também a hipérbole, quando falou no camelo a
passar pelo fundo duma agulha (Mat. 19:24).

Também lançou mão de contrastes ao dizer: “Não ajunteis tesouros na terra,
mas no céu” (Mat. 6:19,20). Também usou de modo eficiente o paradoxo ou
contradição aparente: “Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á” (Mat. 16:25).
Sherril também nos lembra o emprego de formas poéticas, ao dizer: “Podemos
encontrar a poesia hebraica nas afirmações de Jesus, especialmente naquele
seu paralelismo, ritmo e rima.” O domínio e o uso das várias figuras de
linguagem serão valioso auxílio para qualquer professor.

3. Os Propósitos

Como usou Jesus as várias espécies de material de que vimos falando?
Eram material de conteúdo, ou simples ajuda para o seu ensino? Estes
problemas são vitais hoje no ensino moderno, e o exemplo de Jesus nos pode
trazer alguma luz sobre o assunto. Em geral, Weigle está certo quando afirma:
“Jesus iniciou sua obra de mestre não como quem tem certo arsenal de material
e precisa transmiti-lo a seus discípulos numa ordem própria, lógica e
predeterminada, mas como quem sente claramente que os discípulos eram
pessoas vivas, ativas e necessitadas que esperavam sua ajuda para poderem
enfrentar sábia e vitoriosamente as circunstâncias e situações em que se
achavam.”

A) Iniciar

Algumas vezes ele começava com uma afirmação das Escrituras e a
elaborava, como vemos no Ensino do Monte quando mencionou o que Moisés
havia dito a respeito do assassínio, do adultério, dos votos, da vingança, do ódio
e doutros mais assuntos, e daí passou a alargar tais ensinos e a “completá-los”
(Mat. 5:21-48). Por exemplo, Jesus mostrou que o assassínio está na atitude do
coração e não meramente no ato de matar. Semelhantemente, revelou que o
adultério está no olhar cúpido e sensual tanto quanto no ato manifesto abertamente
em si. Assim, mostrando respeito aos ensinos da lei e dos profetas, foi
muito além, e lhes deu um significado mais íntimo e mais profundo.

À vista da reverência que nossos alunos têm para com a Bíblia, podemos
perfeitamente começar nosso ensino com referências ao que ela diz, para atrair
a atenção e despertar o interesse deles. Daí podemos avançar, para aplicar suas
verdades aos problemas da vida deles. Será ótimo e eficiente tanto quanto o
outro processo que consiste em começar com o problema e terminar com as
Escrituras.

Jesus não só usou as Escrituras para começar seu ensino, mas também
usou as experiências dos presentes como ponto de partida. Já vimos isto no
caso daquele homem que solicitou de Jesus que repartisse a herança entre ele c
seu irmão, e anotamos que Jesus disso se aproveitou para dar uma lição sobre a
avareza. Jesus igualmente aproveitou o fato de murmurarem acerca de sua lide
com publicanos e pecadores e ensinou a lição do amor e cuidado de Deus para
com os perdidos; e aproveitou também o fato de os fariseus censurarem seus
discípulos por terem colhido e comido espigas no sábado, para lhes ensinar o
verdadeiro significado do dia de descanso.

Também se aproveitou da ocasião em que curou um enfermo introduzido
pelo teto duma casa para enfatizar seu poder de perdoar pecados; da ocasião
em que mostraram estranheza por ele comer com publicanos, para afirmar que
não são os sãos que necessitam de médico, e, sim, os enfermos. Aqui damos
poucos exemplos para não cansar os leitores; são, porém, suficientes para
provar que o Mestre aproveitava todas as ocasiões favoráveis para ensinar a
verdade. Não poucas vezes, as lições mais importantes que ensinou brotaram
de situações que encontrou em sua obra, como muitas vezes sucede conosco.
Os exemplos citados nos ajudam a ver que o verdadeiro mestre usa seu
material como meio. para ensinar e não como fim. Também eles nos ensinam
que é melhor apegarmo-nos ao aluno do que à lição impressa, porque, em última
análise, estamos ensinando gente e não propriamente lições. Não existe
nenhuma regra invariável no que respeita ao modo de se iniciar uma lição.
Aquele que der melhor resultado será sempre o melhor modo. Podemos vantajosamente começar com a natureza, como Jesus fez ao pronunciar suas
parábolas do solo, do joio, da semente de mostarda, do fermento, do tesouro e
das pérolas. Isto lhe deu base para explicar o Reino do Céu (Mateus, cap. 13).
Muitos professores do curso elementar hoje fazem isso.

B) Aclarar

Jesus continuamente usava material escriturístico e outros mais cem o fito
de lançar luz sobre algumas afirmativas já feitas, e, assim, aclará-las. Este, na
verdade, é o significado do verbo “ilustrar”, que literalmente quer dizer “iluminar”
ou “fazer luz sobre alguma coisa”. Ele fez com que a luz da revelação e dos
incidentes do dia incidisse sobre verdades que não estavam bem claras, para
que seus discípulos pudessem apanhá-las. Isto explica o glorioso fato de seus
ensinos terem permanecido tão claros através dos séculos. É que seus ensinos
foram em mor parte transmitidos por meio de parábolas, em que se toma na
natureza ou da experiência de cada dia um incidente real ou imaginário para
aclarar alguma verdade moral ou espiritual.

Na controvérsia com os judeus a respeito do sábado, Jesus se referiu ao
que fez Davi para ilustrar seu ensino de que o homem é maior do que as
instituições, e disse: “Ele entrou na casa de Deus e comeu com eles os pães da
proposição, os quais não lhe era lícito comer, nem aos seus companheiros, mas
somente aos sacerdotes” (Mat. 12:4). Na mesma ocasião, para ainda aclarar
mais o que ensinara, ele disse: “Não lestes na Lei que aos sábados os
sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa?” (Mat. 12:5). Um
exemplo de acontecimentos da época é a referência que ele fez aos dezoito que
morreram esmagados pela torre de Siloé, acontecimento que Jesus se valeu
para chamar a atenção de todos para a necessidade do arrependimento. Com o
mesmo propósito ele fazia sempre referências à natureza. Em parte foi para
aclarar sua missão que ele citou Isaías, anunciando o propósito do seu
ministério, quando se pôs de pé na sinagoga para ler as Escrituras.

“Poderoso auxílio é uma ilustração na hora ou no ponto exato”, pois que
tremendo é seu valor em toda obra educativa. A média das pessoas com quem
lidamos lembrará melhor uma boa história do que a afirmação duma verdade ou
os dados duma estatística, ou mesmo dos seus argumentos. As coloridas ilustrações
de Carlos H. Spurgeon, de Billy Sunday e de Jorge IV. Truett falam tanto
como suas mensagens. Sim, como setas farpadas levam suas mensagens até o
íntimo dos ouvintes. Se tiradas das Escrituras, mais eficazes são ainda, por
causa de sua larga familiaridade com elas e por causa da veneração que todos
lhe devotam. Não temos fonte melhor desse material que o Velho e o Novo
Testamentos. Assim cada professor deve satu-rar-se de boas ilustrações, tiradas
dali, como da história geral, de biografias, da ficção, da natureza e dos
acontecimentos do seu tempo.

C) Fortalecer

Jesus empregava as Escrituras para iniciar uma lição para aclarar seu ensino
e também ainda para enfatizar aquilo que dissera. Nesses casos, ele as usava
mais como referência do que como manual. Como um prelecionador ou mestre
cita de diversas fontes, ao falar ou escrever, assim Jesus se referia às Escrituras,
ao ensinar. Naturalmente o testemunho de outros dá peso às afirmativas deste ou
daquele indivíduo, mormente quando as pessoas citadas gozam de autoridade
comprovada e reconhecida. Podemos, então, de novo afirmar aqui que, em
virtude do conceito e veneração de que goza a Bíblia Sagrada, as citações que
dela se fazem são sempre as mais eficazes. Até mesmo advogados e políticos
reconhecem isto, e não poucas vezes citam nos tribunais e em suas campanhas
versículos e trechos das Escrituras, “para que pela boca de duas ou três
testemunhas toda palavra seja confirmada” (Mat. 18:16). Aqui está o valor do
emprego de passagens paralelas.

Um exemplo deste uso é a citação que ele fez de Isaías quando expulsou os
vendilhões do Templo, dizendo então: “Está escrito, ‘Minha casa será chamada
casa de oração’, mas vós fizestes dela um covil de ladrões” (Mat. 21:13). Ao terminar
a parábola do lavrador e da vinha, Jesus citou: “Nunca lestes esta
escritura: A pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta como pedra
angular?” (Mar. 12:10). Quando frisou que sua vinda traria tanto divisão como
paz, disse: “Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior correrão rios
de água viva” (João 7:”38). Foi mais ou menos nesta base que o Mestre explicou
aos dois do caminho de Emaús as coisas que as Escrituras diziam a seu respeito.
De fato, encontramos muitos exemplos do uso que Jesus fazia das Escrituras
para aclarar assuntos que se referiam a ele ou a seu ensino.

Algumas vezes, cm casos que requeriam maior ênfase, Jesus ia além e
apelava para as Escrituras como autoridade final, ou como para uma corte
suprema. Assim, ele a usava, ou dela lançava mão, como o advogado faz cem a
decisão dum tribunal ou com a lei constitucional. Lançava mão dela não como de
algo arbitrário, c, sim, como fundada na verdade, e, portanto, como sendo quem
devia dizer a última palavra. Bom exemplo temos quando Jesus silenciou aqueles
que c criticavam, apenas fazendo referência e apelando às Escrituras, àquilo que
Davi testemunhara a respeito de Jesus, chamando-o de Senhor; assim Jesus
reduziu a nada a oposição que os fariseus lhe faziam quando negavam ser ele
filho de Davi (Mat. 22:41 -45).

Quando Jesus foi tentado por Satanás a lançar-se do pináculo do Templo
para que Deus o sustivesse, ele respondeu: “Está escrito: Não tentarás o Senhor
teu Deus” (Mat. 4:7; Deut. 6:16). E quando tentado a adorar Satã, disse: “Está
escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás’ ” (Mat. 4:10). Igualmente se valeu da lei de Moisés, como autoridade final, para combater os
esforços que os fariseus faziam no sentido de liberalizar o divórcio (Mat. 19:3-6;
Gên. 1:27; 2:23,24). Nada, na verdade, fortalece mais o nosso ensino do que
um apelo “à lei e ao testemunho”.

Sugestões auxiliares para o ensino do quinto capítulo

Esboço no Quadro-negro

1. As Fontes
1) As Sagradas Escrituras
2) A Natureza
3) Afazeres Comuns e Correntes

2. As Formas
1) Afirmativas Concretas
2) Expressões Incisivas
3) Figuras de Linguagem

3. Os Propósitos
1) Iniciar
2) Aclarar
3) Fortalecer

Tópicos para Discussão

1. Como Jesus adquiriu seu conhecimento das Escrituras?
2. Ao ensinar, é melhor partir das Escrituras ou concluir com elas?
3. Qual o uso mais eficaz que se pode fazer da Bíblia?
4. Por que os acontecimentos atuais são valiosos no ensino?
5. Mencione outros usos que podemos fazer de materiais.
6. Dê exemplos doutras espécies de figuras de linguagem.

Assuntos para Revisão e Exame

1. Quais as três fontes do material de que se serviu o Mestre?
2.Apresente e ilustre as formas que ele usou.
3. Explique os três modos pelos quais ele usou seu material.

Fonte: A PEDAGOGIA DE JESUS 3º edição

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